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Desencontro

Nas travessuras da noite jurámos
Ter uma casa de fachada antiga
Para contar cabelos brancos.
De olhos nos olhos desenhámos 
A casota do cão 
Sultão feliz em seu divã deitado.
Águas mansas também se enfurecem 
O azul torna-se pardo 
Quando não lhe bate o sol.
Cedro, mirra, incenso, aragem
E o que era amor seguiram viagem
O juramento perdeu o sentido. 
Desse nosso desencontro 
Sobrou a lareira no corpo acesa, o mapa escrito na pele, as memórias de um tempo de delicadeza. 
Uma história tão bonita sem capítulo final. 
Quando olho a casa de fachada antiga, onde quis emoldurar a vida, 
Penso se ainda serás o mesmo
Se enlouqueces de saudade, se escutas o meu nome na aragem 
Ou se tens outro alguém a quem contar cabelos brancos.
Helena Ferro de Gouveia, 18.06.2015
 

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Nosso amor 

Nosso amor é perfeito
Suave como a seda das Índias
Som do vento nas velas dos navios,
Dedos de areia e lábios de sal.
Nosso amor é perfeito
E que doçura entregar-me
Não ao sonho, és existência
Poema, morada e abrigo.
Nosso amor é perfeito
Não há muito que dizer
Pois para isso fomos feitos
Para nos determos no olhar, vivendo
para além do tempo. 
HFG, Junho 2015

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Ver o mar 

Vim para ver o mar contigo.
O lugar não importa.
Só os ventos de longe que agitam os cabelos
As ondas moldando a forma de um corpo. 
A graça inquieta dos teus olhos doces
Qualquer coisa como a luz e vida. 
Falarei baixo, 
Para não perturbar o sossego na tarde parada
Trago na ponta dos dedos um afago,
poderosa ternura que nada pede
A vontade de encostar a minha face em tua face
Ah pudera eu dizer-te tudo.
Vim para ver o mar contigo.
Com a imagem tua que eu compus serena.
Falarei baixo, pedido à brisa que te leve as minhas palavras
Na verdade é o infinito trazer-te mim,
E a lembrança de cada instante vivido.
HFG, 2015

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Nos teus olhos

Voltar ali
Numa noite sem lua
Procurar o sobressalto da luz
Que se abriga nos teus olhos

Não são azuis como safiras,
Mas mar sem horizonte onde me perdi
Neles competem espuma, conchas e corais
Desassossego que morde com os lábios da paixão

De mãos vazias de ti
Invento-nos na memória das palavras
Que me escreveste na pele com a ponta dos dedos
Peço às constelações por empréstimo o brilho do teu olhar

E a redenção virá ao saber
Que nas noites sem lua,
Quando te chamo na praia deserta que trago em mim,
Se abriga na luz sem véu dos teus olhos
A pérola redonda das coisas que o meu amor náufrago deixou em ti.

Helena Ferro de Gouveia

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Missangas de sal

Lágrimas?
Do avesso das pálpebras soltam-se
Em missangas de sal instantes que foram vivos.

Lágrimas?
Poentes de ternura recolhidos
Ventos que voltam mas não te devolvem.

Lágrimas?
Meus lábios sem ocupação
Dedos desatentos sem corpo para percorrer.

Lágrimas?
Feitiço sem redenção que me habita
Como as estrelas ocupam o céu.

O gume que me sulca o rosto és tu.

Helena Ferro de Gouveia, 2014

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Não me respondas

Não me respondas
se as tuas mãos amantes
me buscam longamente
num amor sereno, sem tempo
se esqueceste que no fundo dos meus olhos habitam os teus .

Não me respondas
se sou eu quem vês
quando acordas feliz
se me encontras nas esquinas do mundo,
na chávena de café,
e me emprestas os lábios.

Não me respondas
se sentes a minha respiração
num abandono desordenado
à procura do abismo em ti.

