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É tudo uma questão de geografia

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Suzette Jordan, uma mulher que não aceita nem o silêncio, nem a culpa

Olhar para o país-continente Índia pressupõe um descompasso entre as interpretações sobre o que é a realidade. A maior fábula de todas é o real. Há a Índia da “Vogue”, da novela “Caminho das Índias”, do 007, do The Darjeeling Experience, e a Índia que não vem em nenhum mapa.

No país do Kamasutra e dos Yogis, do Taj Mahal – conhecem elegia ao amor mais bela ? – dos sonhos açucarados-coloridos-kitsch de Bollywood, no país para o qual peregrinam europeus em busca de um Guru que os ilumine e lhes dê a experiência que faltava nas suas vidas monótonas e confortáveis, no país de Mahatama Gandi, onde as vacas são sagradas, as mulheres são animais em regime de caça livre.

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A mãe de Saroj. Uma mulher que passou pela demência de matar as próprias filhas.

Vá ao Google Maps e procure o Rajastão, gloriosamente branco, azul, vermelho, como os seus lagos, palácios esplendorosos e o deserto. Agora faça zoom-in. Permita-me que lhe apresente Saroj. A menina que teve sorte. Sorte de chegar aos onze anos de idade. Não é a primeira menina da família, mas a única que sobreviveu, numa região onde as mulheres vivem a demência de matar as filhas. A irmã mais velha de Saroj foi asfixiada pela mãe com a areia vermelha do deserto. A bebé que se  seguiu foi enterrada viva após ter soltado o primeiro grito. “Aqui é assim”, diz a mãe de Saroj e chora. Só quando nasceu a terceira menina teve a coragem de se opor à sogra e salvar a filha.

As meninas no Rajastão não vão à escola, nunca ganharão dinheiro. O casamento de uma rapariga pode arruinar a família. As meninas são um fardo, os meninos uma benção. “Se as mulheres fossem consideradas iguais aos homens não quereriam mais trabalhar em casa”, dizem os anciãos. 50 mil fetos do sexo feminino são abortados mensalmente,”o meu bebé era menina, paguei 1200 rupias [17 euros] e livrei-me dela”, a se  que soma um número desconhecido de bebés do sexo feminino mortos ou  abandonados à nascença  Um gendricídio.

Mudemos de cenário. Nova Delhi. Onze milhões de habitantes. Sunita  regressou à casa dos pais. Não é bem-vinda. Apenas suportada. Rompeu o casamento arranjado porque o marido a espancava todos dias à frente do filho. “As mulheres hoje já não aguentam nada”, queixa-se a mãe de Sunita. Na Índia 47 por cento das mulheres são forçadas a casar antes dos 18 anos.

A cada 20 minutos uma mulher é violada na Índia. As Nações Unidas classificam o país como o mais perigoso do mundo para ser mulher, à frente do Afeganistão ou da Arábia Saudita. Há um ano a morte da estudante de 23 anos, Jyoti Singh Pandey, na sequência de uma violação colectiva num autocarro, sacudiu as conciências. Quatro dos violadores foram condenados à pena de morte. Uma excepção.

Nos últimos anos 3500 homens foram condenados a penas de prisão por violação  mais de 11 mil foram ilibados da acusação. Para a sociedade indiana a culpada pela violação é sempre a mulher. O caso Jyoti é sintoma de uma guerra que a Índia conduz contra as suas filhas. Uma guerra que começa nos minutos que se seguem ao parto.

Em Calcutá uma jovem mulher sonha vencer as fronteiras da Índia para pedir socorro ao mundo. Luta sozinha contra as barreiras internas petrificadas por séculos de opressão masculina. Suzette Jordan foi violada por cinco homens. Recusou o silêncio e a culpa. Suzette é a primeira mulher vítima de violação na Índia a mostrar o rosto. O preço da coragem é muito alto e ela traz nos braços as marcas das várias tentativas de suicídio.

Vrindavan, cidade das viúvas. Mulheres de branco, idosas e jovens adolescentes,  acocoram-se no pó e esperam por moedas. Chayya, tem 74 anos. Foi expulsa de casa pela filha após a morte do pai, algo comum na Índia onde as viúvas estão presas numa espiral de preconceito e superstição. Impossibilitadas pela tradição de se voltarem a casar estão condenadas a viver à margem da vida, na miséria mais abjecta. Mesmo que o casamento seja um inferno para estas mulheres “sem marido não temos mais nada”, diz Chayya. No rio Yahamuna incendeia-se uma pira funerária, uma despedida solitária. “Ela não tinha ninguém”. Apenas um filho.

Nota final: “ As filhas perdidas da Índia” é um documentário extraordinário do Canal Arte. São 53 minutos que colocam estas mulheres no mapa e na geografia dos afectos. O mundo divide-se entre os que estão no mapa e os ausentes deste. A maior fonte de violência? A invisibilidade.

O documentário passa no dia 17 e 22 de Dezembro caso alguém tenha interesse.

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O velho de Bona

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Há uma tira da Mafalda que dizia ” e não é neste mundo há cada vez mais gente e cada vez menos pessoas?”. Entre o ser gente e o ser pessoa basta às vezes um pequeno gesto. Ou um olhar.

Esta tarde passei por ele numa rua de Bona. Não numa rua qualquer, mas numa das ruas mais aristocráticas de Bona. Era um sem-abrigo, um homem velho, frágil, com um casaco azul eléctrico. Caminhava, apoiando-se num carrinho de supermercado, parecendo prestes a cair a cada passo e a cada passo ajeitava o casaco, uma réstia de vaidade nele, a preocupação de ocultar (de esquecer?) a vida na rua. Nesse bailado sem coreografia revelava a fralda geriática e a fragilidade de todos nós. Passando por eles um grupo de adolescentes comentou “olha aquele, olha o Loser” e desataram numa gargalhada trocista. A pequena crueldade, a maldadezinha não vem nos noticiários, nem é partilhadada no facebook ou no twitter como as fotografias que espicaçam a consciência, mas é um seta espetada na pele.

