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Galdérias

 

O século XXI nasceu um puritano disfarçado de tolerante, dizia a Inês Pedrosa. Eu acrescento cada vez mais puritano e cada menos tolerante. Olhe-se para o Uganda. A bem da virtude, da moral ou da integridade – a lista de prerrogativas é extensa e sempre declinada no masculino – dilaceram-se a dignidade, cometem-se crimes contra a autodeterminação individual. O país prepara-se para regressar à era do ditador Idi Amin e proibir o uso de mini-saias.

“Qualquer peça de vestuário que exponha partes íntimas do corpo humano, em particular zonas eróticas, são proibidas. Qualquer peça de vestuário acima do joelho será proibida. Qualquer mulher que use mini-saia será presa”, explica Simon Lokodo, o ministro da Ética e Integridade ugandês. O mesmo que considera que as mulheres vítimas de violação são parcialmente culpadas por serem “provocadoras”. Esta inaceitável diminuição da mulher – porque é que a liberdade da mulher incomoda tanto? E porque é que a sua sexualidade assusta? – assenta num pensamento monolítico: se a mulher não é uma santa, e aparentemente para estas luminárias à mulher de César não basta sê-lo há que parecê-lo, inevitavelmente será uma galdéria, ou uma puta, pardon my french.

Não há condescendência possível para com este pensamento castrador. Se o ministro uganiano está tão preocupado com a imoralidade lance uma cruzada contra a corrupção e a pobreza. Essas sim são imorais.

A primeira coisa a ensinar-se a uma criança, uma espécie de bê-a-bá da educação, deveria ser o respeito. É a rocha sobre a qual se constrói a tolerância e o amor pelo outro. Só o respeito permite entender que o corpo da mulher vale tanto como o do homem. Ah e ambos nasceram nus.

 

PS- Quando leio projectos de lei como estes apetece-me mandar os seus autores “arranjar uma vida”. Ou então ter bom sexo. Parte do problema deve passar por aí, creio.

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E a banqueira mais poderosa de África é…

Chama-se Maria Ramos, tem 53 anos, nasceu em Lisboa, e é filha de emigrantes portugueses na África do Sul. Esta semana, a mulher que ajudou a escrever a constituição pós-apartheid e integrou o o governo de Nelson Mandela, foi destaque em inúmeras publicações alemãs pelo facto passar chefiar o maior banco do continente africano, o Barclays Africa Limited. Isto apesar de ser mulher, branca e de “origem estrangeira”. Uma lição enorme para muitas empresas europeias.

 

 

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A saudade com mapa e bússola

Recolho-me como um poente. Pelos vidros entra o ruído da noite. Nos pés a intimidade com o chão.Haverá conforto maior ao final do dia do que pés despidos no chão? Magoa-me a saudade que ainda não sinto, mas que virá com bússola e mapa. Faço a mala. Aconchego nela o vestido tradicional namibiano feito à numa aldeia pela mãe da directora da NBC Oshiwambo. Um pedaço de pano riscado pródigo de carinho. “Meme Helen, a minha mãe agradece e abençoa-a”. Onghulungubu hai pwa makiya (os velhos tem sempre alguma coisa sábia a dizer). Algures no Kalahari uma anciã africana, que não me conhece, pensou em mim. Haverá razão maior para amar este esta terra de pastores?

Tenho sempre dificuldades em dizer adeus. Foram dias intensos em Oshakati. Muito trabalho na NBC, muito calor. Acompanhei reportagens duras, retratos de vidas de excepção e donos de coisa alguma. Horas passadas em cabanas de palha e cubos de zinco. Violência, morte, destituição. Corrigi a forma de contar essas histórias, num exercício delicado entre a minha sensibilidade de jornalista europeia e a cultura nativa.

Como a realidade ultrapassa sempre a melhor ficção fui conduzida todos estes dias pelo filho de uma rainha, pai de de trinta e cincos filhos. E África não seria África se não houvesse aqueles momentos de alegria uterina, aqueles sorrisos, aqueles picasr de olhos involuntários e esporádicos cada vez que me deparo com uma das “invencionices” africanas. E os abraços que trocam o mundo de fora, pelo mundo de dentro. Haverá melhor motivo para voltar?

