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Absurdamente humana

Quero-me forte, penhasco perfeito de perfil exacto.
Contra o qual se esmagam as águas no limite da fúria
e se mantém intacto.

Quero-me forte, farol que o longe alcança 
Que vai de mar em mar, de céu em céu, 
pequena chave dos grandes portos.  

Quero-me forte, encerrar a coragem numa moldura
Para nas noites sombrias a contemplar. 
E suplicar que não perturbem a paz que me foi dada.

Quero-me forte,sou de cristal,na orla da praia frágil grão de areia.
Quero-me forte e por vezes acredito,
Não fora tão absurdamente humana. 
HFG

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Nada mudou 

 

Nada mudou. Sobre o teu nome deixei cair o tempo, rasguei-o numa árvore. Não te invoco. Encontro-te no recorte do silêncio tão pesado que me dobra. Aguardo um vento de feição que leve o teu perfume que me atravessa. Assim me faço ao sono, noite após noite, lembrando horas, de olhos desatentos sobre os livros, em que me demorava a ver-te dormir. 

Nada mudou. Parti para os lugares derradeiros do mundo. Viajei países de luz clara e pátios com palmeiras. Naveguei mares incertos com bússola e astros. Escolhi ser outra pessoa, mas as águas não tiveram compaixão, devolveram-me o verde do teu olhar. 

Em nenhum lado, nem nas noites de luar transparentes, encontrei um lugar sereno. 

Nada mudou. Porque é atrás de ti que fecho a mala, que escolho os livros que não abandono a meio. Tenho o teu nome rente aos lábios e ainda que o quisesse murmurar calo-me. 

É por ti, nesses países onde a luz quente me afaga os ombros, que recuso outras bocas, outros braços ancorados na minha cintura, outro peso a esmagar-me sobre a areia. 

Sei que não volto ao teu corpo, que a tua voz não chamará por mim, que este amor é um mapa que não volto a desdobrar, que continuarás a partir na véspera de eu chegar.

Mas nada mudou, ainda que em silêncio guardo o que por instantes foi meu. Talvez este amor estivesse escrito, se não o estava escrevo-o eu. 

Helena Ferro de Gouveia, 29.07.15

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Receita para viver

Receita para viver 
A vida raramente é um trevo de quatro folhas ou um pêssego doce e sumarento que se aconchegue exacto no côncavo da mão. 

Viver é escrever na areia ao abrigo das falésias, e esperar que a maré tarde como o crepúsculo no Verão.

É regressar a casas onde o sol adormecia no telhado, os cheiros, as memórias eram as nossos e nos baús onde estavam as cambraias e linhos encontrar lãs. E se dói, há coisas que mala nenhuma pode levar. 

É fazer chamamentos a que ninguém acode noite após noite. Não falar de detalhes intranquilos como os sentimentos, desejos e demónios que perturbam a noite.E arrepender-se do silêncio porque o sentir não se adivinha. Nem o amor se estende como um mapa antes da viagem.

Viver é perseguir o sol, voar com as aves de arribação, sem a certeza de voltar. Deixar um livro partido no meio por ler e conquistar as horas. Às vezes as horas magoam-nos. Outras virão. Não vivas à espera de uma dor que teimas que há-de chegar, posso não ter tempo para salvar-te.
As histórias de amanhã são livros por escrever, pegadas no deserto por traçar, caminhos de São Tiago a percorrer. 
Larga a âncora, o velho calendário cheio de desencontros, e faz da mais pequena história do mundo, a nossa, por instantes enorme.

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Desencontro

Nas travessuras da noite jurámos
Ter uma casa de fachada antiga
Para contar cabelos brancos.
De olhos nos olhos desenhámos 
A casota do cão 
Sultão feliz em seu divã deitado.
Águas mansas também se enfurecem 
O azul torna-se pardo 
Quando não lhe bate o sol.
Cedro, mirra, incenso, aragem
E o que era amor seguiram viagem
O juramento perdeu o sentido. 
Desse nosso desencontro 
Sobrou a lareira no corpo acesa, o mapa escrito na pele, as memórias de um tempo de delicadeza. 
Uma história tão bonita sem capítulo final. 
Quando olho a casa de fachada antiga, onde quis emoldurar a vida, 
Penso se ainda serás o mesmo
Se enlouqueces de saudade, se escutas o meu nome na aragem 
Ou se tens outro alguém a quem contar cabelos brancos.
Helena Ferro de Gouveia, 18.06.2015
 

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Nosso amor 

Nosso amor é perfeito
Suave como a seda das Índias
Som do vento nas velas dos navios,
Dedos de areia e lábios de sal.
Nosso amor é perfeito
E que doçura entregar-me
Não ao sonho, és existência
Poema, morada e abrigo.
Nosso amor é perfeito
Não há muito que dizer
Pois para isso fomos feitos
Para nos determos no olhar, vivendo
para além do tempo. 
HFG, Junho 2015

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Ver o mar 

Vim para ver o mar contigo.
O lugar não importa.
Só os ventos de longe que agitam os cabelos
As ondas moldando a forma de um corpo. 
A graça inquieta dos teus olhos doces
Qualquer coisa como a luz e vida. 
Falarei baixo, 
Para não perturbar o sossego na tarde parada
Trago na ponta dos dedos um afago,
poderosa ternura que nada pede
A vontade de encostar a minha face em tua face
Ah pudera eu dizer-te tudo.
Vim para ver o mar contigo.
Com a imagem tua que eu compus serena.
Falarei baixo, pedido à brisa que te leve as minhas palavras
Na verdade é o infinito trazer-te mim,
E a lembrança de cada instante vivido.
HFG, 2015

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Nos teus olhos

Voltar ali
Numa noite sem lua
Procurar o sobressalto da luz
Que se abriga nos teus olhos

Não são azuis como safiras,
Mas mar sem horizonte onde me perdi
Neles competem espuma, conchas e corais
Desassossego que morde com os lábios da paixão

De mãos vazias de ti
Invento-nos na memória das palavras
Que me escreveste na pele com a ponta dos dedos
Peço às constelações por empréstimo o brilho do teu olhar

E a redenção virá ao saber
Que nas noites sem lua,
Quando te chamo na praia deserta que trago em mim,
Se abriga na luz sem véu dos teus olhos
A pérola redonda das coisas que o meu amor náufrago deixou em ti.

Helena Ferro de Gouveia

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