Dirão os mais cínicos, do conforto da suas poltronas e que nunca estiveram perto de uma tragédia ou de uma vida destroçada, que elas pouca influência têm. Como escreve Susan Sontag “nomear um inferno não é, naturalmente, dizer alguma coisa sobre como moderar as chamas desse inferno. No entanto, já parece ser bom o facto de dar a conhecer, de ter alargado, o sentido que as pessoas têm de quanto sofrimento existe no mundo que partilhamos com os outros”.

Zanguei-me com os miúdos, disse-lhes que também eles um dia serão velhos. Pedi-lhes para olharem aquele homem nos olhos, como um ser real e não virtual, para se deixarem transformar por aquele ser humano. Disse-lhes que nada lhes assegura que não serão eles a quase tropeçar a cada passo. Disse-lhe que na vida a única coisa que temos por garantida é o seu fim. “Que tal serem pessoas?”, perguntei-lhes. Ouviram-me com espanto e viraram-me as costas, em silêncio.

O velho esboçou um sorriso, deixou escapar um “Dank” baixinho e continuou a caminhar ajeitando o casaco como quem ajeita a vida.

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O Prémio Leya

A minha vida anda tão aborrecida como a formação do governo alemão. Alguém já experimentou “a coligação governamental de Berlim” como tema de conversa? Bem, a conversa entra em rigor mortis.

Estava em posta no meu “Ennui”, ao cabo de dias de confinamento em seminários e gabinetes, com manifesta falta de tema consistente e interessante para escrever, quando resolvi dar uma volta  pelos meus blogs preferidos, muitos deles têm matéria literária suficiente para um bom romance [com alguns fiz uma verdadeira amizade e por eles  aproveito todas as paragens nos semáforos e nas filas de trânsito que me esperam ao virar da esquina para me actualizar]. Não preciso de explicar as vantagens de estar no meu sofá em Bona e de ter o mundo (ou Berlim) e boa escrita à distância de um clique.

Sigo da Avenida da Liberdade bloguística para a Praça da Figueira  virtual que é o Facebook e encontro-a em alvoroço. Confesso que  prefiro o Facebook em alvoroço do que cheio de gatinhos. Note to self:  sim eu sei  que que os gatos são um tema literário inesgotável, que Fernando Pessoa, T. S. Eliot, Rainer Maria Rilke, Ezra Pound,  Alexandre O’Neill, Pablo Neruda, Lewis Caroll, entre tantos outros tiveram amigos felinos e escreveram sobre gatos. But sometimes it’s all just a little too much, right?

Bem, estou-me a dispersar. Onde é que eu ia? Ah, no alvoroço. Pois. No meu círculo facebookiano discutiam-se três temas. O primeiro era o discurso do presidente angolano  que, por ausência de um único pensamento altruísta acerca de JES,  me abstenho de comentar. Centenas de likes e dislikes suscitava a entrevista polémica dada por Gabriel Mithá Ribeiro, na qual  defendia um maior autoritarismo dos professores e o regresso da disciplina às escolas (embora não esteja de acordo com tudo o que foi dito, há muito de verdade nas suas palavras e de facto alguns estabelecimento de ensino portugueses são tão perigosos como os da Bronx ). Por fim, grande agitação causou a vencedora  do Prémio Leya. Como dizia o iluminista Abade Correia da Serra, “Dentro de cada português, mas dos puros, vibra a alma d’um familiar do Santo Ofício”. Gabriela Ruivo Trindade -  a primeira mulher, em seis edições, a vencer o Prémio Leya, com a obra “Uma Outra Voz” – foi quase ultrajada, com um gozo bestial e um snobismo de baixa costura, diga-se de passagem por mulheres e homens das “Letras” portuguesas, sem que ninguém lhe conheça o romance que mereceu o prémio. E porquê? Porque o seu blogue estará cheio de “frasezinhas e de literaturazinha”(um dos comentários “elevadíssimos”que li). Caramba. Dou por mim praguejar. Como se bons escritores nunca tivessem escrito maus livros, ou como se um simples blog fosse suficiente para aferir o grau de pureza literária de  um autor.

Retiro-me do Facebook com uma certeza: vou comprar o livro da Gabriela. A inveja nunca me deixa indiferente, aliás é a emoção humana que mais  me perturba. Prefiro uma pessoa boa, a uma pessoa inteligente.

PS-  Caro leitor se concorrer a um prémio literário (e  principalmente)se o vencer não se esqueça de apagar os posts do Facebook e o seu blog. Porque o Homo Literatus facebookiano, por detrás dos seus óculozinhos de tartaruga e de Cânone literário em punho, está pronto a abrir hostilidades com uma força incontrolável.

Acho que vou por uns likes numas fotos de gatinhos.

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16/10/2013 · 10:56 PM

Robin Hood de Hannover

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Vou ser franca. Deslumbra-me este crime. Eu explico. Há uns dias foi roubado em Hannover o símbolo da Bahlsen (talvez a mais conhecida fabricante de bolachas alemã). Trata-se de uma peça de arte centenária, em cobre, com a forma de uma bolacha e que pesa cerca de vinte quilos. Na passada terça-feira o jornal local, Hannoverschen Allgememeinen Zeitung, recebeu uma carta composta por letras recortadas da imprensa. “Vocês querem a bolacha e eu tenho-a. Entrego-a se oferecerem às crianças da Clínica infantil bolachas de chocolate (de leite) e doarem mil euros ao Canil de Langenhagen. Caso contrário a bolacha acaba no caixote do lixo do Óscar ( para os leigos o Óscar é um monstro verde mal humorado que mora dentro de um caixote do lixo)”. Assinado: “monstro das bolachas”. Na fotografia,que acompanhava a carta, entretanto entregue à polícia local, vê-se um adulto mascarado de monstro das bolachas da Rua Sésamo segurando a bolacha de cobre.

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A Bahlsen reagiu ao Robin Hood das guloseimas anunciando no Facebook que doaria 52 mil pacotes de bolachas a 52 insituições sociais, desde que o símbolo da empresa seja devolvido.

