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O que tem o Facebook a ver com a ponte aérea ? *

Quando abro o Facebook sinto-me como um fotógrafo posicionado numa janela com uma lente potente. E posso escolher o detalhe ou o acessório.

Gosto de ver os meus amigos reais ou virtuais felizes. Não aponto a lente para pensamentos mesquinhos e maledicentes.

Fascinam-me posts bem humorados e sobre comida. Viajo e deslumbro-me  com as fotografias que alguns nos vão deixando como dádiva.

Como a vida,  o Facebook é o que fizermos dele e como o observamos. Tenho para mim que a vida é um lugar bonito.

* Tudo como nos últimos meses a minha vida tem sido uma ponte aérea entre Bona e Berlim – entre planeamento, reuniões, gestão de projecto, formação – apenas tenho postais de Berlim para partilhar, para as histórias tem-me faltado o tempo.

   

               

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Book a Tiger

1. Como em tudo na vida, no Facebook também é preciso moderação no consumo. Tome-se o caso de hoje. O certamente bem intencionado algoritmo recomendou-me a página “Book a Tiger”. Tocou de imediato uma sirene na minha cabeça. Que proposta era aquela?

Desconfio do algoritmo do Facebook desde que me aconselhou vários desportos radicais. Onde é que eu ia? Ah na “Book a Tiger”. Se dei a impressão de que o assunto era “sacanagem”, sinto muito, vou desiludi-los. Trata-se uma empresa de limpeza doméstica cujos anúncios exibem um giraço de pano do pó na mão. Fiquei a pensar no assunto.

Fiz uma pesquisa em blogs e revistas e constatei que a limpeza é uma questão esdrúxula entre homens e mulheres, um palco de guerra desvalorizado. Para elas pó sobre móveis é uma tragédia comparável a encontrar alguém numa festa com o mesmo vestido, já eles consideram que a colocação da louça no interior da máquina deve obedecer a critérios científicos (claro que o aspirar por baixo do tapete é considerado um detalhe).

A definição de critérios de limpeza e arrumação da casa para muitos casais é mais obscura do que as conversas (que procuro ter) com a minha empregada do Rajastão que não fala inglês, nem alemão, nem nenhuma língua europeia (mas que me sorri com os olhos e me adivinha os desejos). Claro que para grandes males, grandes remédios. Apresento-vos Achim Wiehle, um “staatlich geprüfter Desinfektor”, ou seja alguém com curso de “desinfectador” de locais do crime. Pois bem, Achim é um obcecado pela limpeza e orientador de seminários destinados em exclusivo ao sexo masculino. O primeiro módulo dos seus bem frequentados cursos é psicologia da limpeza, segue-se a explicação dos utensílios de necessário à faxina e regras básicas como : “nunca, mas nunca fazerem limpezas juntos, dividam a casa em territórios e cada um é responsável pelo seu território”. Abençoado Tiger.

2. Por falar em território, já escrevi sobre isto no Facebook, outro palco de guerra desvalorizado é a cama de casal. Quem não passou já noites de olhos abertos porque o/a parceiro/a ressona, ou porque um tem frio e o outro quer dormir de janela aberta, ou ainda porque um quer ler na cama e o outro adormece ao fim de meia página. Uma sugestão feita por sexólogos é que o casal durma em camas separadas, reservando o adormecer em conchinha ou de mão dada para noites especiais, preservando assim a relação da rotina (e da irritação provocada pelo ronco que transforma o príncipe num ogre).

Quem oferece maior resistência às camas separadas são habitualmente os homens que sentem a sua masculinidade questionada quando as companheiras não querem “dormir com eles”. Como o meu sono é pesadíssimo, adormeço com facilidade e tenho quarto de hóspedes, não formei opinião sobre o assunto, mas lembro-me das palavras, pragmáticas, de uma amiga “enquanto ele ressona eu sei que ele está ao meu lado”.

