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Mulheres viajantes: um livro em carne viva

Não sei muita coisa acerca de mim mesma. Mas se há algo que sei é que a curiosidade me move, torna a vida possível, me permite dar sentido ao que aparentemente não o tem e arriscar ver o mundo, não apenas olhá-lo.

A curiosidade é como uma fera que temos no peito. Basta às vezes uma pequena centelha para corrermos atrás. Neste caso bastou o título:”Mulheres Viajantes”. O livro de Sonia Serrano conta a história de várias viajantes destemidas que desafiaram convenções.

Hoje se alguém chamar a um cavalo Baalbek (as célebres ruínas libanesas) como o fez Mark Twain, ninguém entenderá porquê. Para o perceber a que conhecer a indómita “flor do deserto”. E foi por ela, mais o menos a meio do livro, que comecei a minha leitura. Falo de
Gertrude Bell (1868-1926), a primeira mulher licenciada em história contemporânea por Oxford e a fundadora da primeira escola feminina de Bagdade.

Nascida no seio de uma das mais abastadas famílias britânicas da época vitoriana, foi arqueóloga, cartógrafa,alpinista, poeta e nómada e tão livre quanto a época o permitia.
Muito jovem se apaixonou pelos desertos do Médio Oriente, que percorreu durante meses a cavalo, e pelos bazares da Pérsia. Escalou o Matterhorn, em 1904, e um dos cumes dos Alpes suíços, o Gertrudspitze, recebeu este nome em sua homenagem. Detalhe delicioso é o de ela praticar alpinismo de saias até ao fundo dos pés e camisas abotoadas até ao pescoço. Nota não menos fascinante acerca desta mulher: a sua educação vitoriana impediu-a de se entregar ao homem que amava.

É comum referir-se a elegância e o requinte das expedições de Gertrude Bell, que sempre se fazia acompanhar da melhor porcelana britânica, de toalhas de linho e até de banheiras portáteis. Uma Lady é sempre uma Lady. Quem já atravessou o deserto sabe no entanto que nenhuma comodidade aplaca o calor, a sede, as tempestades de areia.

O espólio deixado por ela deixado é vastíssimo, cinco livros de viagens, sete mil fotografias e ainda pouco conhecido. No filme, O Paciente Inglês, há uma cena que mostra alguns soldados britânicos debruçados sobre um mapa e perguntando se é possível atravessar determinada região montanhosa. Um dos soldados diz, “os mapas de Bell mostram um caminho”, o outro responde “bom esperemos que ELE tenha razão”.

“Mulheres viajantes” é escrito para alguém que goste de histórias tão reais que parecem ficção, para quem gosta de pessoas em carne viva feitas de nuanças, texturas, cheiros, palavras e silêncios. É também uma profissão de fé na viagem e na capacidade de derrubar barreiras e convenções. Numa palavra: magnífico.

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Tugce, mais do que um gesto

Uma mulher turca de beleza suave chamada Tugce Albayrak jantava no McDonalds quando ouviu gritos de socorro. Como descrever o que ela, estudante universitária de alemão e ética, viu? Como descrever violência destruidora que não deixa hematomas visíveis? Tugce escutou o desespero de duas adolescentes assediadas por um grupo de homens na casa de banho do restaurante e interveio. A força dessa intervenção vai além do próprio gesto, é a própria compaixão resgatada.

Olhar e querer ver é uma opção, a mais difícil das escolhas. E é neste percurso entre o olhar e o ver que entramos nós, bem menos inocentes do que pensamos. Porque é que Tugce se tornou num símbolo e levou milhares de pessoas a expressar a sua perturbação ? Porque o que ela escolheu ver arranca-nos do conforto de espectadores, lembra-nos o que não quisemos ou fomos capazes de avistar: a violência que insidiosamente consideramos normal.

Não há nada de normal aqui. A regra para quem tem 22 anos é viver e não morrer. Não há nada de normal em as mulheres não serem seres de direitos plenos e não de direitos descartáveis. Seria bem mais fácil encontrar apenas um vilão para culpar: o homem que a agrediu e em consequência dessa agressão lhe provocou a morte.

A morte de Tugce não chocou a Alemanha pela novidade, a estatística é clara: mais de quarenta por cento das mulheres na Alemanha foram vítimas de violência física ou sexual. Quarenta por cento sublinho. Emocionou o país por ser uma mulher a única, num restaurante cheio de homens, a ter Zivilcourage. Comoveu por ser uma estrangeira e muçulmana. Sensibilizou por ser uma jovem que doou o coração, os pulmões e rins para outros pudessem sobreviver à sua morte.