Tenho lido com divertida avidez ( eu e meia Alemanha) todas a peripécias em torno deste roubo. Sei que é impossível conciliar-se o inconciliável, haver moral num roubo, mas no fundo, no fundinho, sinto uma certa ternura pelo monstro das bolachas. Ando a ver muitos filmes do Woody Allen, é o que é.

Adenda: Depois de ter escrito este post li que o Cookie Monster original (americano) escreveu no Twitter: “me no steal golden cookie. But me willing to help find real cookie thief”. Esta história está cada vez mais deliciosa.

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Ciladas da língua

Comecei por brincadeira o jogo, que lhes permite refrescar a língua, conhecer a gramática e dar valentes gargalhadas. “ Como é mesmo mami? Eu hei, tu hás, ele há, nós ‘hamos’”? Curiosamente, ou talvez não, nunca erram a segunda pessoa do plural (clap,clap à educação católica e aos belíssimos salmos).

Lá fora o ribombar longínquo e surdo de um trovão adensa a ameaça de chuva. Mais leves são os risos delas na sua brincadeira favorita à mesa: conjugar os verbos irregulares portugueses entre colheradas de sopa.

É verdade que elas lêm muito  – em alemão, em inglês, menos em português, e a mais velha até em latim, BENZA-A-DEUS -, mas, como quase todos os miúdos deste tempo, as minhas filhas têm extensões tecnológicas das mãos: os smartphones-laptops-nintendos e afins. Aliás já tenho um doutoramento em criptologia para decifrar SMS ou mensagens no Facebook do tipo “biglzuhau”(bin gleich zu Hause, estou a chegar a casa), ou” wobidu” (wo bist du?, onde estás). A  teen cá de casa usa em simultâneo dois telemóveis. Espreitando mensagens do Whatsapp com a ansiedade de quem continua à espera de Godot.  Ohmmm.

O meu lado de mãe 2.0 acha razoável  que elas sigam o Zeitgeist, já o meu eu “clássico”, que  vê os livros como um catálogo de pequenos e grandes prazeres, sabe que a aprendizagem da língua  é um work in progress, nunca perfeito, nunca terminado e passa por ultrapassar as ciladas da gramática portuguesa, como quem passa de nível no Nintendo. Eu bem me lembro do tormento que era entrar nos livros com a curiosidade de um entomologista e dissecar os recursos estilisticos, embora saiba o que é prosopopeia e ou disfemismo, faço por esquece-lo. Freud explica.

Entre pô-las sentadas com uma gramática aberta à frente  a aprendar a colocar as palavras certas nos lugares certos, boring , boring,e  sessão de gargalhadas,  prefiro  a última. E permito-lhes o mesmo o atirar de dardos. Depois de conjugarem os verbos é a vez da mami pronunciar em alemão palavras escolhidas por elas. Só vos digo: as criancinhas tem requinte na arte da tortura.

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Feliz Natal!

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Tive o privilégio de crescer a acreditar na bondade, na nobreza humana. Herdei um mapa do belo, dos territórios familiares do afecto e da pertença. O cheiro do pão quente ao romper da manhã, o pão-de-ló caseiro, o reflexo da lua nos carris do eléctrico, a interpelação diária do Tejo, o céu de Lisboa, azul a dissolver-se nos olhos, o sorriso de embalar da minha mãe que enxotava papões, os amigos e a longa distracção das conversas, a missa ao domingo. A vida passa quase sem darmos por ela. E a felicidade consiste na graça de travar o tempo, de encerrar na concha da mão as memórias, as pessoas de quem gostamos.

 É nesse mapa que me refugio quando a luz emagrece e entro no mundo de chumbo dos que nasceram do lado errado da vida. Entre eles e mim, entre eles e nós, existe apenas um acaso geográfico, separam-nos milímetros, mas são maiores do que quilómetros.

Hoje, com a família reunida, num ruidoso serão, à volta da mesa – os pais vindos de Portugal, a irmã dos Estados Unidos – sublinho contrastes, como numa câmara escura. Dei por mim a pensar em duas meninas de que já vos falei aqui: a Guta, a “plastiqueira”de Maputo que sonha ser professora e a Clemência, uma menina de Bissau que me fez sentir chegada a casa. As histórias de vida destas meninas não são prazenteiras, é difícil olhá-las de muito perto, com enquadramento.

Se tivesse de escrever um epílogo das minhas viagens, diria que me ensinaram a enfrentar a imperfeição e, olhando-a nos olhos, a perdoar. E ensinaram-me a olhar a vida com encantamento. E, sobretudo, a nunca baixar os braços em defesa dos mais elementares direitos humanos: brincar, aprender a ler, ter que comer, a ter dignidade.

 Olho pela janela a noite negra. A casa posta em silêncio. Faço uma viagem sem distância e rascunho um abraço a todo os que gosto: os amigos de infância de quem a vida nos separou as rotas, cuja amizade não mudou de sítio (muitos reencontrei-os nessa maravilha que é o Facebook), a família, os amigos da faculdade e os que, por esse mundo fora, se foram inscreveram na lista de afectos. A amizade é como um jogo de Lego, com múltiplas possibilidades, em permanente construção.*

Agradeço a Deus a graça imensa de ter colocado na minha vida tantas pessoas generosas, talentosas, pacientes, inteligentes, que enchem de luz os locais por onde passam e que me ajudam a alisar as arestas da vida. São elas o meu melhor presente de Natal.

Desejo-vos a todos um Santo e Sereno Natal!

* Nesse jogo inscrevem-se muitos dos leitores que “conheci” através do blog e de quem aprendi a gostar.

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Jornalismo ?

“Toda a vizinhança proclama convicta:
“Os jornais servem para fazer embrulhos”.

E é uma das raras vezes em que todos estão de acordo.”

Cecília Meireles, in ‘Mar Absoluto’

Lembrei-me deste poema da Cecília Meireles a propósito de um post certeiro que o António Granado colocou hoje no Facebook. Chama-se “avisos” à leitura, confrangedora,  de muita imprensa (portuguesa, mas não só).

Mesmo que os jornais (já nem) sirvam para embrulhar castanhas a(des)informação permanece na internet…

Como o plágio parece fazer parte do “Zeitgeist” a fotografia que ilustra esta nota foi descaradamente roubada ao António Granado ( a meu favor direi apenas que o fiz porque os avisos são um serviço público. A imprimir e ir colando).

