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Em modo countdown para o Nobel da Literatura

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Os prémios literários constituem o elemento mais visível dos mecanismos de consagração dos autores ou seja uma espécie de confirmação para o “uso” do grande público.

Primus inter pares, o Nobel da Literatura é uma espécie de meridiano de Greenwich do sistema literário, embora raramente desafie o quadro de referências eurocêntricas e de um certo, chamemos as coisas pelos nomes, machismo. Das cento e nove escritoras e escritores a quem foi atribuído o Nobel da Literatura quinze provêm de países não-ocidentais, doze são mulheres, e apenas uma entre os mais de vinte autores provenientes dos Estados Unidos e do Reino Unido é mulher negra.

A história do Nobel da Literatura é feita também de recusas. A do russo Boris Pasternak que o Politburo forçaria recusar o prémio, em 1958, tendo o  Nobel sido entregue postumamente ao filho de Pasternak em 1989. Talvez a mais conhecida das rejeições seja a do francês Jean-Paul Sartre, em 1964,por considerar que nenhum homem merece ser consagrado em vida, muito menos com um prémio burguês. A atitude valeu-lhe uma ampla projecção mediática. O que poucos saberão é que onze anos mais tarde Sartre contactaria o comité Nobel e pediria que lhe fossem transferidas as 273 mil coroas suecas que constituíam a dotação do prémio. O comité Nobel recusou.

Nem sempre as escolhas da academia sueca recaíram sobre poetas ou romancistas,  em 1953 o Nobel foi entregue ao ex-primeiro ministro britânico Winston Churchill, pelo seu trabalho como historiador e biógrafo assim como pelos seus discursos. Das suas muitas intervenções celebres gosto particularmente desta:  “a política é quase tão excitante como a guerra e não menos perigosa. Na guerra a pessoa só pode ser morta uma vez, mas na política diversas vezes.”

Ahh e os palpites para hoje? Se eu pudesse alguma coisa gostava de ver uma mulher nomeada, por exemplo Svetlana Alexievich, e se tiver de ser um homem então que seja o Gullar, o Ruben Fonseca, o Mia Couto, ou, puxando pelos meus galões lusitanos, o Lobo Antunes.

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Maputo foi assim

Vista do meu quarto de hotel. A Catedral de Maputo.HFG 2013

Vista do meu quarto de hotel. A Catedral de Maputo.HFG 2013

Com os dias a fecharem-se em fade out abrupto, o tempo tem-me escasseado, mas como quero cumprir uma promessa, faço um retrato em traços largos, impressões subjectivas, da semana que passei em Maputo.

 1. A minha geografia são as pessoas é por isso sempre bom voltar e reencontrar pessoas por quem se tem carinho, que se admiram. O que me trouxe à margem do Índico foi a continuação de um trabalho que tenho vindo a desenvolver com rádios comunitárias independentes em várias províncias moçambicanas (Quelimane, Pemba, Lichinga, Nacala, Tete, Nampula). Como escreve o Mia Couto, “o que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva. É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro.”

 Não é fácil ser-se jornalista em Moçambique – este workshop teve a peculiaridade de ter em sala um membro do Comité Central da Frelimo – há pressões políticas, económicas, escassez de meios e um quotidiano duríssimo. E do outro lado do espelho há profissionais enormes, quase todos ligados à Igreja Católica, que com o pouco que têm lutam por uma sociedade mais justa e democrática, pela reconciliação nacional. Mesmo que os emissores sejam soldados com castanha de caju (a castanha antes de ser torrada pode ser usada como uma espécie de cola) em vez de solda comum, haja meninos órfãos a fazer de locutores, e os gravadores de som sejam analógicos. “Esta rádio é uma consciência. Temos de ouvir o que esses cristãos dizem”, comentava um imã a propósito da Rádio Encontro de Nampula (uma rádio católica cujo coordenador é um jovem muçulmano). Não encontro melhor definição (para todas elas).