Enquanto calas
eu, os meus poemas, a constante presença da tua saudade
bebem na fonte doce da possibilidade.

Não me respondas.

Helena Ferro de Gouveia, 2014

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Vagabundo, sem vergonha, poeta. Génio.

Não será o maior poeta brasileiro – como se entre o Gullar, o Bilac e o Drummond se pudesse escolher apenas um – porém o mais amado. Defini-lo não é fácil, Vinicius de Moraes foi muitos. Vagabundo, boémio, amante das mulheres todas, mesmo as feias, letrista, diplomata, cidadão do mundo. Poucas pessoas viveram a vida com tanta liberdade, despudor e prazer.

O seu amigo Paulo Mendes Campos interroga-se se “existirá na língua portuguesa outra fascinação tão global pela mulher?”. E não se trata apenas da capacidade de descrever a beleza em todas as suas curvas, de exortar a feminilidade, mas também de entender suas fraquezas. Talvez em “Desespero da Piedade” Vinicius diga tudo.

Drummond de Andrade invejava-lhe a simplicidade, a imagem como verbo. Vinicius é sempre evocação. Haverá melhor definição de amor que a escrita, em Outubro de 1939 no Estoril, no verso final de “Soneto de fidelidade” ? “Que não seja imortal, posto que é chama/Mas que seja infinito enquanto dure”.

Gosto de quase tudo do Vinicius, agradeço a graça de o poder (re)ler em frente ao mar, palavras como veleiros sós em portos silenciosos- em ano de centenário as livrarias brasileiras reeditaram-no – porém as palavras do poeta que mais me tocam não são um poema encontrei-as em “O dia do meu pai”.

Partilho-as.

“Faz hoje nove anos que Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, homem pobre mas de ilustre estirpe, desincompatibilizou-se com este mundo. Teve ele, entre outras prebendas encontradas no seu modesto, mas lírico caminho, a de ser meu pai. E como, ao seu tempo, não havia ainda essa engenhosa promoção (para usar do anglicismo tão em voga) de imprensa chamada “O Dia do Papai” (com a calorosa bênção, diga-se, dos comerciantes locais), eu quero, em ocasião, trazer nesta crônica o humilde presente que nunca lhe dei quando menino; não só porque, então, a data não existia, como porque o pouco numerário que eu conseguia, quando em calças curtas, era furtado às suas algibeiras; furtos cuidadosamente planejados e executados cedo de manhã, antes que ele se levantasse para o trabalho, e que não iam nunca além de uma moeda daquelas grandes de quatrocentos réis. Eu tirava um prazer extraordinário dessas incursões ao seu quarto quente de sono, e operava em seus bolsos de olho grudado nele, ouvindo-lhe o doce ronco que era para mim o máximo. Quem nunca teve um pai que ronca não sabe o que é ter pai.
Se Clodoaldo Pereira da Silva Moraes e eu trocamos dez palavras durante a sua vida, foi muito. Bom dia, como vai, até a volta – às vezes nem isso. Há pessoas com quem as palavras são desnecessárias. Nos entendíamos e amávamos mudamente, meu pai e eu. Talvez pelo fato de sua figura emocionar-me tanto, evitei sempre pisar com ele o terreno das coisas emocionais, pois estou certo de que, se começássemos a falar, cairíamos os dois em pranto, tão grandes eram em nós os motivos para chorar: tudo o que podia ter sido e que não foi; tudo o que gostaríamos de dar um ao outro, e aos que nos eram mais caros, e não podíamos; o orgulho de um pai poeta inédito por seu filho publicado e premiado e o desejo nesse filho de que fosse o contrário… – tantas coisas que faziam os nossos olhos não se demorarem demais quando se encontravam e tornavam as nossas palavras difíceis. Porque a vontade mesmo era a de me abraçar com ele, sentir-lhe a barba na minha, afagar-lhe os raros cabelos e prantearmos juntos a nossa inépcia para construir um mundo palpável”.

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