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Deus no Facebook

Prelúdio: Descendência de férias em Portugal a ser estragada com mimos. Comunicação reduzida a uns telefonemas breves – “sim Mami estamos óptimas”, leia-se óptimas longe das tuas asas do tamanho das de um A 380… – e uns sms, “envias por correio os meus livros para eu poder fazer os trabalhos de casa” ou “podes ligar agora”.

Primeiro acto: Mãe na redacção, com a cabeça entre as sanções europeias ao Irão e a crise na alimentar no mundo. Plim. Olho para o visor. Uma notificação. “Mami ich habe eine Frage”. Este é o anzol para o diálogo preferido pela mais nova. “Sim?”, digito. “Deus existe mesmo?”.

 Preciso de um cappuccino duplo. Já! “Querida, a mami não pode responder a essa pergunta por sms”. Talvez nem uma tese de doutoramento me chegue. “Responde no Facebook”, escreve a espertalhona, que nasceu com um ponto de interrogação agarrado. Preciso com urgência de umas escadas de incêndio para a sabedoria. “Agora não posso querida, mas quando chegares conversamos”. Mãe 1 – Matilde 0.

 Segundo acto: Ganhei uns dias, penso. Santa ingenuidade. A Matilde não seria ela se não interrogasse tudo com veemência. “E se Deus for uma máquina fotográfica?”. “???”. “Assim do tipo câmara do iPhone, que vai tirando fotografias nossas e pondo num álbum do Facebook lá em cima e depois põe “like” nas nossas acções?”. Uma tese interessante para a onipresença divina. Será Deus uma Leika? Ohmmmmmm. Mãe 1 – Matilde 1.

Terceiro acto: Estou tramada com esta miúda e ainda nem chegou à adolescência. Se eu lhe disser para colocar as interrogações teológicas à avó estarei a ser muito mazinha? Ou ao tio-avô bispo (há algumas vantagens em ter um teólogo para as urgências)?

( A continuar…)

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Elikia

Os analistas são unânimes: o acesso à internet no continente africano será feito cada vez mais via telefone móvel e a batalha pelo mercado começou à muito. A líder de mercado BlackBerry enfrenta crescente concorrência e a partir de hoje também de um smartphone cem por cento africano. O congolês Vérone Mankou lançou hoje o “Elikia”, que significa “esperança” em lingala, uma das línguas nacionais do Congo Brazaville, o primeiro telefone móvel inteligente africano. O dispositivo foi totalmente desenvolvido no Congo, mas é fabricado na China “onde os preços são mais acessíveis”. O “Elikia”, que dispõe de uma câmara com uma capacidade de 5 megapixels, GPS e as conhecidas apps Facebook, Twitter, etc, custa 85.000 francos CFA, ou seja, cerca de 130 euros. O smartphone africano será comercializado para além do Congo, também na Costa do Marfim e em França.

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Like A Hug

Estou aqui às voltas com uma invenção. O meu lado geek está fascinado, o meu lado emocional diz-me “que disparate”.

Pois bem é assim: investigadores do MIT desenvolveram um colete, o “Like A Hug”, que “abraça” quem o usa sempre que um “amigo” no Facebook carrega em “Like” . A ideia não é nova, já em 2006 a revista Time havia elegido a “Hug Shirt” como uma das grandes invenções do ano. Valem estes abraços inventados? Virtuais? São uma máscara para a solidão ou afectividade está-se a transformar?

Chamem-me louca mas gosto de algumas pessoas que só conheço virtualmente, através do que escrevem nos blogs ou no Facebook. Que fazer? Identifico-me com a grandeza das coisas belas, das palavras belas. E gosto daquela sensação de poder continuar aquela conversa, que não terminámos ontem, que fica para os hojes infinitos de possibilidades…

Chamem-me bipolar, mas será possível viver sem o leve desepero do nunca-mais-se olhar-nos-olhos-outra-vez que certos abraços contém? Ou a eterna insegurança “alguma vez te abracei como merecias?” E o calor doce dos de quem gostamos?

Como boa viciada no Facebook que sou vou ficar a pensar nisto…

“Recordo o cheiro do teu corpo – o desejo revela-se no lume dos olhos, mas é no perfume da pele que nos envolve, escorregando da alma, como um abraço invulnerável ao tempo”, Inês Pedrosa

PS- A quem o quiser receber um abraço apertado.

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Coisas que me apoquentam ou post sem nenhum interesse particular

Há dias em que uma pessoa sente que não se devia ter levantado da cama ( às 4.30 da madrugada.Ohmmm).Em particular depois de ter estado a ler, “Kongo: Eine Geschichte”, até ser derrotada pelo sono.

Arrastei-me dos lençóis quentinhos para os nove graus exteriores, NOVE, e sem tomar café porque a máquina de café, avariada, ocupa para aí o trigésimo terceiro lugar de uma to do list privada larger than life. A fonte que me podia acudir à sede está fechada  e o Clooney mora longe, unfortunately.  Há que esperar que cantina da rádio abra para beber o primeiro cappuccino (sofrível) do dia. Ai o apetite, o importantíssímo apetitezinho (já dizia o Eça). Acuso a friagem da manhã e o despotismo dos afazeres.

Terminada a emissão, feitas as pazes com a vida (o meu reino por um cappuccino), navego pelo Facebook, o bazar de ideias (ou da falta delas) do século XXI e uma espécie de consolo para a má disposição. Às vezes. Porque depois de ouvir o viral “Uma canja para a gorda da Merkel” fiquei a ranger os dentes.  O gorda alemã é uma tirada boçal, que, como escreve a Helena “mata muitos coelhos com uma cajadada só – mulher, excesso de peso, alemã. Em contas de estocástica, temos aqui quantas combinações de insultos (e alimento de preconceitos) diferentes?”.