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Filed under Alemanha, cenas da vida doméstica, Mulheres

Exigências da vida moderna*

Beba um sumo verde pela manhã com espinafres, aipo, gengibre, maçã e spirulina (que ninguém sabe bem o que é, mas que faz muito bem). Diariamente deve comer muita fibra, fibra suficiente para fazer um tapete daqueles que se vendem numa conhecida cadeia de mobiliário sueca. E nunca se esqueça de mastigar cem vezes cada garfada das refeições leves, levíssimas, que fizer. Anote: para comer, entre preparar as verduras, centrifugar os detox, separar as bagas milagrosas e mastigar precisa de umas cinco horas.

Beba muitas chávenas de chá verde para prevenir os diabetes e fuja a sete pés do café. Não esqueça dos três litros de água diários, do copo de vinho tinto para prevenir ataques cardíacos e do copo de vinho branco para estabilizar o sistema nervoso. Anote: despenderá uma hora por dia na casa de banho. Bem, na verdade mais, se cumprir a máxima de escovar os dentes após todas as refeições, lhes passar o fio dental e bochechar com aqueles líquidos de sabor estranho capazes de matar a mais resistente das bactérias (e desentupir canos aposto). Isto sem contar com o duche frio para estimular a circulação.

Anote: necessita de oito horas de sono para não ter olheiras e manter a pele lisa como a de um bebé. Some-lhe as oito horas que passa no trabalho, as cinco das refeições e o tempo que passou na casa de banho. Pelas minhas contas são 22 horas. Com o dia a desaparecer a um ritmo mais rápido do que um remate de livre do Ronaldo, restam-lhe duas horas. Se não se perder no Facebook, no Twitter ou apanhar trânsito. As estatísticas mostram que cada um de nós vê uma série de televisão por dia ou o noticiário. Menos você porque todos os dias vai fazer uma corrida de uma hora, andar de inline skates, passear vigorosamente o cão ou subir as colinas de Lisboa (ou Bona). Tudo isto registado por uma app e publicado em tempo real no Facebook.

Estou-me a esquecer de alguma coisa? Ah, o sexo. Diário e não rotineiro. Deve usar a imaginação e inovar (ou vai dizer-me que todos aqueles que respondem aos estudos sobre sexualidade contam histórias de pescadores?). Entre o acender das velinhas, o procurar os brinquedos (escondidos no fundo da gaveta longe dos olhares curiosos das crianças) e o folhear o Kamasutra para testar a posição 1245 c já passou meia hora. E nem se atreva a adormecer a seguir, é preciso conversar. Zzzzzzzzzzz.

Claro que vai precisar de tempo para levar os miúdos à escola, passar a ferro, pôr gasolina no carro, ler vários jornais, postar os Links no Facebook, comentar os Links. E as amizades têm de ser regadas. Voltando às contas: o dia já vai com trinta horas. Ohmmmmm.

Assim de repente a única solução que me ocorre é fazer várias coisas ao tempo. Pode regar a amizade com um bom vinho tinto alentejano ou um branco do Douro, durante o almoço (sugere-se posta à mirandesa ou uma alheira com grelos) que substitui as seis refeições (de alface, bagas goji, sementes de chia e de cânhamo) e dar muitas gargalhadas que como se sabe prolongam a vida e alisam as rugas.

Leia os jornais no iPad ou no iPhone enquanto estiver no trânsito ou aproveite aqueles minutos todos que passará na casa de banho para ler. Esqueça o sumo verde e tome um cappuccino. Acelera o pulso e melhora a concentração e vai precisar dela para o que vem a seguir. Que tal em vez de uma hora a correr sozinho passar duas horas, acompanhado, na cama (no chão, na mesa, as possibilidades são infinitas)? Queimará as mesmas calorias, estimulará a circulação e divertir-se-á muito mais.

Anote: uma boa pitada de humor tem efeitos secundários mais consideráveis que os da spirulina ( seja lá o que isso for).

* Texto inspirado pela crónica Exigências da vida moderna, de Luis Fernando Veríssimo

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É tudo uma questão de geografia

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Suzette Jordan, uma mulher que não aceita nem o silêncio, nem a culpa

Olhar para o país-continente Índia pressupõe um descompasso entre as interpretações sobre o que é a realidade. A maior fábula de todas é o real. Há a Índia da “Vogue”, da novela “Caminho das Índias”, do 007, do The Darjeeling Experience, e a Índia que não vem em nenhum mapa.