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Ajuda ao desenvolvimento Sul-Norte

As “Áfricas” são um puzzle complexo. Onde os conceitos não são os nossos. Com Richard Kapuschinski e com as viagens que fiz ao continente africano comecei a detestar as pessoas vêm para África e vivem na sua “Pequena Europa” e “depois regressam gabando-se de terem vivido em África, que na realidade nunca chegaram a conhecer”.  Houve poucos a escrever sobre as “Áfricas” como Kapuschinski, evitando as rotas oficiais e os palácios. No panorama português lembro-me apenas da Baia dos Tigres, de Pedro Rosa Mendes, que nos conduz numa ”viagem sem bilhete, sem horário, sem transporte público, sem “vouchers” com pequeno almoço incluído, sem bebida fresca tomada na varanda à hora do sol se pôr”, pedindo as palavras emprestadas ao Adelino Gomes.

Como “a”  África não existe, ou existe apenas como conceito geográfico , vale a pena ver esta sátira  (de 2012) sobre a ajuda humanitária europeia. Numa palavra: genial.

PS- O que escrevi acima é um copy-paste de um post meu de 2010. Mantém-se actual.

Obrigada José Milhazes pelo vídeo.

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Oshakati

Teimo em não conseguir andar muito tempo por este Norte sem devolver-me ao silêncio do deserto, ou aos murmúrios da noite africana.  Teimo em continuar a dar, sempre que possível, um salto ao Sul. A mala está quase feita. E entrei em modo  de contagem decrescente. De um amigo, conselheiro bem intencionado e profundo conhecedor de África, recebi um email com algumas recomendações antes da partida para  Oshakati, no norte da Namíbia:

  – “se te oferecerem vermes Mopani (umas lagartas gordas, maiores do que um dedo indicador, que fazem parte da alimentação tradicional da Àfrica do Sul, Botswana, Zimbabué e Namíbia, e habitualmente são servidas estufadas) não recuses. Pensa neles como escargots, só que sem manteiga de alho”.

- “o preço da cerveja varia consoante ela estar fria ou não”. A cerveja mais bebida em Oshakati é a angolana Cuca (a cidade teve um papel importante na guerra civil angolana), de tal forma que os “bares” informais  são conhecidos como “Cuca Shops”. O real faz-se de encontros e convergências a pedir que se decifrem continuidades e contiguidades.

- “burros, cabras e gado fazem parte do ‘mobiliário urbano’. Trava.”

- “uma ‘pequena distância’ significa uma viagem de carro com um minímo de três horas”.

Ai que saudades do firmamento africano. Até já.

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Helena Ferro de Gouveia:

A propósito deste artigohttps://apps.facebook.com/theguardian/commentisfree/2012/jun/03/how-not-to-write-about-africa, lembrei-me de algo que já aqui tinha publicado.

Originally posted on Domadora de Camaleões Blog:

As “Áfricas” são um puzzle complexo. Onde os conceitos não são os nossos. Com Richard Kapuschinski e com as viagens que fiz ao continente africano comecei a detestar as pessoas vêm para África e vivem na sua “Pequena Europa” e “depois regressam gabando-se de terem vivido em África, que na realidade nunca chegaram a conhecer”.  Houve poucos a escrever sobre as “Áfricas” como Kapuschinski, evitando as rotas oficiais e os palácios. No panorama português lembro-me apenas da Baia dos Tigres, de Pedro Rosa Mendes, que nos conduz numa “viagem sem bilhete, sem horário, sem transporte público, sem “vouchers” com pequeno almoço incluído, sem bebida fresca tomada na varanda à hora do sol se pôr”, pedindo as palavras emprestadas ao Adelino Gomes.

Como “a”  África não existe, ou existe apenas como conceito geográfico , vale a pena reler a sátira de Binyavanga Wainaina , Como escrever sobre África

“No seu título use sempre…

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E que tal um banho sem água?

Já não é um um segredo bem guardado. Chama-se “Drybath”e tem tanto de insólito como de inovador. Trata-se de um gel que  permite que qualquer pessoa faça a sua higiene pessoal sem recorrer a uma pinga de água. O produto é aplicado na pele, eliminando, segundo afirma o seu criador a quase a totalidade das bactérias nela existentes.

O gel foi desenvolvido pelo sul-africano Ludwick Marishane, de 22 anos, e a ideia já lhe valeu o prémio de Estudante Empreendedor do Ano (2011) da Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul. O objectivo? Salvar vidas em locais onde a água escasseia.