Mergulho no trabalho. Entre preparar as emissões seguintes, responder a emails impacientes, e escrever (pouco, menos do queria) seis reportagens em alemão, constato que a bipolaridade está a dar cabo de mim. Em explico: estou a escrever, em simultâneo, sobre os judeus alemães em Lisboa durante a Segunda Guerra e fazer uma análise sobre o impacto económico da nova legislação angolana sobre campanhias petrolíferas .

Só me falta ficar outra vez com salto do sapato preso. Ah e logo à noite tenho uma reunião de pais. Eu bem sabia que devia ter ficado na cama.

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Helena Ferro de Gouveia:

A propósito deste artigohttps://apps.facebook.com/theguardian/commentisfree/2012/jun/03/how-not-to-write-about-africa, lembrei-me de algo que já aqui tinha publicado.

Originally posted on Domadora de Camaleões Blog:

As “Áfricas” são um puzzle complexo. Onde os conceitos não são os nossos. Com Richard Kapuschinski e com as viagens que fiz ao continente africano comecei a detestar as pessoas vêm para África e vivem na sua “Pequena Europa” e “depois regressam gabando-se de terem vivido em África, que na realidade nunca chegaram a conhecer”.  Houve poucos a escrever sobre as “Áfricas” como Kapuschinski, evitando as rotas oficiais e os palácios. No panorama português lembro-me apenas da Baia dos Tigres, de Pedro Rosa Mendes, que nos conduz numa “viagem sem bilhete, sem horário, sem transporte público, sem “vouchers” com pequeno almoço incluído, sem bebida fresca tomada na varanda à hora do sol se pôr”, pedindo as palavras emprestadas ao Adelino Gomes.

Como “a”  África não existe, ou existe apenas como conceito geográfico , vale a pena reler a sátira de Binyavanga Wainaina , Como escrever sobre África

“No seu título use sempre…

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A culpa é do inconsciente!

Alguns livros são mesmo cortantes. Isto não é uma figura de estilo. Que o diga o meu indicador direito que se cortou no Teoria Geral do Esquecimento, de José Eduardo Agualusa. Há muito que fiz um pacto de sangue com ele, não precisava de mais uma prova…

Abandonada a leitura há que ir para o trabalho. Ou melhor, pela ordem certa, há que abandonar a leitura para ir para o trabalho. O tempo não para à porta.

Estava eu posta em sossego a escrever e a tentar dar sentido, sem grandes resultados, ao caos das declarações dos últimos dias sobre a crise da moeda única, eis que quando bling, bling. Procuro a fonte do som. Uma notificação do iPhone: o Clooney vai casar com uma lutadora de wrestling. Pois é, o Mr Perfect tinha que ter algum defeito… como o livro do Agualusa transformado em lâmina. A minha atenção fugiu de imediato da compra de obrigações de tesouro no mercado secundário (bocejo profundo) para os gossips (o meu chefe que não leia isto) e comentários no Facebook. A carne é fraca. Sabendo-me desconsolada (o meu marido que não leia isto) uma amiga caridosa que enviou-me um link delicioso. Literalmente. Trata-se do único hotel temático dedicado ao chocolate. What else?

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Post materialista ou is there a life without iPhone?

Estou a braços com um problema. Grande. Chama-se iPhone, ou melhor, chamava-se porque o perdi.

Deixei de ter o mundo ao alcance de um toque, de poder verificar os emails, as breaking news e as novidades no Facebook. Dava-lhe uma palavra e o almighty Google debitava resultados. Se tivesse uma boca o meu iPhone, tinha-o beijado tantas vezes…

Perdi todos os meus contactos. Falta imperdoável para uma jornalista.

O pior, o que me dói mais são as fotografias (que aqui a parva não tinha passado para o computador). Aqueles pedacinhos da minha vida imobilizados no tempo estão agora ao alcance de dedos e olhos alheios (não estavam bloqueadas por código). Sinto-me como alguém a quem assaltaram a casa e reviraram as gavetas.

Olho desconsolada para o velhinho Sony Ericsson, como se tivesse viajado na máquina do tempo até à Idade Média. Fustigo-me pelos assomos de materialismo, nunca o fui. Mas que fazer?  Posso viver sem iPhone? Posso, mas não é a mesma coisa. Desde que mordi a maçã a minha vida mudou.

PS- Desculpem o desabafo, mas neste momento não há ohmmmm que me valha.

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Óhhh Mamiiiii

Está uma pessoa em sossego a tentar escrever. De súbito estala uma tempestade no andar de baixo. “Empresta-me o teu iPhone para jogar Temple run. Não, tu não me emprestaste o teu livro! Essa tesoura é minha. Não é minha. És uma parva.Quem diz é quem é. Vou contar à mami que mexeste nas pinturas dela. E eu digo ao papi que quem fez os teus trabalhos de casa fui eu….Óhhh Mamiiiii” . Se este “Óhhhh Mammmiii” fosse uma trademark estaria mais rica do que a investir nas acções do Facebook. Quem tem mais do que um filho sabe bem do que estou a falar.

Respiro fundo. Ohhmmmm. Desço as escadas e reúno o conselho familiar. Nestas guerras filiais é preciso agir-se como um Clausewitz e ter a diplomacia das Nações Unidas (tenho para mim que se pusessem uma Mami a resolver as muitas guerras que há por esse planeta fora , o Conselho de Segurança deixaria de servir para alguma coisa). “Meninas o que passa? Expliquem-me a vossa zanga. Uma de cada vez”. Ouço os argumentos de ambas. Depois de soluços e lágrimas, passa-se à fase das beijocas e dos abraços. E as manas voltam a querer guardar-se uma à outra dentro do bolso como se faz aos tesouros preciosos da infância. São almas gêmeas as minhas filhas. Esqueço até a história das pinturas e dos vernizes.

“Posso voltar a trabalhar?”. “Claro Mami, nós vamos para a cave tocar …”. Ponho os fones nos ouvidos – VALHAMEOSANTO iPhone – e a desarmonia entre o violino e a flauta barroca, huuuuzpchchchiiifssszoingggg, ficam as milhares de quilómetros de distância. Bem pelo menos até ao próximo “Óhhh Mamiiii”.

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“A janela está fechada e o desespero é estanque”*

Os guineenses vivem o desconforto do perigo e ele é real. Breve apontamento da demência.