É díficil resistir. HFG 2013

É díficil resistir. HFG 2013

 2. Acredito que as palavras mudam o mundo, que a felicidade é uma colecção de instantes suspensos. A blogoesfera tem hoje o papel que os cafés tiveram em tempos longínquos: trocam-se ideias, argumentos, informações, momentos bem-dispostos, outros nem tanto. Conhecia o Maschamba (uma porta aberta para Moçambique) há muito tempo e há muito queria conhecer as pessoas por detrás das teclas, o fio que vai compondo as missangas, esta viagem proporcionou-me esse encontro. Delicadíssimo o jpt convidou-me para jantar em sua casa e conhecer a AL (outra ilustre maschambeira). Sobre a ementa não vou escrever que não sou o Eça e teria dificuldade em lhe fazer justiça. A tertúlia foi agradabilíssima. Arrisco mesmo dizer que será inesquecível. Eu explico porquê. Tinha passado o final da tarde sintonizada na CNN à espera de redentor fumo branco no Vaticano. Sai do hotel ainda em Sede Vacante. A caminho da casa do jpt telefona-me o meu colega, ateu, entusiasmadíssimo: ” é branco, é branco”. Pedi-lhe para me enviar uma mensagem logo que se soubesse quem era o novo Papa. Seria já em casa do jpt, também ele ateu (perdoe-me a inconfidência), com o jantar na mesa e uma comoção mal contida, que veria os cortinados rubros a afastarem-se e o Papa Francisco a pedir a bênção dos fiéis para si. Esperança em bruto.

 3. Num tchopela, moto-táxi que não é para quem tenha nervos fracos e um nariz pouco sensível, o C., colega com quem já atravessei o mundo, homem generoso, de bem com a vida, diz-me que gostava de conseguir mostrar mais aquilo que sente, de dizer às pessoas que gosta delas e porque gosta delas. Falávamos de amigos, filhos e conhecidos de quem gostamos.

Fiquei a pensar nas palavras dele, nesta dificuldade, que não é só masculina, de abraçar espontaneamente alguém, de elogiar, de mostrar que estamos felizes com e por ela. Não será essa a verdadeira transgressão? Tentar transformar em algo belo os dias zangados*?

 Será possível viver sem o leve desespero do nunca-mais-se olhar-nos-olhos-outra-vez que certos abraços contêm? Ou a eterna insegurança “alguma vez te abracei como merecias?”. À despedida de Maputo abracei os meus formandos um por um. Por eles, por mim. E até abracei o C. .“Renda-se como eu me rendi” diria a Clarice Lispector.

Um exercício complexo, o de fechar a mala. HFG 2013

Um exercício complexo, o de fechar a mala. HFG 2013

4. Li 5 livros numa semana. Life is so fair.

5. Olho para a agenda e vejo a próxima partida  ao dobrar dos dias. Este está-se a tornar um blog de “até jás”.

O doce regresso a casa.HFG 2013

O doce regresso a casa.HFG 2013

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Gosto tanto de te ver leãozinho

Grave questão, de facto: como escolher um e apenas um ídolo do Sporting? A verdade é que não pode ser resolvida de uma forma racional. Resta a emoção. É difícil não se ser simpática com uma pessoa que tem a mesma idade, nasceu no mesmo mês (e no mesmo dia que José Alvalade, Wikipédia dixit), ama descabeladamente o mesmo clube, marca golos fantásticos, põe um estádio em êxtase. E tem tanta pinta, ainda por cima.

Começo por espalhar sobre a mesa, em confusão, recortes antigos de jornais, fotografias de Sá Pinto, de leões tiradas em África, uns apontamentos de poesia. Poesia? Para falar de um futebolista? Um nonsense? Não. “Vem-lhe o pressentimento; ele se lança/Mais rápido que o próprio pensamento/ Dribla mais um, mais dois; a bola trança/ Feliz, entre seus pés – um pé-de-vento!”, escreve o Vinicius e eu nem preciso de fechar os olhos para ver o Sá Pinto.

Sportinguista desde sempre, foi por ele que bati tantas vezes as pálpebras em adoração beata, rendida ao sortilégio do futebol no seu esplendor, impossible is nothing quando Sá Pinto estava em campo. “Fazer da palavra um embalo/é o mais puro e apurado/senso da poesia”, disse o Mia Couto. Que dizer de quem embala, transporta a esperança de tantos na ponta dos pés? O que Sá Pinto fazia com a bola é pura dança.

Estou convicta que a vida é uma espécie de casino: ganha-se ou perde-se na proporção do que se aposta. E Sá Pinto aposta tudo. Líder nato, teimoso, imprevisível porém leal, perigoso e por isso fascinante. Dou por mim, quase, quase, a tolerar-lhe defeitos – don’t mention Liedson – que não julgava capaz de aceitar.

