A crise 

Quando o ambiente geral convida ao pessimismo ou pode descambar em depressão, é hora de ler. Prosa, poesia, um jornal, tanto faz.  Sábio verdadeiro é aquele que tem com a vida uma relação directa. Aquele que no pequeno mundo do dia a dia sabe identificar as coisas boas da vida. Conta o Otto Lara Resende, … More A crise 

Conto de Ano Novo

Havia um muro de pedra que bordava o caminho. Bordava e ainda borda. Eu é não passo naquele caminho há muito tempo, nem vejo a silhueta do muro recortada contra o céu a despedir-se da noite. Nem prendo o olhar nas maçãs bravo-de-esmolfe, nos  medronheiros  ou no pessegueiro ao fundo. Era véspera de Ano Novo. … More Conto de Ano Novo

Brevíssimas notas

Às vezes parece-me que a vida é como encontrar pessoas num comboio. Começamos a gostar delas e elas descem numa paragem não prevista e nós seguimos. Com outros passageiros, numa outra carruagem. E não sabemos qual vai ser a nossa derradeira paragem. 2.  Algumas pessoas são como o corrector automático do iPhone, em     … More Brevíssimas notas

Manias

Eu tenho. Tu tens. Ele tem. Não é uma lição de conjugação verbal. É uma constatação. Estou a falar de manias que todos temos. Uma mania é uma mala, maior ou menor, que carregamos connosco e cada uma delas tem uma história para contar. Há quem tenha a mania de estender a roupa por cores … More Manias

Tempo de cerejas *

Uma longa e doce nostalgia apertou-lhe o coração. Não apenas a nostalgia da mulher, mas sobretudo a de a saber pretérito definitivo. Fora um por acaso que a conhecera. A internet tornou o mundo num lugar sem distância. O algoritmo do Facebook, esse cúpido moderno, sugeriu-lhe que lhe pedisse amizade. O ano aproximava-se do final, … More Tempo de cerejas *

Falemos do tempo

Abre-se o Facebook, lê-se o email ou conversa-se com amigos ou conhecidos de circunstância e lá vem ele: o tempo. Para muitos falar do tempo é algo supérfluo, small talk para quebrar o gelo. Fiquei a pensar nisso. Conta o Luis Sepúlveda que um dia, num encontro de escritores, um autor escandinavo se apresentou dizendo … More Falemos do tempo

Missangas de sal

Lágrimas? Do avesso das pálpebras soltam-se Em missangas de sal instantes que foram vivos. Lágrimas? Poentes de ternura recolhidos Ventos que voltam mas não te devolvem. Lágrimas? Meus lábios sem ocupação Dedos desatentos sem corpo para percorrer. Lágrimas? Feitiço sem redenção que me habita Como as estrelas ocupam o céu. O gume que me sulca … More Missangas de sal

Procuro-me

Nos dias desagasalhados de alegrias, naqueles em que sinto a aresta cortante da ausência procuro-me. Procuro-me no sussurrar da chuva tempestiva que o Inverno enche de perfumes. Procuro-me nas ondas apressadas e só encontro o longe que se afasta. Procuro-me na música que empresta a voz ao que sinto de forma silenciosa. Procuro-me nas palavras … More Procuro-me

Blá, blá, blá

É uma estratégia universal. Falo do aviãozinho que todos os pais (mães e avós) usam para tentar convencer o rebento a engolir a sopinha de legumes. Pegam na colher, mergulham no prato e direccionam-na, subindo e descendendo numa viagem de circum-navegação que incessantemente recomeça. O que leva um adulto, razoavelmente inteligente, a acreditar que a … More Blá, blá, blá

Post Obsceno

A distância que nos separa tem o diâmetro da vida. Bona. Amesterdão. Porto. Vila-Real. Vila-Nova. Está gélida a noite. Abro a porta da capela. Descobri na soleira daquela porta que a cada passo me aproximo do precipício. Passa das 23 horas, a aldeia dorme. Observo-lhe as mãos. As mãos do meu pai foram sempre extravagantes. … More Post Obsceno

Até já Pai

Quando o peito é oprimido por tenazes de ferro consolam-me as palavras de Vinicius. “E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada”. É isto que se chama a vida. Sábado a minha filha mais velha tornou-se adulta. … More Até já Pai