Só em África existem mais de 450 milhões de pessoas sem acesso à água ou a condições básicas de saneamento. O gel resulta de uma mistura de um biocida, bioflavonóides e hidratantes e a aplicação deve ser feita sobre a pele – à semelhança de um creme comum – sendo que a fórmula antibacteriana promete eliminar 99,9 por cento das bactérias. Além da eliminar bactérias, o gel hidrata e elimina os maus-cheiros.

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Nota dispersa

 “You can’t enjoy the fruits of effort without first making the effort”. Lembro-me com frequência destas palavras de Margaret Thatcher quando observo o desenvolvimento em muitos países africanos.

Decorrido meio século sobre a independência África tem-se revelado incapaz de gerir o seu enorme potencial. Paradoxalmente, a riqueza em recursos naturais tem contribuído para minar a prosperidade. Veja-se o exemplo da Nigéria. Apesar de uns 400 mil milhões de dólares em exportações petrolíferas, de 1965 a 2000, o número de nigerianos a viver com menos de um dólar por dia passou de 19 milhões, em 1970, para 90 milhões em 2008. E a Nigéria está longe de ser caso único.

A questão do subdesenvolvimento africano é complexa e tem de ser analisada tendo em conta inúmeros vectores: o passado colonialista, a ajuda (perniciosa) ao desenvolvimento, a inexistência de infraestruturas e a incapacidade crónica dos líderes africanos. É precisamente este último ponto, politicamente incorrecto, que Greg Mills aborda em “Why Africa is poor. And what africans can do about it”. Uma leitura obrigatória porque o desenvolvimento africano não precisa de uma fórmula mágica, nem que se descubra a pólvora, mas sobretudo de líderes íntegros e escolhas acertadas.

PS- 1.Comprei este livro na livraria do aeroporto de Johannesburg,  meca para quem se interesse pela realidade africana.

2. O restaurante português de quem falei no post anterior chama-se Residencial da Beira e é muitíssimo recomendável. Além do tradicional camarão ou peixe, serve pratos improváveis como leitão assado ou pataniscas de bacalhau com arroz de feijão…Já estou a salivar.

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Mapas inexistentes, caminhos incertos

Olho o mapa e sinto-te as cores.

Dos rios que atravessei, das ruas que me encantaram, do deserto que pinto de memória.

Faltam-me os teus matizes de vermelho nas picadas, o verde das selvas, as minhas e as onde jamais passarei.

Doem-me as tuas dores, salgam-me a boca as tuas lágrimas, enche-me de luz o teu sorriso.

Sonho os teus mapas inexistentes e por teus caminhos incertos. África mãe, África madrasta, África cruel, África cor.

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“Kilombos” ou um Brasil pouco conhecido

Os quilombolas também são brasileiros, mas de “um Brasil de alguma forma invisível”, alheado de carnavais e futebóis, diz Paulo Nuno Vicente, autor de um documentário sobre estes descendentes de escravos africanos que lutam pelo direito à terra.

“Kilombos” é o nome do documentário realizado pelo jornalista Paulo Nuno Vicente, com direção de imagem de Luís Melo e financiado pelo Instituto Marquês de Valle-Flôr (IMVF), que será mostrado pela primeira vez no seminário internacional dedicado à cultura dos quilombolas, na quarta-feira, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

Em declarações à Lusa, Paulo Nuno Vicente explicou que quis mostrar “um retrato que sai fora do postal”, mas que, acredita, “é importante conhecer”, porque revela “o Brasil contemporâneo”.

“Este é também o Brasil, um Brasil de alguma forma invisível. Está fora do Carnaval, fora do futebol, das praias repletas de mulheres esculturais”, realça.

Os quilombolas que o documentário retrata – que vivem no estado do Maranhão e têm origens em Cabo Verde e Guiné-Bissau – “vivem à sombra de um quadro de direitos que é consagrado legalmente, quer nacionalmente, dentro do Brasil, quer internacionalmente, quando falamos de direitos humanos”.

Cacheu - Fotografia da ONG AD

“É algo paradoxal que seja possível encontrar, ainda hoje, comunidades (…) em que a violação de direitos democráticos básicos acontece diariamente”, seja por impossibilidade de acesso à escola ou por invasão de terras, assinala o jornalista.