 Agora a sério. Há mais príncipes encantados a transformarem-se em sapos, do que sapos a transformarem-se em príncipes encantados. Pois é, apesar dos sapos serem verdes e tudo, o que eu queria mesmo, o que eu queria muito, era que Sá Pinto, que não será o mais perfeito dos príncipes encantados porém é um grande treinador, fizesse jus ao seu apelido, Ricardo Coração de Leão, e conquistasse, não Jerusalém, mas o título. Não é pedir demais, right Ricardo?

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Aos meninos invisíveis

O menino no sapatinho
Mia Couto

Era uma vez o menino pequenito, tão minimozito que todos seus dedos eram mindinhos. Dito assim, fino modo, ele, quando nasceu, nem foi dado à luz mas a uma simples fresta de claridade.
De tão miserenta, a mãe se alegrou com o destamanho do rebento – assim pediria apenas os menores alimentos. A mulher, em si, deu graças: que é bom a criança nascer assim desprovida de peso que é para não chamar os maus espíritos. E suspirava, enquanto contemplava a diminuta criatura.
Olhar de mãe, quem mais pode apagar as feiuras e defeitos nos viventes?
Ao menino nem se lhe ouvia o choro. Sabia-se de sua tristeza pelas lágrimas.
Mas estas, de tão leves, nem lhe desciam pelo rosto. As lagriminhas subiam pelo ar e vogavam suspensas. Depois, se fixavam no tecto e ali se grutavam, missangas tremeluzentes.
Ela pegava no menino, com uma só mão. E falava, mansinho, para essa concha.
Na realidade, não falava: assobiava, feita uma ave. Dizia que o filho não tinha entendimento para palavra. Só língua de pássaro lhe tocaria o reduzido coração. Quem podia entender? Ele há dessas coisas tão subtis, incapazes mesmo de existir. Como essas estrelas que chegam até nós mesmo depois de terem morrido. A senhora não se importava com os dizquedizeres.
Ela mesmo tinha aprendido a ser de outra dimensão, florindo como o capim: sem cor nem cheiro.
A mãe só tinha fala na igreja. No resto, pouco falava. O marido, descrente de tudo, nem tinha tempo para ser desempregado. O homem era um fiorrapo, despacha-gargalos, entorna-fundos. Do bar para o quarto, de casa para a cervejaria.
Pois, aconteceu o seguinte: dadas as dimensões de sua vida e não havendo berço à medida, a mãe colocou o menininho num sapato. E cujo era o esquerdo do único par, o do marido. De então em diante, o homem passou a calçar de um só pé. Só na ida isso o incomodava. Na volta, ele nem se apercebia de ter pés, dois na mesma direcção.
Em casa, na quentura da palmilha, o miúdo aprendia já o lugar do pobre: nos embaixos do mundo. Junto ao chão, tão rés e rasteiro que, em morrendo, dispensaria quase o ser enterrado. Uma peúga desirmanada lhe fazia de cobertor. O frio estreitasse e a mulher se levantava de noite para repuxar a trança dos atacadores. Assim lhe calçava um aconchego. Todas as manhãs, de prevenção, ela avisava os demais e demasiados:
– Cuidado, já dentrei o menino no sapato.
Que ninguém, por descuido, o calçasse. Muito-muito, o marido quando voltava bêbado e queria sair uma vez mais, desnoitado, sem distinguir o mais esquerdo do menos esquerdo. A mulher não deixava que o berço fugisse da vislembrança dela. Porque o marido já se outorgava, cheio de queixa:
– Então, ando para aqui improvisar um coxinho?
– É seu filho, pois não?
– O diabo que te descarregue!
E apontava o filhote: o individuozito interrompia o seu calçado? Pois que, sendo aqueles seus exclusivos e únicos sapatos, ele se despromoveria para um chinelado?
– Sim – respondeu a mulher. – Eu já lhe dei os meus chinelos.
Mas não dava jeito naqueles areais do bairro. Ela devia saber. A pessoa pisa o chão e não sabe se há mais areia em baixo que em cima do pé.
– Além disso, eu é que paguei os tais sapatos.
Palavras. Porque a mãe respondia com sentimentos:
– Veja o seu filho, parece o Jesuzinho empalhado, todo embrulhadinho nos bichos de cabedal.
Ainda o filho estava melhor que Cristo – ao menos um sapato já não é bicho em bruto. Era o argumento dela mas ele, nem querendo saber, subia de tom:
– Cá se fazem, cá se apagam!
O marido azedava e começou a ameaçar: se era para lhe desalojar o definitivo pé, então, o melhor seria desfazerem-se do vindouro. A mãe, estarrecida, fosse o fim de todos os mundos:
– Vai o quê fazer?
– Vou é desfazer.
Ela prometia-lhe um tempo, na espera que o bebé graudasse. Mas o assunto azedava e até degenerou em soco, punhos ciscando o escuro. Os olhos dela, amendoídos ainda, continuaram espreitando o improvisado herço. Ela sabia que os anjos da guarda estão a preços que os pobres nem ousam.
Até que o ano findou, esgotada a última folha do calendário. Vinda da igreja, a mãe descobriu-se do véu e anunciou que iria compor a árvore de Natal. Sem despesa nem sobrepeso. Tirou à lenha um tosco arbusto. Os enfeites eram tampinhas de cerveja, sobras da bebedeira do homem. Junto à árvore ela rezou com devoção de Eva antes de haver a macieira. Pediu a Deus que fosse dado ao seu menino o tamanho que lhe era devido. Só isso, mais nada. Talvez, depois, um adequado berço. Ou quem sabe, um calçado novo para o seu homem. Que aquele sapato já espreitava pelo umbigo, o buraco na frente autorizando o frio.
Na sagrada antenoite, a mulher fez como aprendera dos brancos: deixou o sapatinho na árvore para uma qualquer improbabilíssima oferta que lhe miraculasse o lar .
No escuro dessa noite, a mãe não dormiu, seus ouvidos não esmoreceram.
Despontavam as primeiras horas quando lhe pareceu escutar passos na sala. E depois, o silêncio. Tão espesso que tudo se afundou e a mãe foi engolida pelo cansaço.
Acordou cedo e foi directa ao arbusto de Natal. Dentro do sapato, porém, só o vago vazio, a redonda concavidade do nada. O filho desaparecera? Não para os olhos da mãe. Que ele tinha sido levado por Jesus, rumo aos céus, onde há um mundo apto para crianças. Descida em seus joelhos, agradeceu a bondade divina. De relance, ainda notou que lá no tecto já não brilhavam as lágrimas do seu menino. Mas ela desviou o olhar, que essa é a competência de mãe: o não enxergar nunca a curva onde o escuro faz extinguir o mundo.