Leio no Facebook, no perfil de um cooperante, que no Hospital Simão Mendes em Bissau falta combustível para as ambulâncias e para os geradores. Há cortes constantes de electricidade. Duas pessoas morreram esta madrugada nos cuidados intensivos porque o pessoal médico não consegue chegar ao hospital. Os doentes e o pessoal do Hospital estão sem alimentação desde sexta-feira. E os mortos não podem ser enterrados porque as ambulâncias estão sem combustível para devolver os corpos às famílias.

* A frase que serve de título é de Pedro Rosa Mendes

PS- Quem conhece o Simão Mendes, um hospital que é um soco no estômago, onde falta tudo, sabe que a ausência do pouco que há pode ser a linha ténue que agarra a vida.

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E os paizinhos não tem uma função essencial na educação dos filhos?

Disclaimer: Desconfio dos extremismos. Costumo dizer que não sou feminista, mas feminina. Agradeço as conquistas dos movimentos de defesa da mulher embora seja contra o grito da década de setenta de “primeiro eu!”.

Recuso qualquer regresso a uma ditadura de “fadas do lar” ou um discurso culpabilizador da mulher-mãe-trabalhadora. Insisto que a opção de modelos de vida – ser ou não ser mãe, ficar em casa a cuidar dos filhos ou não – deve ser exclusivamente das mulheres e em plena consciência.

Como escreve Elisabeth Badinter, num livro de que já falei aqui, “quer se queira quer não, a maternidade é apenas um aspecto importante da identidade feminina e já não o factor necessário à aquisição do sentimento de plenitude do eu feminino”. Seria bom que alguns, homens e mulheres, o entendessem, a começar pelos representantes da igreja católica.

No Portugal do Século XXI, pelos vistos, ainda há quem não perceba que as mulheres são sujeitos de direitos inalienáveis – e o direito à autodeterminação , incluindo o exercício de uma profissão, é um deles.

Na minha tripla condição de mãe, católica e profissional sinto-me injuriada quando leio que o novo cardeal português D. Manuel Monteiro de Castro recomenda que a mulher deva “aplicar-se naquilo em que a sua função é essencial, a educação dos filhos”.

A minha vida profissional faz com que viaje, por períodos mais ou menos longos, outros continentes. Já me aconteceu a aterrar de madrugada vinda de Kuala Lumpur e partir à noite para o Cairo. É uma opção minha, da minha família e apoiada por um marido emancipado, que acredita que o estatuto de pai não é menor do que o de mãe.

Os olhares de suposta comiseração, “viaja e trabalha a tempo inteiro, coitadinhas das miúdas”, nunca me (nos) incomodaram. Lamento.

Tenho duas filhas maravilhosas, felizes, equilibradas, excelentes alunas, a quem procuro proporcionar tempo de qualidade. Elas sabem que a mãe as ama muito, que está lá sempre para elas, que tem um ouvido atento, nem que seja no Skype ou num chat no Facebook, mas também sabem que mãe é mais do que isso. É antes de mais uma mulher e uma mulher independente. Alguém que as incentiva serem autónomas, fortes, a pensarem pela sua cabeça e fazerem as suas opções e, sobretudo, a serem alérgicas às limitações de género e às “normas” ditadas pela “natureza”.

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Caça às bruxas no Facebook

 A história de Hamza Kashgari devia arrepiar aqueles que se importam com a liberdade de expressão ou religiosa. O “pecado” deste jovem jornalista saudita? Três tweets. Um punhado de caracteres publicados a 4 de Fevereiro, data em que se celebrou o feriado islâmico Maulid an-Nabi, o aniversário de Maomé.

“No teu aniversário, vejo-te, para onde quer que olhe. Amei certos aspectos teus, odiei ou não compreendi outros” escreveu o jornalista. “No teu aniversário, não me prostrarei perante ti e não te beijarei a mão. Não rezarei por ti”.

Horas depois de ter escrito isto milhares de sauditas, guardiões da virtude, exigiam no Twitter a sua morte.

Kashgari apagou os três tweets e fugiu para a Malásia, de onde seria deportado, este domingo, para Arábia Saudita, paraíso onde se emparedam mulheres atrás de uma cortina de tecido negros e apedrejam adúlteros. Enfrenta agora a pena de morte por blasfémia.

 No Facebook, onde se denunciam como pornográficas fotografias de mulheres a amamentar, instalou-se, perante a aparente apatia geral, um pornográfico linchamento. Mais de 25 mil pessoas “likaram” o grupo “o povo saudita quer a punição de Hamza Kashgari”. Os comentários neste grupo são bem explícitos: “o blasfemo merece a morte”, “ faça-se dele um exemplo”. A página inglesa no Facebook “ Save Hamza Kashgari” ainda não chegou aos setecentos apoiantes.

Cada tragédia tem a sua Cassandra. A Cassandra do mundo ocidental, livre, tolerante e democrático é a indiferença.Apetece-me cortar esta claustrofobia.

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Momento nostálgico

Confesso: sou excêntrica. Nesta época de comunicação instantânea ainda uso esse meio de comunicação anacrónico que é o postal. Gosto das imagens de longínquas latitudes e povos antigos, de praias onde o vento corre a direito, de animais e sabores que não sei contar.

Não faço viagem sem remeter pedacinhos de mundo com um selo bonito. Pior ainda. Além dos que escrevo para as filhas e os amigos, em letra pequena e redonda, nostálgica da alegria de esperar pelo carteiro e desses que a caixa de correio se enchia de envelopes manuscritos com estampilha e carimbo, envio sempre um postal para mim própria.

Uma espécie de reminder de mim para mim, para nunca me esquecer na voragem do dias que “existe o mar e as praias nuas,/ Montanhas sem nome e planícies mais vastas/Que o mais vasto desejo”.