Os “crimes contra pessoas e património” são frequentes nos quilombos (nome das povoações, que se estimam em mais de três mil no Brasil), relata Paulo Nuno Vicente, referindo a violência que afeta sobretudo as pessoas que, dentro das comunidades, têm procurado organizar-se. “Algumas delas são assassinadas ou são de alguma forma perseguidas. (…) Tiveram que, várias vezes, fugir da sua própria casa”, exemplifica.

Todos os sujeitos do filme são quilombolas, à exceção de um, que desafia os espetadores a perguntarem-se quem vive em alojamentos precários nas grandes cidades. “São usualmente pessoas negras, que foram obrigadas a fugir para os centros urbanos, para poderem ter um nível de vida mais aceitável”, responde Paulo Nuno Vicente, lamentando que “este tipo de temas” não mereça uma abordagem “mais aprofundada” por parte dos jornalistas, do Brasil e do mundo.

Fonte: LUSA

PS- O documentário estará disponível aqui a partir de dia 7.03

 

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Filed under África, Brasil, Guiné-Bissau

Vem aí o Sá Pinto

“A partida de futebol é sempre mais que o resultado. O mais belo num jogo é o que não se converte em pontos de classificação, é aquilo que escapa ao relatador da rádio, são os suspiros e os silêncios, os olhares e os gestos mudos de quem joga dentro e fora das quatro linhas.”

Mia Couto

Como não temos resultados  está-se mesmo a ver que no peito de cada sportinguista se aloja um poeta. Bem dizia o Pessoa que o poeta é um sofredor.

 

 

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Quem não tem cão…

Fábula

Menino gordo comprou um balão

e assoprou

assoprou com força o balão amarelo.

Menino gordo assoprou

assoprou

assoprou

o balão inchou

inchou

e rebentou!

Meninos magros apanharam os restos

e fizeram balõezinhos.

 

José João Craveirinha

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Filed under África, Coisas do Mundo

A “pureza” africana

Falemos do Uganda. É um dos piores países do mundo para se ser criança. Numa guerra longa, de duas décadas, mais de 30 mil crianças, viram a sua infância ser-lhes raptada, foram usadas como soldados ou como escravas sexuais.

A barbaridade no Uganda não se fica pelas crianças. Advogando a espada da “pureza africana”, os moralistas de serviço – tantas vezes com poder, tantas vezes no poder – pedem a pena de morte para gays e lésbicas.

Um infame projecto-lei anti-homossexualidade – que havia sido apresentado em 2009 e que acabaria por ser temporariamente posto de parte em maio do ano passado, após condenação internacional – volta a ser debatido no parlamento.

A homossexualidade é ilegal no Uganda, onde os actos homossexuais são considerados um crime punível até 14 anos de prisão. O que no aprece ser suficiente para o autor da  Carta Anti-Homossexualidade, o deputado David Bahati, membro do Movimento de Resistência Nacional, que defende a pena de morte para a “homossexualidade grave” ( por exemplo no caso do homossexual ser seropositivo. Se a lei for aprovada também aqueles que sabem da existência de uma relação homossexual e não a denunciarem no prazo de 24 horas serão criminalizados, podendo enfrentar uma pena de prisão até três anos.

No continente africano apenas a África do Sul reconhece direitos legais aos homossexuais e o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

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Filed under África, direitos humanos

Se a vida fosse um relvado…

O que eu invejo, Doutor, é quando o jogador cai no chão e se enrola e rebola a exibir bem alto as suas queixas. A dor dele faz parar o mundo. Um mundo cheio de dores verdadeiras pára perante a dor falsa de um futebolista. As minhas mágoas que são tantas e tão verdadeiras e nenhum árbitro manda parar a vida para me atender, reboladinho que estou por dentro, rasteirado que fui pelos outros. Se a vida fosse um relvado quantos penaltis eu já tinha marcado contra o destino ?

Mia Couto

 

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Filed under África, Coisas do Mundo, direitos humanos, Futebol

Sustos…

 1. Em Berlim vive-se uma situação deveras curiosa. Um “não-partido” de geeks, chamado os   Piratas, que ganhou os seus galões a defender a liberalização das drogas leves, a privatização da religião, a proibição da videovigilância policial e o fim dos direitos autorais tomou de assalto a Rotes Rathaus. Foi o verdadeiro vencedor da noite eleitoral e colocou todos os membros da sua lista, 15, no Parlamento regional. Metade deles tem menos de trinta anos e apesar de saber mexer bem num computador e não tem a menor noção de política, de finanças ou de economia.