Retirado de
Na Berma de Nenhuma Estrada
2ª Edição, Lisboa, Editorial Caminho SA, 2001

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Em que livro gostaria de viver?

A pergunta não é minha. É do blog Papeles Perdidos do El Pais. E é uma pergunta díficil.

Em que livro gostaria de viver? Não sei se gostaria de viver só num lugar ou num só livro. Tenho tantas viagens dentro de mim. Gosto do azul dentro do azul, quando a quilha roça a àgua, do verde a beijar o verde nas florestas aquáticas da Amazónia, dos desertos e do abismo dos canyons. Gosto do embalo da palavra, tanto que em mim alguns livros nunca têm pressa. Paixões, desamores, traições, amores eternos.

Parafraseando o Mia Couto “não posso acabar todo inteiro num único lugar. Já tenho os sítios onde irei morrer, um bocadinho em cada um.”

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Cada um descobre o seu anjo, tendo um caso com o demónio

Enfeitam os pulsos com argolas. Variantes de jóias de verdade, elas transportam o doce gosto do fingimento. É a nova moda entre as meninas moçambicanas.

Como pássaros chilreantes passeiam numa rua de Manica. Cinco raparigas. Ivete é uma delas. Veste o uniforme escolar e trás às costas uma mochila. No pulso esquerdo brilham as pulseiras.”Agora, tornou-se moda andar com estas pulseiras entre as meninas. Veja que no meu grupo só ela não tem. O que me encanta é o brilho que isso tem quanto mais molhas no banho”, diz. Os aros nos braços das meninas não são nada mais do que argolas de preservativos femininos. Cada um descobre o seu anjo, tendo um caso com o demónio, escreve Mia Couto.

A moda de uso de argolas de preservativos femininos entre as raparigas, nas províncias de Sofala e Manica, centro de Moçambique, tem vindo a preocupar as autoridades de saúde, que considera que a  “onda das pulseiras” pode comprometer esforços na luta contra a propagação do HIV-SIDA.  Não raras vezes, nas ruas de Chimoio e da Beira, vêem-se raparigas com seis a oito “pulseiras” no braço. Cada preservativo feminino tem duas argolas, mas apenas a inferior é aproveitada como “pulseira”.