Tamanha coragem envergonha. Expressão disso foi a proposta indecente de um grande jornal alemão: que se fizesse um silêncio de letras sobre caso. Discordo de forma radical. Só a pressão sistemática e diária permitirá acabar com a violência sobre as mulheres. A singular homenagem que podemos fazer a Tugce é denunciar, inscrever-nos , e não silenciar e iludir-nos com lamentos de ocasião.

“O primeiro dia sem Tugce é como um dia onde o sol teima em não nascer”. Palavras de pai. Não há hipérboles na gramática dos pais que perderam uma filha.

Germany

Foto dpa

Tugce

Foto dpa

 

 

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Book a Tiger

1. Como em tudo na vida, no Facebook também é preciso moderação no consumo. Tome-se o caso de hoje. O certamente bem intencionado algoritmo recomendou-me a página “Book a Tiger”. Tocou de imediato uma sirene na minha cabeça. Que proposta era aquela?

Desconfio do algoritmo do Facebook desde que me aconselhou vários desportos radicais. Onde é que eu ia? Ah na “Book a Tiger”. Se dei a impressão de que o assunto era “sacanagem”, sinto muito, vou desiludi-los. Trata-se uma empresa de limpeza doméstica cujos anúncios exibem um giraço de pano do pó na mão. Fiquei a pensar no assunto.

Fiz uma pesquisa em blogs e revistas e constatei que a limpeza é uma questão esdrúxula entre homens e mulheres, um palco de guerra desvalorizado. Para elas pó sobre móveis é uma tragédia comparável a encontrar alguém numa festa com o mesmo vestido, já eles consideram que a colocação da louça no interior da máquina deve obedecer a critérios científicos (claro que o aspirar por baixo do tapete é considerado um detalhe).

A definição de critérios de limpeza e arrumação da casa para muitos casais é mais obscura do que as conversas (que procuro ter) com a minha empregada do Rajastão que não fala inglês, nem alemão, nem nenhuma língua europeia (mas que me sorri com os olhos e me adivinha os desejos). Claro que para grandes males, grandes remédios. Apresento-vos Achim Wiehle, um “staatlich geprüfter Desinfektor”, ou seja alguém com curso de “desinfectador” de locais do crime. Pois bem, Achim é um obcecado pela limpeza e orientador de seminários destinados em exclusivo ao sexo masculino. O primeiro módulo dos seus bem frequentados cursos é psicologia da limpeza, segue-se a explicação dos utensílios de necessário à faxina e regras básicas como : “nunca, mas nunca fazerem limpezas juntos, dividam a casa em territórios e cada um é responsável pelo seu território”. Abençoado Tiger.

2. Por falar em território, já escrevi sobre isto no Facebook, outro palco de guerra desvalorizado é a cama de casal. Quem não passou já noites de olhos abertos porque o/a parceiro/a ressona, ou porque um tem frio e o outro quer dormir de janela aberta, ou ainda porque um quer ler na cama e o outro adormece ao fim de meia página. Uma sugestão feita por sexólogos é que o casal durma em camas separadas, reservando o adormecer em conchinha ou de mão dada para noites especiais, preservando assim a relação da rotina (e da irritação provocada pelo ronco que transforma o príncipe num ogre).

Quem oferece maior resistência às camas separadas são habitualmente os homens que sentem a sua masculinidade questionada quando as companheiras não querem “dormir com eles”. Como o meu sono é pesadíssimo, adormeço com facilidade e tenho quarto de hóspedes, não formei opinião sobre o assunto, mas lembro-me das palavras, pragmáticas, de uma amiga “enquanto ele ressona eu sei que ele está ao meu lado”.

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Advertências sobre (os escrúpulos da) a fantasia*

Quem nunca sentiu a necessidade de dar sentido à própria vida, mesmo que temporariamente, ou revivê-la?

Sou depositária de uma história que me pediram para escrever. Sem julgamentos morais. Os envolvidos traziam consigo a urgência de narrar, de a projectar para além do tempo, do espaço, da precariedade do encontro, procurando habitar o presente absoluto.