 PS – O post acima veio a propósito de uma notícia que li no Die Zeit: o email está em vias de extinção. Desaparecerá como os seus congéneres em papel. Nos Estados Unidos, em 2010, a utilização de correio electrónico caiu oito por cento e na faixa etária dos 12 aos 17 anos quarenta e nove por cento. Para a geração Facebook o email é tão formal como uma carta, portanto uma “chatice”, além disso a nova geração de smartphones permite comunicar em tempo real através de chats. O mundo dos negócios era o último bastião do email mas já começa a prescindir dele, porque em média se perde semanalmente 5 a 20 horas a ler e a responder a emails. Há mesmo empresas que instituíram o “Email free day” apostando na “comunicação instantânea”.

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Sorry, too much information…

Com o zelo dos convertidos ao calendário electrónico,  uma conhecida perguntou-me, num tom entre o horrorizado e o comiserado, “ainda usas uma agenda de papel?”. “E como é que sincronizas?”. Respirei fundo, ohhommmmm. Não sincronizo. Sou T.M.I.-fóbica.

Tenho uma  clássica agenda Moleskine de capa preta, organizada por semanas, com suficiente espaço para fazer anotações (e pequenas notas insanas para mim mesma quando o fim de algumas reuniões parece estar tão longínquo como a galáxia UDFy-38135539). No final do ano arquivo-a como se fosse um esquisso de memórias. A Cloud não tem o mesmo fascínio, nem a mesma textura suave do papel, nem o “cheiro que lembra cheiro de coisas por estrear”, como escreve a Clara Ferreira Alves.

Depois há o lado prático: enquanto os outros ainda estão a fazer log-in ou downloads (isto pressupondo que estão num país onde a internet ou rede telefónica funcione decentemente…) já eu virei a página.

 Nada contra gadgets e afins – tenho um iPhone pleno de apps, um iPod touch, estou no Facebook e no Twitter – mas gosto de ter a minha vida nas minhas mãos. Literalmente.

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Os inquisidores

Nalguns países o hímen funciona como um tranquilizante social. É o caso do Egipto onde as mulheres são vítimas de um duplo padrão moral onde tudo lhes é permitido a eles, os inquisidores, os guardiões da castidade alheia, nada lhes é tolerado a elas. A bem da virtude, da tradição ou do Islão – a lista de prerrogativas é extensa e sempre declinada no masculino – dilaceram-se a dignidade, cometem-se crimes contra a autodeterminação individual. A religião e a “tradição” sempre tiveram as costas largas – contudo existem limites, há que traçar uma linha clara sob pena de ficarmos entregues ao arbítrio dos que as controlam. Não há tradição, ou cultura ou religião que legitime o atropelamento dos direitos humanos, não há tradição que legitime que uma mulher seja sujeita a um teste de virgindade como aconteceu no Egipto a algumas manifestantes da Praça Tahrir. A contemporaneidade exterior conquistada via Facebook ou Twitter teima em demorar a chegar às mentalidades. Não me venham dizer que o feminismo está ultrapassado.

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Um modo de querer entender o Mundo

Dos muitos textos de opinião e comentários que li sobre as manifestações de 12 de Março houve um que de gostei particularmente. É assinado pelo jornalista Paulo Nuno Vicente e foi publicado, where else?, no Facebook. Trata-se de uma reflexão sobre os problemas do jornalismo português e a sua dificuldade em lidar com uma nova forma de protesto pós-moderna que extravasa “os desajustados esquemas mentais da “classe”, do “género” , da “geração”, do “partido” “.  Partilho.

Desde, pelo menos, a década de 1970 que a sociologia vem demonstrando como, em casos identificados, o Jornalismo trabalha como pura legitimação do status quo; é também necessário dizer que muitas das soluções sugeridas não conseguiram fazer melhor – a exemplo, as ditaduras que abraçaram a causa da “comunicação do desenvolvimento”.

Até certo ponto, os jornalistas – um “nós” profundamente diverso – sugerem aos leitores a agenda de temas e geografias importantes, a que devem dedicar atenção e sob que ângulos o “devem” fazer.

É também certo que, tradicionalmente, o Jornalismo se preocupa mais com “acontecimentos espontâneos” do que com a explicação de “processos” compostos por várias camadas de sentido, nem sempre óbvios e nem sempre sintetizáveis em trinta segundos de som, imagem ou a cinco parágrafos de texto

 (…) é justo e imprescindível perguntar: Para onde tem vindo a olhar essa perversa “sismografia jornalística” dentro de fronteiras? 

Considerando o que hoje se vive nas ruas de várias cidades portuguesas – embora as televisões só mostrem Porto e Lisboa – é justo e imprescindível perguntar: Para onde tem vindo a olhar essa perversa “sismografia jornalística” dentro de fronteiras?

  Sugiro uma resposta breve e genérica: para o status quo nacional – para a sua agenda e os seus ângulos – desligando acontecimentos de processos, afastando-se do que realmente é considerado importante pelos cidadãos portugueses.

 A quem se acomodou aos bureaus editoriais e aos seus honorários financeiros e simbólicos, aos corredores e circuitos do Jornalismo Político, Cultural, Internacional, Desportivo… sugiro uma simples tarde de esforço de apreensão da realidade em qualquer fábrica, escola secundária, universidade, empresa, hospital…

Não é de espantar que muitos dos melhores cérebros que Portugal tem à disposição – da Literatura, à Música, às Ciências Naturais, à Economia – se afastem, emigrando, física ou mentalmente.

 Exemplo de há instante, retirado da televisão:

 Repórter – “O que é que está a fazer aqui na manifestação?”

Interlocutor – “Vim ver os pardais…”

 O Jornalismo português vem mostrando a saturação da mise-en-scène, da encenação superficial dos directos, das perguntas desligadas das preocupações quotidianas de cidadãos que deveriam ser o alfa e ómega da profissão. A verdade é essa: o Jornalismo não deve ser apenas uma profissão, mas um modo de querer entender o Mundo.

 Está por um fio a legitimidade jornalística quando fala dos pecados e crimes do status quo partidário e económico. E muito mais pode ser dito e demonstrado a este respeito.

 Felizmente, há dentro e fora das fronteiras nacionais profissionais que honram o Jornalismo.

 

Bem hajas Paulo (e desculpa a apropriação do status, mas é bom demais)

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Reconstrução angolana made in China

É um clássico angolano. Azar ser-se pobre num país escandalosamente rico.