As argolas, geralmente, são retiradas de preservativos femininos de distribuição gratuita, disponíveis em várias instituições públicas e privadas o que tem levado ultimamente à escassez deste produto.

Nas clínicas privadas, um preservativo feminino custa em média 70 meticais (1,94 euros). “Ficámos muito alegres quando começámos a ver os cestos de preservativo feminino vazar, pois achámos que as mulheres já estavam realmente a usar. Mas ficámos estupefactos quando soubemos que são desviados para serem usados como pulseiras“, disse à Lusa Aarão Uaquiço, coordenador do Núcleo Provincial de Combate à SIDA (NPCS) de Manica.

A moda tem levado a que alguns jovens desenvolvam negócios com a venda das argolas dos preservativos. Cada argola custa cinco meticais (0,14 euros) e o que não tem faltado são as clientes .

PS – Em Moçambique, 11,5 por cento da população entre os 11 e os 49 anos está infectada pelo VIH/SIDA, revela o primeiro Inquérito Nacional de Prevalência, Riscos Comportamentais e Informação sobre o VIH/SIDA em Moçambique (INSIDA)

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Vem aí o Sá Pinto

“A partida de futebol é sempre mais que o resultado. O mais belo num jogo é o que não se converte em pontos de classificação, é aquilo que escapa ao relatador da rádio, são os suspiros e os silêncios, os olhares e os gestos mudos de quem joga dentro e fora das quatro linhas.”

Mia Couto

Como não temos resultados  está-se mesmo a ver que no peito de cada sportinguista se aloja um poeta. Bem dizia o Pessoa que o poeta é um sofredor.

 

 

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Miséria

“O que mais dói na miséria é a ignorância que ela tem de si mesma. Confrontados com a ausência de tudo, os homens abstêm-se do sonho, desarmando-se do desejo de serem outros.”

Mia Couto

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Que será feito de Rosita ?

Rosita é uma imagem, som de pás de helicóptero, cheiro a mafureira e lama. Notícia que se fez ficção, personagem literária.

Flashback. Em 2000, quando os rios de Moçambique incharam e as “nuvens pesavam como se feitas de lama”, o Hotel Polana era a base de jornalistas internacionais disputando o banquete da tragédia.

Através da televisão o mundo inteiro assiste às imagens da teimosia dos vivos, aos milhares em cima de derradeiros telhados esperando as máquinas voadoras. Nesta paisagem submersa, onde tudo era torrente e lama, Rosita nascia no cimo de uma mafureira em Mundiane, árvore-maternidade, testemunho de uma vontade indomável de dar vida, de chegar à vida, mesmo no meio de um dilúvio apocalíptico.

Nenecando na capulana da mãe, Rosita ergueu-se nos céus e teve como primeiro berço o helicóptero da Força Aérea sul africana. A beleza daquela imagem, a coragem daquela mãe, foi ponte entre o desespero e a esperança. De todos os continentes chegou auxílio para Moçambique. Afecto que refez a esperança.

“Olhei a menina, meus olhos se acertaram. A menina parecia chorar. Mas não se escutava, tudo era abafado pelos motores. Sofia Pedro pegou na menina e a colocou junto ao peito. A voz estreitinha de Rosita foi crescendo, sobrepondo-se aos motores do helicópteros. Tudo se amaciou dentro de mim, uma inundação me afogando o coração. E, de novo, me vi em nuvem, flutuando como um navio. Eu viajava, junto com os meus, para esse lado onde meu boi pastava o matinal orvalho sobre os campos. Sim, nesse destino, haveria terra. E outra vez, o território da vida. E Rosita já nascia em mim.”

Mia Couto in Rosita

PS – A última vez que ouvi falar na Rosita foi em 2010, quando completou 10 anos de idade, através de uma reportagem da BBC. Rosita frequentava a escola e dizia querer ser “Presidente da República”. Lembrei-me dela hoje quando editava um artigo sobre os riscos das alterações climáticas para o continente africano. Moçambique surge no topo da lista.

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Morreu o homem, o legado fica

Fotografia do blog Filatelia de Moçambique

Mia Couto escreveu que “a morte só existe quando há ausência”. Para alguns como Carlos Cardoso não há ausência, mas permanência. A coragem não tem prazo de validade. Já em vida o jornalista militante, o ativista político, o defensor dos direitos humanos e da liberdade de imprensa era um mito.