Eram um pouco mais do que conhecidos e um pouco menos que amigos. Trocavam as cortesias próprias das épocas festivas e um ou outro telefonema. O coração disparado, as pernas a tremer e as borboletas no estômago chegaram através da internet. E nenhum deles é adolescente. São pessoas viajadas, com mundo e maduras. Num momento de solidão acompanhada, um a divorciar-se o outro num casamento morno, tornaram-se íntimos. Primeiro foram só palavras, jogos de sedução com sujeito, verbo e predicado no sítio certo. Precisaram de alguns encontros, de roçar de lábios e corpos até se entregarem. Uma única vez. Nunca mais se viram desde então. Guardam a memória da pele e a aventura sem culpa, sem remorso, sem vergonha. Sem querer “mexicanizar”, não podem passar um sem o outro mas não querem ficar juntos.

Ambos me perguntaram se é possível amar alguém e sucumbir a uma aventura, ou amar duas pessoas ao mesmo tempo? Apanharam-me desprevenida confesso. No início de todas as relações os amantes satisfazem-se unicamente um com outro, mas com a erosão do tempo a sedução, a fantasia começa a escassear, abrindo a possibilidade de novas experiências e nada disso tem a ver com o amor que se sente pelo companheiro ou companheira. Não estou com isto a defender a traição, tema complexo uma vez que a vida não é um enredo de samba nem um guião de cinema, nem tenho o direito de a criticar. Aos amantes que me fizeram depositária da sua história perguntei se já lhes aconteceu entrarem num local e admirarem as flores artificiais. Porquê? Algumas são sublimes. O problema é que enganam apenas os olhos, não alcançam os outros sentidos. As flores artificiais são como a precariedade de alguns encontros.

Se o encontro for mais que isso, mais do que aspiração de viver no presente absoluto sem o estorvo dos outros, então há que ter a coragem de o viver na sua totalidade, com todas as suas modulações, mesmo que isso doa. A vida pode ser inverosímil. O amor não.

*Título pedido emprestado a Luigi Pirandello

PS- Crónica publicada no P3

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O país onde as meninas de 10 anos podem casar

A Guatemala é um país muito fotogénico. As cores. Os vulcões, 33 no total. O património Maia e colonial. A paisagem de cortar a respiração. Quem nunca se deslumbrou com Antigua? Por detrás do postal turístico esconde- se uma realidade que a maioria não faz a menor ideia do seja.

A Guatemala é também o país onde as meninas de com menos de quatorze anos podem casar com autorização dos pais, nos últimos cinco anos 4983 meninas, das quais 30 tinham 10 anos, foram casadas pelas suas famílias.

Se consideramos apenas a faixa etária entre os 12 e os 18 anos, segundo o instituto nacional de estatística guatemalteco, casaram entre 2009 e 2013, 80 151 meninas e adolescentes. Num ciclo de dor e miséria que merece a atenção. São casadas em nome da “tradição”, mas também devido pobreza extrema ( as meninas são vistas como um fardo para as famílias ) e do fracasso da educação sexual nas escolas. Algumas destas meninas foram trocadas mais tarde por umas cabras e um pão.

No início deste ano uma menina de 13 anos chorava num programa de televisão dizendo que “no quiero ser mamá”. Celedonia engravidou do namorado de 23 anos e o pai decidiu que ambos casariam.

No programa nunca foi abordada a responsabilidade do maior de idade que com ela teve sexo, do pai que a empurrou para um casamento e do Estado. Nem se abordou que decisão sobre se pode ou não levar adiante uma gravidez é privada, pertence à cada mulher/menina. É uma escolha íntima, em geral difícil. Ironia perturbante: o pai desta menina é educador de saúde reprodutiva nas comunidades, trabalhando para o Ministério da Saúde.

Neste momento discute-se na Guatemala uma alteração à lei que tipifica como crime toda a relação sexual como uma menor idade. Ninguém, com excepção de algumas organizações de mulheres, a parece querer discutir com a seriedade , a honestidade e decência exigidas para algo com tanto impacto sobre o país. Durante o processo de discussão algumas ONG fizeram a proposta de realizar uma consulta popular sobre a lei porque: “fere tradições indígenas”. Outros políticos são despudoramente contra a lei porque o actual estado das coisas permite varrer para debaixo do tapete um problema gravíssimo na Guatemala: a gravidez precoce. Ao permitir o casamento assegura-se a paz social.

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Eis a coutada do macho ibérico no seu esplendor

1. Gosto de desafios. Por isso falemos da hamletiana questão: ter ou não ter tempo. E não é uma questão de ter ou não ter mais rugas ou ver a gravidade surtir o seu efeito, mas o desejo (impossível ?) de construir a vida por um processo de redução.