Constato apenas que há um efeito útil neste voto de protesto dos eleitores berlinenses: o de acordar os restantes partidos ditos “estabelecidos”. Para a chanceler e particularmente para o cadáver em que se tornou o partido liberal a noite foi calamitosa o que nada de bom augura na coligação governamental, que aliás entrou em processo suicidário… A Europa que vá pondo as barbas de molho.

 2. Sabe qual é o segundo país no mundo, a seguir ao Afeganistão, onde se regista, segundo dados do Banco Mundial, a maior taxa de mortalidade infantil entre crianças com menos de cinco anos? Dou-lhe uma pista: começa por “a” e a língua oficial é o português… Deixemo-nos de meias palavras ou de pudores politicamente correctos: este índice é uma tragédia vergonhosa. Diria mesmo obscena. Ofende-me que para garantir negócios ou as “relações bilaterais” com Angola seja preciso ser-se conivente a solidão e olhar devastado daqueles meninos.

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Filed under Alemanha, Angola, África

O palco é para ele, e só para ele. Até quando?

Alguns apocalipses estão prometidos em África. Inquieta-me pensar que Angola possa ser um deles. Os sinais estão todos lá. Se o olhar não se deixar ofuscar pelo brilho de Luanda ou embaciar pelos petrodólares constata que o rei vai nu. E que o chefe, que não tolera rivais nem sucessores,  começa a vacilar. A violência com que foi reprimida a manifestação deste sábado em Luanda, a intimidação e repressão de jornalistas e activistas é reflexo da fobia do cerco, do medo de perder o poder.

 (Lusa) — O ativista angolano Rafael Marques condenou a resposta governamental contra os jovens que se manifestaram no sábado em Luanda e alertou o Governo para “não precipitar uma situação que eventualmente possa escapar ao seu próprio controlo”. 

 Em declarações à Agência Lusa, Rafael Marques considerou que a “resposta autoritária” de sábado contra um grupo de manifestantes que exigia a “destituição do Presidente José Eduardo dos Santos” na capital angolana “colocou apenas o próprio regime numa situação muito mais delicada”. 

  “A reação da Polícia Nacional e da Presidência da República demonstra que não estão a aprender com o exemplo do Egito, da Tunísia e de outros países, onde a repressão só agravou a situação”, vincou o ativista e jornalista angolano. 

 Rafael Marques enalteceu a “coragem dos jovens”, que avisaram previamente as autoridades da sua intenção, e lembrou que o direito a manifestar-se de “forma pacífica” está consagrado na Constituição angolana e faz “parte do processo de democratização da sociedade”. 

 O fundamental neste momento, segundo Marques, é que o Governo de José Eduardo dos Santos compreenda que o “modo como tem gerido o país – de forma autoritária – está a chegar ao fim” e que “precisa de começar a encontrar vias para evitar esse tipo de manifestações e dialogar com as pessoas”.

 Isto para que se consiga “uma transição pacífica para um modelo verdadeiramentedemocrático em que as pessoas utilizem as eleições para escolher os seus governantes”, sustentou. 

 “O que o Governo deve fazer nesta altura é começar a criar canais de diálogo com os vários setores da sociedade, porque este processo de transformação e de fadiga contra os regimes autoritários não vai parar”, frisou Rafael Marques, salientando que Angola “também não será indiferente a isso”.  “É preciso que o Governo não precipite uma situação que eventualmente possa escapar ao seu próprio controlo e atiçar ainda mais os ânimos da população”, vincou. 

  Marques salientou igualmente a necessidade de a polícia “agir com maior transparência”, designadamente dizendo “onde estão as pessoas que foram presas, apresentar uma lista dos detidos e garantir que as suas famílias os possam visitar e que estes tenham acesso a advogados”. 

Entre 24 – segundo a polícia – e 50 pessoas – segundo fontes próximas  dos manifestantes – terão sido detidas na sequência de confrontos durante a manifestação de sábado.  Rafael Marques também aconselhou os jovens que no futuro decidam “manifestar-se pacificamente” pela democratização de Angola a terem “sempre uma lista dos participantes para evitar desaparecimentos ou fatalidades”.  