A 22 de novembro de 2000, Carlos Cardoso foi abatido a tiro numa rua de Maputo. O jornalismo moçambicano perdeu uma figura única, um homem comprometido com a justiça e a verdade. Carlos Cardoso investigava na altura um esquema de lavagem de dinheiro no valor de 14 milhões de dólares  relacionado com a privatização do Banco Comercial de Moçambique.

Nota breve: Surprise, surprise. A corrupção em Moçambique aumentou nos últimos três anos, de acordo um relatório apresentado nesta terça feira em Maputo pela Transparência Internacional.

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Mulher

“Solteira, chorei.

Casada, já nem lágrima tive.

Viúva perdi olhos para tristezas.

O destino da mulher é esquecer-se de ser.”

Mia Couto, in Idades, Cidades, Divindades

Há conversas que são como alguns rios moçambicanos, plenos de bancos de areia. Levam-nos a desviar a rota e a parar onde não temos mapa. Numa dessas conversas uma mulher falou-me do seu casamento. Ou da ausência do amor nele. Disse-me que em menina ensinaram-lhe que ser mulher é ser paciente e conformar-se. Em Gaza, província onde nasceu, a mulher para servir uma refeição ao marido tem de fazê-lo de joelhos. E muitas delas são prisioneiras e reféns toda a vida. Sujeitas a todas as humilhações.

Olhando-me nos olhos, sem uma lágrima, falou-me das rivais nos amores do marido, de aprender a viver na destituição, do divórcio que não pode ser. Fiquei desconcertada, ouvi-a como quem assiste a um suplício. Ela não é humilde, frequentou a universidade, trabalha e veste como uma europeia. Quantas haverá como ela nesta Maputo ?

Já tinha lido muito sobre a violência doméstica em Moçambique, nas obras da Paulina Chiziane e nas monografias, mas desconhecia-lhe um rosto.

A história desta mulher recordou-me a Kusungabanga, que todos sabem que existe mas de que ninguém quer ouvir falar. Kusungabanga significa em língua ndau significa “fechar à faca”. É praticada pelos mineiros de Manica quando partem para as minas sul-africanas. Para assegurar a fidelidade das mulheres, os homens cosem com agulha e linha a abertura vaginal das companheiras. A mais recente vítimas mortal desta forma bárbara de opressão, tinha 26 anos.Morreu, em Maio de 2011, da hemorragia.

Estas mulheres precisam que se fale delas. As palavras que as nomeiam, as histórias que as contam, modelam-lhe a verdadeira existência. Porque o destino de ser mulher não é esquecer-se de ser.

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AK 47 do meu descontentamento

Aeroporto de Maputo-Chegada 2010

Estou de novo de partida para o país que tem uma Kalashnikov na bandeira. Por ter sido essencial na conquista da independência, Moçambique mantém a AK 47 na bandeira, a par de uma enxada e um livro.

Uma angústia assalta-me sempre  quando a olho. Não será uma perversa fabricação de presença? Sinal de um passado que teima em não querer passar?  Não acabaram os fazedores de guerra? Lembro-me das palavras do feiticeiro Zeca Andorinho - personagem de Mia Couto em o Último Voo do Flamingo – ” somos madeira que apanhou chuva, agora não acendemos nem damos sombra. Temos que secar à luz de um sol que ainda há. E esse sol só pode nascer dentro de nós”.

Diz-se que a  América deu a Coca-Cola a Àfrica, e a União Soviética, a Kalashnikov. Como escreve Nuno Milagre “cada uma à sua maneira, adaptaram-se perfeitamente à geografia e ao terreno social e político do continente. Assim chegaram a todo o lado e podemos encontrar exemplares de qualquer uma, seja nas cidades, à porta do shopping da moda, seja no mais remoto local”.

Década após década , a A 47 encontrou nas guerras africanas um mercado inesgotável: das lutas pela independência aos golpes de Estado. Ela é lacaia  do grupo rebelde emergente ou da ditadura musculada. Sem  distinção de credo ou orientação política; resguarda bandidos e seguranças privadas.

Em Moçambique  tentou-se através do projecto “Transformação de Armas em Enxadas” trocar as AK 47 –  e outras armas usadas pelos combatentes da  guerra civil – por ferramentas agrícolas ou de construção civil. Seiscentas  mil armas foram entregues. Algumas delas transformaram-se às mãos de Cristóvão Canhavato num prodigioso trono,que nos projecta para a a última berma do mundo,a guerra. O trono   foi comprado pelo British Museum.