No país do Kamasutra e dos Yogis, do Taj Mahal – conhecem elegia ao amor mais bela ? – dos sonhos açucarados-coloridos-kitsch de Bollywood, no país para o qual peregrinam europeus em busca de um Guru que os ilumine e lhes dê a experiência que faltava nas suas vidas monótonas e confortáveis, no país de Mahatama Gandi, onde as vacas são sagradas, as mulheres são animais em regime de caça livre.

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A mãe de Saroj. Uma mulher que passou pela demência de matar as próprias filhas.

Vá ao Google Maps e procure o Rajastão, gloriosamente branco, azul, vermelho, como os seus lagos, palácios esplendorosos e o deserto. Agora faça zoom-in. Permita-me que lhe apresente Saroj. A menina que teve sorte. Sorte de chegar aos onze anos de idade. Não é a primeira menina da família, mas a única que sobreviveu, numa região onde as mulheres vivem a demência de matar as filhas. A irmã mais velha de Saroj foi asfixiada pela mãe com a areia vermelha do deserto. A bebé que se  seguiu foi enterrada viva após ter soltado o primeiro grito. “Aqui é assim”, diz a mãe de Saroj e chora. Só quando nasceu a terceira menina teve a coragem de se opor à sogra e salvar a filha.

As meninas no Rajastão não vão à escola, nunca ganharão dinheiro. O casamento de uma rapariga pode arruinar a família. As meninas são um fardo, os meninos uma benção. “Se as mulheres fossem consideradas iguais aos homens não quereriam mais trabalhar em casa”, dizem os anciãos. 50 mil fetos do sexo feminino são abortados mensalmente,”o meu bebé era menina, paguei 1200 rupias [17 euros] e livrei-me dela”, a se  que soma um número desconhecido de bebés do sexo feminino mortos ou  abandonados à nascença  Um gendricídio.

Mudemos de cenário. Nova Delhi. Onze milhões de habitantes. Sunita  regressou à casa dos pais. Não é bem-vinda. Apenas suportada. Rompeu o casamento arranjado porque o marido a espancava todos dias à frente do filho. “As mulheres hoje já não aguentam nada”, queixa-se a mãe de Sunita. Na Índia 47 por cento das mulheres são forçadas a casar antes dos 18 anos.

A cada 20 minutos uma mulher é violada na Índia. As Nações Unidas classificam o país como o mais perigoso do mundo para ser mulher, à frente do Afeganistão ou da Arábia Saudita. Há um ano a morte da estudante de 23 anos, Jyoti Singh Pandey, na sequência de uma violação colectiva num autocarro, sacudiu as conciências. Quatro dos violadores foram condenados à pena de morte. Uma excepção.

Nos últimos anos 3500 homens foram condenados a penas de prisão por violação  mais de 11 mil foram ilibados da acusação. Para a sociedade indiana a culpada pela violação é sempre a mulher. O caso Jyoti é sintoma de uma guerra que a Índia conduz contra as suas filhas. Uma guerra que começa nos minutos que se seguem ao parto.

Em Calcutá uma jovem mulher sonha vencer as fronteiras da Índia para pedir socorro ao mundo. Luta sozinha contra as barreiras internas petrificadas por séculos de opressão masculina. Suzette Jordan foi violada por cinco homens. Recusou o silêncio e a culpa. Suzette é a primeira mulher vítima de violação na Índia a mostrar o rosto. O preço da coragem é muito alto e ela traz nos braços as marcas das várias tentativas de suicídio.

Vrindavan, cidade das viúvas. Mulheres de branco, idosas e jovens adolescentes,  acocoram-se no pó e esperam por moedas. Chayya, tem 74 anos. Foi expulsa de casa pela filha após a morte do pai, algo comum na Índia onde as viúvas estão presas numa espiral de preconceito e superstição. Impossibilitadas pela tradição de se voltarem a casar estão condenadas a viver à margem da vida, na miséria mais abjecta. Mesmo que o casamento seja um inferno para estas mulheres “sem marido não temos mais nada”, diz Chayya. No rio Yahamuna incendeia-se uma pira funerária, uma despedida solitária. “Ela não tinha ninguém”. Apenas um filho.