Façamos uma cronologia breve. Inaugurou-se há quatro anos e trata-se do primeiro hospital público construído em Angola desde a independência do país em 1975. Um cicio da promessa joseeduardista de reconstrução nacional após 37 anos de guerra civil.

Em Junho de 2010, o Hospital Central de Luanda, evacuou os pacientes e o pessoal médico devido às fissuras que o edifício apresentava e ao iminente risco de colapso. Desde essa altura o hospital é um provisório. Funciona em tendas. O Hospital Público de Luanda foi construído pela China Overseas Engineering Group Co e custou oito milhões de dólares.  Dez vezes mais foi investido numa clínica privada (construída por portuguesas e paga pela Sonangol) onde se trata a elite política, petrolífera e os que singraram na vida. Azar ser-se pobre num país escandalosamente rico.

Do mesmo modo que Angola outsourced os seus assuntos de Defesa aos compañeros de Cuba, entre 1975 até 1989, agora cabe à  China reconstruir Angola e dotá-la de infraestruturas, o novo “abre-te Sésamo” da redenção nacional. Troca-se “desenvolvimento” por direitos humanos e liberdades civis. Angola não podia ter escolhido melhor professor. Desesperemos.

Neste triste país rico, que só se sobressalta quando, de repente, pousa o olhar no Facebook e descobre ( pasme-se!) que há alguns que consideram que trinta dois  anos é muito tempo,  ainda há vozes livres, sensatas e certeiras como a de Rafael Marques. Num artigo publicado no World Affairs Journal ele denuncia o novo imperialismo chinês e as promessas incumpridas do Presidente. Vozes como a dele dão-nos esperança que os dias dos nossos ditadores “confortáveis” estejam contados. E se a múmia de Lenine em Moscovo pode ser em breve enterrada, também poder dos Josés Eduardos desta vida pode esboroar-se. Como o Hospital Central de Luanda.

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O doce perfume da liberdade

É oficial: o faraó caiu.

O Egipto viveu hoje um dia de emoções. O último dia em que os egípcios tiveram as suas vidas governadas por Hosni Mubarak foi de festa. Hoje é o dia por que todos lutaram, o dia porque muitos morreram. Hoje tivemos o privilégio de assistir à mudança do curso da História.

 Nunca mais ninguém pode dizer que “não sabia”, analisa Elie Wiesel, sobrevivente do Holocausto e Nobel da Paz. No “New York Times”  Wiesel escreveu “Por causa do progresso na tecnologia, especialmente no campo da comunicação, ninguém tem já desculpa para dizer: ‘não sei, não sabia, não tinha noção’.” Um dos heróis  maiores desta revolução é Marc Zuckerberg.

 

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Notas breves da Polónia

 

1. Gosta de eléctricos? Já ouviu falar dos eléctricos de Varsóvia? Anacrónicos, omnipresentes e encantadores? Tem 8 mil a 10 mil zlotys, mais ou menos 2 mil euros disponíveis? Então poderá comprar um eléctrico, com alma, em Varsóvia ou em Poznan. A oferta está se a revelar tão popular que até já existe uma lista de espera. Só a capital polaca, que está a modernizar os seus transportes públicos, tem cerca de 600 eléctricos para vender.

 2. Por falar em Poznan, o histórico Warta Poznan, está a dar que falar. E é não pelo futebol. Fundado em 1912, tem dois títulos da primeira divisão no seu currículo: 1929 e 1947. Desceu de divisão em 2006 e desde então disputa a segunda divisão polaca, estando no finalzinho da tabela. Porquê então as manchetes internacionais? Muito simples: devido ao novo presidente, ou melhor presidenta. Izabella Lukomska-Pyzalska, uma ex-modelo, de 33 anos, que já foi capa da Playboy, é a nova presidente do Warta Poznan. Se as coisas não correrem bem à presidente resta saber se os adeptos do clube terão a coragem de acenar com lenços brancos. Também a imprensa desportiva não deve certamente pedir sua cabeça.

3. Há uma iniciativa no Facebook para fazer do 3 de Fevereiro “um dia sem Smolensk” e já mais de 60 mil pessoas aderiram. A iniciativa não visa ferir a sensibilidade de ninguém, mas permitir que o luto nacional se faça e que se acabem as trocas de acusações mútuas entre russos e polacos.

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Cão analógico

Em verdade vos digo que de há uns tempos para cá alimento fantasias sobre introduzir algumas alterações ao meu estilo de vida. Talvez seja por ser Janeiro, mas quero passar menos tempo na Internet. Os relógios correm de forma diferente no mundo digital. Não vos aconteceu já dizerem que são “só cinco minutos”, para passar os olhos pelos blogues preferidos, e “despertar” horas depois? E há os emails, e o Facebook, os comentários e e e … Além de info seeker estou seriamente infectada pelo vírus “opinionater”. Uma enfermidade do mundo ultra digitalizado é o tempo que passamos sentados e que nos faz ficar doentes.

O que me vale é a solução para os meus excessos cibernáuticos está mesmo à mão, ou melhor está mesmo aqui deitada aos meus pés. Talvez a forma mais eficaz de nos fazer largar a cadeira ergonómica e despegar os olhos do ecrã é um cão. O cão é radicalmente analógico. Não quer saber do virtual, de seconds lifes, de avatares, de netizens, quer pisar o mundo com as próprias patas. O cão é um animal inteligente, faz tudo o que os donos lhe ensinam, obedece todas a ordens com excepção de uma: “SENTA” (a minha cadela que coitada é obrigada a ser bilingue entende o comando “comer” em português e ignora o senta, só um gutural SITZ! a faz sentar). Contra a graça formidável de um cão a desafiar-nos para um bom passeio, faça o tempo que fizer, o mundo digital está em desvantagem.  Komm nur her Klecks! Spazieren!

 

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And if ?

 

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Aumento de produtividade…

O que aconteceria em muitas empresas se desligassem o Livro dos Rostos…

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O Natal nas redes sociais

Uma outra forma de ver o Natal.

PS-Obrigada Margarida : )

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