 “Estamos a lidar com um regime que tem grande capacidade em fazer desaparecer pessoas ou pelo menos escondê-las por tempo indeterminado”, frisou.  por isso “fundamental”, defendeu, que os jovens “coordenem melhor as suas ações, apelem sempre para que se faça tudo dentro da lei” e “que não dêem pretextos à polícia de arranjar justificações para a repressão”. 

 Marques tem sido um dos principais responsáveis pela denúncia de esquemas de corrupção que, alegadamente, envolvem as mais altas esferas do poder em Angola, bem como empresas e entidades estrangeiras que com ele negoceiam.

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O meu livro de cabeceira

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Filed under África, literatura

E porque hoje é dia de África

Meu Deus, ajuda-me a descobrir a alma e a força do meu rio. Para fazer as águas correr, os moinhos girar, a natureza vibrar. Para trazer ao meu leito a luz de todas as estrelas do firmamento e deixar o arco-íris mergulhar-me em toda a sua imensidão.

Sou um rio. Os rios contornam todos os obstáculos. Quero libertar a raiva de todos os anos de silêncio. Quero explodir com o vento e trazer de volta o fogo para o meu leito, hoje quero existir.

Paulina Chiziane in Niketche: uma história de poligamia

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Reconstrução angolana made in China

É um clássico angolano. Azar ser-se pobre num país escandalosamente rico.

Façamos uma cronologia breve. Inaugurou-se há quatro anos e trata-se do primeiro hospital público construído em Angola desde a independência do país em 1975. Um cicio da promessa joseeduardista de reconstrução nacional após 37 anos de guerra civil.

Em Junho de 2010, o Hospital Central de Luanda, evacuou os pacientes e o pessoal médico devido às fissuras que o edifício apresentava e ao iminente risco de colapso. Desde essa altura o hospital é um provisório. Funciona em tendas. O Hospital Público de Luanda foi construído pela China Overseas Engineering Group Co e custou oito milhões de dólares.  Dez vezes mais foi investido numa clínica privada (construída por portuguesas e paga pela Sonangol) onde se trata a elite política, petrolífera e os que singraram na vida. Azar ser-se pobre num país escandalosamente rico.

Do mesmo modo que Angola outsourced os seus assuntos de Defesa aos compañeros de Cuba, entre 1975 até 1989, agora cabe à  China reconstruir Angola e dotá-la de infraestruturas, o novo “abre-te Sésamo” da redenção nacional. Troca-se “desenvolvimento” por direitos humanos e liberdades civis. Angola não podia ter escolhido melhor professor. Desesperemos.

Neste triste país rico, que só se sobressalta quando, de repente, pousa o olhar no Facebook e descobre ( pasme-se!) que há alguns que consideram que trinta dois  anos é muito tempo,  ainda há vozes livres, sensatas e certeiras como a de Rafael Marques. Num artigo publicado no World Affairs Journal ele denuncia o novo imperialismo chinês e as promessas incumpridas do Presidente. Vozes como a dele dão-nos esperança que os dias dos nossos ditadores “confortáveis” estejam contados. E se a múmia de Lenine em Moscovo pode ser em breve enterrada, também poder dos Josés Eduardos desta vida pode esboroar-se. Como o Hospital Central de Luanda.

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Never ending story…

O longo folhetim do caso Angolagate  estará próximo de um desenlace ? O caso conhecido na justiça francesa como Angolagate recomeça na quarta-feira, em Paris, com o julgamento em recurso do empresário Pierre Falcone, acusado de tráfico de armas, branqueamento de capitais e fraude fiscal.

O empresário francês, que tem também nacionalidade angolana e que em 2003 foi nomeado pelo governo de Luanda como representante de Angola junto da UNESCO (a organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura), foi condenado a seis anos de prisão, incluindo quatro de prisão efetiva, a 27 de outubro de 2009. O tribunal de recurso de Paris reduziu, em dezembro de 2010, a pena de Pierre Falcone para dois anos e meio de prisão efetiva, mantendo-o detido.

Pierre Falcone, juntamente com o empresário de origem russa Arcadi Gaydamak, é um dos protagonistas de um processo polémico cuja instrução começou há mais de uma década e que tem, desde então, envenenado as relações entre Paris e Luanda, mesmo depois de uma visita oficial à capital angolana, em 2008, em que o presidente francês, Nicolas Sarkozy, tentou “desfazer os mal-entendidos do passado” com o chefe de Estado angolano, José Eduardo dos Santos.