Nota final: “ As filhas perdidas da Índia” é um documentário extraordinário do Canal Arte. São 53 minutos que colocam estas mulheres no mapa e na geografia dos afectos. O mundo divide-se entre os que estão no mapa e os ausentes deste. A maior fonte de violência? A invisibilidade.

O documentário passa no dia 17 e 22 de Dezembro caso alguém tenha interesse.

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O velho de Bona

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Há uma tira da Mafalda que dizia ” e não é neste mundo há cada vez mais gente e cada vez menos pessoas?”. Entre o ser gente e o ser pessoa basta às vezes um pequeno gesto. Ou um olhar.

Esta tarde passei por ele numa rua de Bona. Não numa rua qualquer, mas numa das ruas mais aristocráticas de Bona. Era um sem-abrigo, um homem velho, frágil, com um casaco azul eléctrico. Caminhava, apoiando-se num carrinho de supermercado, parecendo prestes a cair a cada passo e a cada passo ajeitava o casaco, uma réstia de vaidade nele, a preocupação de ocultar (de esquecer?) a vida na rua. Nesse bailado sem coreografia revelava a fralda geriática e a fragilidade de todos nós. Passando por eles um grupo de adolescentes comentou “olha aquele, olha o Loser” e desataram numa gargalhada trocista. A pequena crueldade, a maldadezinha não vem nos noticiários, nem é partilhadada no facebook ou no twitter como as fotografias que espicaçam a consciência, mas é um seta espetada na pele.

Dirão os mais cínicos, do conforto da suas poltronas e que nunca estiveram perto de uma tragédia ou de uma vida destroçada, que elas pouca influência têm. Como escreve Susan Sontag “nomear um inferno não é, naturalmente, dizer alguma coisa sobre como moderar as chamas desse inferno. No entanto, já parece ser bom o facto de dar a conhecer, de ter alargado, o sentido que as pessoas têm de quanto sofrimento existe no mundo que partilhamos com os outros”.

Zanguei-me com os miúdos, disse-lhes que também eles um dia serão velhos. Pedi-lhes para olharem aquele homem nos olhos, como um ser real e não virtual, para se deixarem transformar por aquele ser humano. Disse-lhes que nada lhes assegura que não serão eles a quase tropeçar a cada passo. Disse-lhe que na vida a única coisa que temos por garantida é o seu fim. “Que tal serem pessoas?”, perguntei-lhes. Ouviram-me com espanto e viraram-me as costas, em silêncio.

O velho esboçou um sorriso, deixou escapar um “Dank” baixinho e continuou a caminhar ajeitando o casaco como quem ajeita a vida.

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O Prémio Leya

A minha vida anda tão aborrecida como a formação do governo alemão. Alguém já experimentou “a coligação governamental de Berlim” como tema de conversa? Bem, a conversa entra em rigor mortis.

Estava em posta no meu “Ennui”, ao cabo de dias de confinamento em seminários e gabinetes, com manifesta falta de tema consistente e interessante para escrever, quando resolvi dar uma volta  pelos meus blogs preferidos, muitos deles têm matéria literária suficiente para um bom romance [com alguns fiz uma verdadeira amizade e por eles  aproveito todas as paragens nos semáforos e nas filas de trânsito que me esperam ao virar da esquina para me actualizar]. Não preciso de explicar as vantagens de estar no meu sofá em Bona e de ter o mundo (ou Berlim) e boa escrita à distância de um clique.

Sigo da Avenida da Liberdade bloguística para a Praça da Figueira  virtual que é o Facebook e encontro-a em alvoroço. Confesso que  prefiro o Facebook em alvoroço do que cheio de gatinhos. Note to self:  sim eu sei  que que os gatos são um tema literário inesgotável, que Fernando Pessoa, T. S. Eliot, Rainer Maria Rilke, Ezra Pound,  Alexandre O’Neill, Pablo Neruda, Lewis Caroll, entre tantos outros tiveram amigos felinos e escreveram sobre gatos. But sometimes it’s all just a little too much, right?