Num jornal português, uma personalidade conhecida questionava se as mulheres seriam mais felizes agora, com a liberdade e independência que gozam e que em contrapartida lhes rouba o “tempo no lar”.
Num pungido lamento o articulista nota “que as fadas não voltarão aos lares”. Neste ponto da leitura já minha urticária estava ao rubro e vali-me da meditação. Ohmmmm.
Ora vamos lá. O Portugal que o senhor refere, era um país em que as mulheres eram sobretudo mães e donas de casa, era um país cinzento, onde os casamentos se mantinham por fachada, mesmo que o “chefe de família” tivesse abertamente uma amante (ou várias), em que as mulheres não podiam viajar sem autorização do legítimo esposo, nem ter conta bancária, em que havia filhos bastardos, a bofetada era prova de amor e a infidelidade feminina ilibava o assassinato. A coutada do macho ibérico no seu esplendor.
A pergunta que faço é simples: qual de nós (e não me refiro apenas a mulheres) gostaria de viver num país assim?

2. É bom não perder a noção do essencial. E o essencial é que a liberdade da mulher, a liberdade conquistada pelas mulheres portuguesas – que inclui o direito a “ser infeliz” – não pode ser condicionada por um conceito de moral/família ditado por concepções religiosas e políticas e estabelecido por uma vanguarda misógina que pretende impor essa “moral” – a mulher dócil, a mulher fada do lar e pilar da família – em direito e impor a cada mulher o comportamento privado e público que os “ayatollahs” da “felicidade feminina” determinaram.

Se a mulher quiser ser “fada do lar”, óptimo, é a sua escolha. Se não quiser também é opção sua.

3. Queridos homens (ou alguns homens) se vos incomoda tanto a “falta de tempo para o lar” têm boa solução: saiam mais cedo do emprego, participem nas tarefas domésticas (não conta só levar o lixo à rua), passem mais tempo com os vossos filhos, vão buscá-los à escola, apreciem as conquistas das vossas companheiras. Ganham vocês e elas.

4. Falo do meu exemplo pessoal. Sou mãe de duas filhas maravilhosas, excelentes alunas, que falam várias línguas e tocam mais do que um instrumento musical. Mas sou muito mais que isso: sou uma profissional que adora o seu trabalho e sabe que é competente. São duas dimensões complementares, não consigo viver sem nenhuma delas. Não é fácil, exige um enorme esforço de organização e planeamento (habitualmente estou eu a aterrar e o pai das minhas filhas a partir ou vice-versa), mas o certo é que somos descaradamente felizes.

5. De cada vez que me dedico a essa arreliadora tarefa que é celebrar o dia da Mulher tropeço numa singularidade. Um grande número de mulheres têm todas as habilitações necessárias, excepto uma: não é um homem. Ohmmmm.

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Barbárie

Há coisas terrivelmente simples: na maioria dos países islâmicos as mulheres não possuem direitos. A vida pública é-lhes (praticamente) negada, são vítimas de toda a espécie de humilhações desde a obediência cega ao homem que não escolheram à mutilação genital até ao apedrejamento até à morte. Hoje foi disponibilizado um vídeo na internet – para o qual me recuso a colocar link –  que mostra o apedrejamento, até à morte, pelos monstros do IS, de uma jovem mulher síria. A mulher foi conduzida pelo próprio pai até um buraco na terra, em seguida enterrada e apedrejada. O seu crime? Ter-se apaixonado por um homem que não o seu marido, desaparecido há mais de um ano. “Quem se interessa por uma adúltera?”, pergunta-se no vídeo, ” a beleza do Islão será mostrada aos infiéis quer eles queiram, quer não”. A religião, seja ela qual for, e a “diferença cultural”  sempre tiveram  as costas largas, porém há limites. Não há  justificações religiosas para o massacre de mulheres – violadas, vendidas, apedrejadas, despojadas de direitos- que se vive na Síria, no Iraque, mas também no Irão, no Paquistão, na  Arábia Saudita, na Somália, no Egipto. As histórias destas mulheres, que de tempos a tempos afloram nas notícias, desmontam , como escreveu Inês Pedrosa, ” o discurso da boa consciência paternalista praticado no Ocidente: não, não há “uma cultura outra” difícil de “descodificar” aos nossos olhos”, nem uma religião que justifique a violação dos direitos humanos. A complacência para com a barbaridade torna-nos bárbaros. Terrivelmente simples.

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