Quando chegou ao Eliseu, Sarkozy elegeu como uma das prioridades da sua política externa a resolução de casos judiciais que Paris acumulou em África e que colocaram entraves à diplomacia francesa – no Djibuti, no Ruanda, na Costa do Marfim, e entre os mais importantes, o Angolagate em Angola. Nos últimos anos, as relações entre os dois países ficaram marcadas por avanços e recuos, muito ao ritmo do processo, que a justiça francesa não abandonou, apesar das pressões de Luanda nesse sentido.

O caso levou ao banco dos réus, em 2009, uma paleta de figuras do primeiro plano da política francesa, incluindo o antigo ministro do Interior, senador e candidato presidencial Charles Pasqua, o filho do antigo presidente François Mitterrand, Jean-Christophe Mitterrand, e um antigo conselheiro presidencial, Jacques Attali, além do prefeito e homem político influente Jean-Charles Marchiani e do escritor e consultor Paul-Loup Sulitzer, entre mais de 30 arguidos.

O Angolagate provocou também sucessivos episódios de crispação entre a magistratura e o governo e a presidência da República franceses, com episódios como a carta do então ministro da Defesa, Hervé Morin, aos juízes e ao Ministério Público, considerando que não havia motivo para a acusação, uma vez que as armas que estiveram na origem do processo não transitaram por território francês. No centro deste processo está o negócio de fornecimento de armas nos anos 90 ao governo do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), então em guerra com os rebeldes da UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola) de Jonas Savimbi, através da empresa Brenco International, que associava Pierre Falcone e Arcadi Gaydamak. Na acusação inicial, resumida em 468 páginas, os arguidos foram acusados de vender armas no valor de 790 milhões de dólares (mais de 570 milhões de euros) ao governo angolano, sem o aval do Ministério da Defesa francês, conforme exigido por uma lei de 1939, o que torna o negócio ilegal.

Os sessenta advogados de defesa no Angolagate, sublinhando uma posição repetida ao longo dos anos pela diplomacia angolana, contrapõem que o negócio foi legal e que o fornecimento de armas ajudou, em última análise, um governo legítimo a combater uma rebelião armada. Os contornos delicados do processo ficaram de novo evidentes, como salientou a imprensa francesa, com a substituição recente do juiz do processo, Christian Pers, presidente do Tribunal de Recurso de Paris, promovido de surpresa para uma posição superior. No seu lugar, o juiz Allain Guillou ficou com escassas semanas para se inteirar de um processo de 60 volumes.

“Este nunca será um processo normal”, escrevia esta semana o jornal francês Le Monde, a propósito dos últimos episódios de um caso sensível. “O Estado francês não quer melindrar as autoridades angolanas, das quais Pierre Falcone é próximo. É um problema estratégico, uma vez que Angola é uma das maiores reservas petrolíferas de África”.

Fonte: Lusa

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Sms de África

Os europeus gostam muito do realismo e da magia africana…. mas protegidos do calor, dos mosquitos, dos incómodos, na sua sala, com a chávena de cháquente ao lado, a fumegar. Ou então em lodges de luxo ou ilhasparadisíacas. Não os convidem, por isso, para levar as vacinas,calçar as botas de caminhante e ir enfrentar o desconforto do continente, okay? Preferem abrir, agora mesmo, o jornal, ler os títulos e dizer coitadinhos… “mas eles já estão habituados”.

Todos os dias recebemos aqui na redacção sms de África. Vêm da Guiné-Bissau, de Angola, de Moçambique. De pessoas a quem falta muita coisa, de pessoas que têm uma mão cheia de nada e na outra um telemóvel, mas para quem a comunicação é vital. E a informação. Em contraste com a apatia dos europeus, os africanos, seguem com toda a atenção a situação na Costa do Marfim, país perigosamente à beira do abismo. Desde 2002 que o país vive partido ao meio. Com o norte regido por uma rebelião criminosa e corrupta e o sul governado por corruptos e criminosos. A notícia de eleições quase que podia ser boa. Não fosse tudo o que veio e virá a seguir.

Como escreve Coetzee “a história só tem vida se lhe derem um poiso na nossa consciência”. E os sms dos nossos ouvintes são uma gigantesca lição de consciência.