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A língua que nos constrói

Pintura de Clotilde Fava

Nos países onde se fala português ficou  uma sombra da melancolia lusitana, o que explica a morna, o chorinho, o culto  da saudade. Ficou um jeitinho de ser. A língua que nos une e faz de nós mais do que uma nacionalidade ou matiz de pele. Podemos ser negros,  brancos, mulatos, cabritos, café-com-leite, fulos, cafuzos, fronteiras perdidas (poético  angolanicismo usado quando a pessoa em questão é aparentemente branca, mas a sua ascendência africana é denunciada por uma cabeleira crespa ou   lábios fartos), “cada dia é mais evidente que partimos” e que o porto de chegada, dobrados os cabos austrais são as palavras que unem, essa Mãe que é o português.

O título deste post foi buscá-lo a uma belíssima crónica de José Eduardo Agualusa.

Não há como a brutal aspereza do alemão quando o que se pretende é intimidar alguém. Experimente, por exemplo, gritar “Macht es Ihnen etwas aus, wenn ich rauche”, enquanto arranha o ar com os punhos, e vai ver que o efeito é aterrador. A frase em causa, no entanto, significa simplesmente “importa-se que eu fume?”. Desconfio que pouca gente teria levado Adolfo Hitler a sério, com aquele bigode ridículo, a franjinha tenaz, a miserável figura de carteirista sem sorte, se ele se exprimisse no repousado português do Alentejo, na cantoria afável dos napolitanos ou na alegre geringonça dos ciganos espanhóis. Porém, sempre que vejo imagens do homenzinho, aos gritos, no esforço de cuspir arame farpado, compreendo o vasto terror que inspirou. Em francês, pelo contrário, é possível dizer quase tudo, inclusive obscenidades, como se fosse uma declaração de amor. Não por acaso preferimos nomear na língua de Baudelaire determinados utensílios, como retrete (de “retraite”, retirada), ou cotonete (do francês “cottoner”, forrar com algodão), certamente porque, de alguma forma, isso parece conferir-lhes uma dignidade que a sua função desmente. “Escargots”, outro exemplo, não são caracóis. Os caracóis comem-se nas tascas rudes dos bairros operários, com palmadas nas costas, gargalhadas, vinho derramado sobre a mesa (de plástico). Já o “escargot” supõe toalhas de linho, copos de cristal, velas altas em candelabros de prata, sussurros, o tédio da boa educação. E o espanhol? Quando era criança acreditava que fosse uma língua inventada pelos palhaços. Talvez porque os palhaços da minha infância fossem invariavelmente de origem espanhola, talvez porque o espanhol me parecesse uma forma desastrada de falar português. Hoje, continuo a acreditar que o espírito festivo dos espanhóis – uma cortina de melancolia separa Portugal da península – se deve ao uso da língua. Ao sol dos trópicos, em África e no Brasil, a língua portuguesa floresceu. Vale a pena lembrar, a propósito, alguns versos da poetisa moçambicana Manuela de Sousa Lobo: “Alguém falou-me dos esquilos e das zebras/ que também que já andam falar português/ talvez que estória de mentiroso ou poeta/ mas até que ia ser bom/ conhecer nossa língua florestando-se às riscas nos morfemas/ pastando devagarinho com a cauda felpuda se abanando/ Chei! Nem nunca vi/ advérbios no capim nos meus 27 anos.” Nos países onde se fala português ficou sempre, no entanto, uma sombra da melancolia lusitana, o que explica a morna, o chorinho, o culto particularíssimo da saudade. Nós criamos as línguas e depois elas recriam-nos a nós. Escritores como o brasileiro Guimarães Rosa ou o moçambicano Mia Couto tornaram-se conhecidos como inventores de palavras. Raramente, porém, as palavras criadas por um escritor ganham vida real, ou seja, alcançam a linguagem do povo. As palavras não têm autor. Conheço no entanto um brasileiro que se orgulha de ter dado nome não a um objecto – o que seria relativamente vulgar -, mas a um povo. Um povo inteiro. Gustavo, o meu amigo, é operador de câmara. Há alguns anos acompanhou uma pequena equipe numa expedição à floresta da Amazónia. Numa zona remota da floresta descobriram uma tribo indígena até então completamente desconhecida. Os índios receberam-nos com manifestações de júbilo e deslumbramento. Afeiçoaram-se sobretudo ao meu amigo, carioca de Copacabana, surfista, excelente figura. Gustavo odiava a curiosidade dos índios. Afastava aos gritos os bandos de crianças que teimavam em investigar os seus pertences, fascinados com a câmara, as lentes, as luzes: “Tira a mão daí! Tira a mão daí!” Era isto o dia inteiro. Os índios não se incomodavam. “Tira a mão daí!”, gritava Gustavo, e eles riam-se, ensaiavam carícias, voltavam a enfiar as pequenas mãos nas mochilas. A equipe foi-se embora e alguns meses depois um grupo de antropólogos chegou ao local. Gustavo tem a certeza que os índios receberam a delegação, efusivamente, com a única frase que sabiam em português. Os antropólogos acharam, provavelmente, que era uma afirmação identitária. O facto é que a tribo é conhecida hoje entre os indigenistas por este estranho nome – Txiramãdai.