Bem, estou-me a dispersar. Onde é que eu ia? Ah, no alvoroço. Pois. No meu círculo facebookiano discutiam-se três temas. O primeiro era o discurso do presidente angolano  que, por ausência de um único pensamento altruísta acerca de JES,  me abstenho de comentar. Centenas de likes e dislikes suscitava a entrevista polémica dada por Gabriel Mithá Ribeiro, na qual  defendia um maior autoritarismo dos professores e o regresso da disciplina às escolas (embora não esteja de acordo com tudo o que foi dito, há muito de verdade nas suas palavras e de facto alguns estabelecimento de ensino portugueses são tão perigosos como os da Bronx ). Por fim, grande agitação causou a vencedora  do Prémio Leya. Como dizia o iluminista Abade Correia da Serra, “Dentro de cada português, mas dos puros, vibra a alma d’um familiar do Santo Ofício”. Gabriela Ruivo Trindade –  a primeira mulher, em seis edições, a vencer o Prémio Leya, com a obra “Uma Outra Voz” – foi quase ultrajada, com um gozo bestial e um snobismo de baixa costura, diga-se de passagem por mulheres e homens das “Letras” portuguesas, sem que ninguém lhe conheça o romance que mereceu o prémio. E porquê? Porque o seu blogue estará cheio de “frasezinhas e de literaturazinha”(um dos comentários “elevadíssimos”que li). Caramba. Dou por mim praguejar. Como se bons escritores nunca tivessem escrito maus livros, ou como se um simples blog fosse suficiente para aferir o grau de pureza literária de  um autor.

Retiro-me do Facebook com uma certeza: vou comprar o livro da Gabriela. A inveja nunca me deixa indiferente, aliás é a emoção humana que mais  me perturba. Prefiro uma pessoa boa, a uma pessoa inteligente.

PS-  Caro leitor se concorrer a um prémio literário (e  principalmente)se o vencer não se esqueça de apagar os posts do Facebook e o seu blog. Porque o Homo Literatus facebookiano, por detrás dos seus óculozinhos de tartaruga e de Cânone literário em punho, está pronto a abrir hostilidades com uma força incontrolável.

Acho que vou por uns likes numas fotos de gatinhos.

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16/10/2013 · 10:56 PM

Robin Hood de Hannover

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Vou ser franca. Deslumbra-me este crime. Eu explico. Há uns dias foi roubado em Hannover o símbolo da Bahlsen (talvez a mais conhecida fabricante de bolachas alemã). Trata-se de uma peça de arte centenária, em cobre, com a forma de uma bolacha e que pesa cerca de vinte quilos. Na passada terça-feira o jornal local, Hannoverschen Allgememeinen Zeitung, recebeu uma carta composta por letras recortadas da imprensa. “Vocês querem a bolacha e eu tenho-a. Entrego-a se oferecerem às crianças da Clínica infantil bolachas de chocolate (de leite) e doarem mil euros ao Canil de Langenhagen. Caso contrário a bolacha acaba no caixote do lixo do Óscar ( para os leigos o Óscar é um monstro verde mal humorado que mora dentro de um caixote do lixo)”. Assinado: “monstro das bolachas”. Na fotografia,que acompanhava a carta, entretanto entregue à polícia local, vê-se um adulto mascarado de monstro das bolachas da Rua Sésamo segurando a bolacha de cobre.

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A Bahlsen reagiu ao Robin Hood das guloseimas anunciando no Facebook que doaria 52 mil pacotes de bolachas a 52 insituições sociais, desde que o símbolo da empresa seja devolvido.

Tenho lido com divertida avidez ( eu e meia Alemanha) todas a peripécias em torno deste roubo. Sei que é impossível conciliar-se o inconciliável, haver moral num roubo, mas no fundo, no fundinho, sinto uma certa ternura pelo monstro das bolachas. Ando a ver muitos filmes do Woody Allen, é o que é.

Adenda: Depois de ter escrito este post li que o Cookie Monster original (americano) escreveu no Twitter: “me no steal golden cookie. But me willing to help find real cookie thief”. Esta história está cada vez mais deliciosa.

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