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O charco

Vive-se uma espécie de sentimento de David lutando contra todos os Golias. Nada de novo na história portuguesa – dos mouros, à Restauração – feita na distância profunda entre o “ser ideal” e o “ser real”. A idiossincrasia nacional.

Quando as esquadras portuguesas lançaram amarras para construir o império, o país era pobre, acantonado no extremo mais ocidental da Europa. Os feitos dos navegadores dariam uma nova dimensão a Portugal. Nação que fundou o primeiro império ultramarino do mundo moderno e manteria até à exaustão o último império colonialista da história contemporânea.

A pequenez da pátria e a imensa tarefa imperial levaram à crença num “destino civilizador”, o ser “ um povo escolhido” com uma “missão” (descobrir, colonizar, converter). E este mito persistiu durante séculos, de tal forma que o país falhou a Revolução Industrial, permaneceu amarrado a uma economia atrasada, à ignorância e à má governação. Estou a falar dos primeiros anos de 1900, podia estar a falar de agora. O sentimento de superioridade do “povo escolhido”, e as palavras não são minhas, mas de José Luís Cabaço, exprime-se menos na exaltação das suas virtudes e mais na desqualificação do Outro (que nos dias que correm já não são os povos africanos, mas os alemães e mais recentemente na galeria de inimigos, os finlandeses).

O país que revelou ao mundo a verdadeira dimensão do planeta, fê-lo movido por um espírito mercantilista, de avidez pela riqueza rápida, daí que o primeiro objectivo dos reis portugueses fosse a edificação de feitorias. Portugal viveu séculos banhado em ouro, esbanjando riqueza e não se desenvolvendo. E não aprendeu nada de Abril para cá.

Construíram-se auto-estradas, estádios e fortunas rápidas. Ao “Estado Laranja” sucedeu-se o “Boyistão”. Mais gente sequiosa de mais dinheiro e cargos no Estado e nas empresas públicas. Sem qualquer exigência de moral no uso do poder. Perderam-se anos irrecuperáveis na voracidade das economias actuais. Falharam-se todos (TODOS) os indicadores que caracterizam um país moderno e civilizado. Temos um país desequilibrado, injusto, medíocre, clientelar, empobrecido. E que se recusa a olhar de frente a realidade. Os culpados, claro, são sempre  os outros.

“No charco onde a noite se espelha o sapo acredita voar entre as estrelas”, escreveu Mia Couto. É uma metáfora belíssima da situação portuguesa.

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Tradutor de chuvas


O escritor moçambicano Mia Couto regressa à infância num novo livro de poemas, “Tradutor de Chuvas”, para prestar homenagem a “esse estágio de espanto, de pasmo e da capacidade de nos encantarmos”.

“Cores de parto”, “Saudade”, “Ignorâncias Paternas”, “O Degrau da Lágrima”, “Tradutor de Chuvas” – o poema que dá título à obra e que remete para a importância da chuva na realidade moçambicana são alguns dos poemas que integram esta obra em que o escritor se revê em jovem.

FRUTOS

A bondade da mangueira
não é o fruto.

É a sombra.

A térrea,
quotidiana,
abnegada sombra:
no inverso do suor colhida,
no avesso da mão guardada.

Há a estação dos frutos.
Ninguém celebra a estação das sombras.

Assim, o amor e a paixão:
um, fruto; outro, sombra.

A suave e cruel mordedura
do fruto em tua boca:
mais do que entrar em ti
eu quero ser tu.

O que em mim espanta:
não a obra do tempo
mas a viagem do Sol na seiva da árvore

A arte da mangueira
é a veste de sombra
embrulhando o seu ventre solar.

Para o homem
vale a polpa.

Para a terra
só a semente conta.

 

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