PS:

1.Três Presidentes de países africanos deslocam-se hoje à Costa do Marfim para convencer Laurent Gbagbo a aceitar o resultado das eleições presidenciais e abandonar a Presidência, de modo a evitar uma guerra civil ou uma intervenção militar externa.

2.A Costa do Marfim é actualmente a principal fonte de diamantes de sangue.

 

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Como escrever acerca de África

As “Áfricas” são um puzzle complexo. Onde os conceitos não são os nossos. Com Richard Kapuschinski e com as viagens que fiz ao continente africano comecei a detestar as pessoas vêm para África e vivem na sua “Pequena Europa” e “depois regressam gabando-se de terem vivido em África, que na realidade nunca chegaram a conhecer”.  Houve poucos a escrever sobre as “Áfricas” como Kapuschinski, evitando as rotas oficiais e os palácios. No panorama português lembro-me apenas da Baia dos Tigres, de Pedro Rosa Mendes, que nos conduz numa “viagem sem bilhete, sem horário, sem transporte público, sem “vouchers” com pequeno almoço incluído, sem bebida fresca tomada na varanda à hora do sol se pôr”, pedindo as palavras emprestadas ao Adelino Gomes.

Como “a”  África não existe, ou existe apenas como conceito geográfico , vale a pena reler a sátira de Binyavanga Wainaina , Como escrever sobre África

“No seu título use sempre a palavra ‘África’ ou ‘Escuridão’ ou ‘Safari’. Subtítulos podem incluir as palavras ‘Zanzibar’, ‘Masai’, ‘Zulu’, ‘Zambezi’, ‘Congo’, ‘Nilo’, ‘Grande’, ‘Céu’, ‘Sombra’, ‘Tambor’, ‘Sol’ ou ‘Passado’. Igualmente úteis são palavras como ‘Guerrilhas’, ‘Intemporal’, ‘Primordial’ e ‘Tribal’. Note que povo significa africanos que não são negros, enquanto que o povo significa africanos negros.

(…)

No seu texto fale de África como um único país. Um país poeirento onde  está calor e existem paisagens imensas com manadas de animais, e pessoas altas e magras a morrer de fome.

(…)

E acabe o seu livro citando Mandela a falar sobre arco-íris e renascimentos. “

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Nostagia selectiva

 

Durante mais de três décadas o seu nome teve a honra duvidosa de ser associado ao pior dos excessos da África pós-colonial. Nesse tempo equívoco de confusão moral, o Nero dos tempos modernos atirava rivais aos leões e crocodilos do zoológico particular, cortava orelhas, desbaratava dinheiros públicos e privava com o presidente francês Giscard d’Estaing. Mais de uma centena de crianças estiveram na sua lista de abate. Agora foi reabilitado por decreto presidencial. This is Africa.

 Há certas vidas que são um ensaio sobre o mal. Convém acentuar a palavra mal quando se fala de “Sua Majestade Imperial Salah Eddine Ahmed Bokassa”, talvez o mais brutal ditador africano da década de 1970, ao qual só se poderia comparar o ugandês Idi Amin Dada.

O “imperador” foi agora “reabilitado em todos os seus direitos” pelo actual Presidente da República Centro-Africana, François Bozizé. Porque as pessoas não suportam a realidade e porque o país se encheu de uma legião de miseráveis que aprenderam a viver destituídos, Bozisé lava a impiedade de Bokassa com a pincelada da nostalgia selectiva.  

Para celebrar os cinquenta nos da independência da antiga colónia francesa do Ubangui-Chari, hoje República Centro-Africana, o presidente assinou um decreto onde se afirma que Bokassa é “um filho da nação, reconhecido por todos como um grande construtor”. François Bozizé, que foi ajudante de campo do “imperador”, afirmou que “ele construiu o país, mas nós destruímos o que ele construiu”. Indo ainda mais longe o presidente salientou que Bokassa  “fez muito pela humanidade, ao participar ao lado da França na guerra do Vietname, de 1950 a 1953”.

A obscenidade pode assumir muitas formas. A reabilitação de Bokassa é uma delas.

 Quem se interesse por estas coisas pode ler mais aqui

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Próxima estação

Gosto de estações de comboios. De malas revelando pedaços da sua vida. De encontros, reencontros e adeuses. A linha de comboio une as pontas à história. Ou desata-as. Pelo meio atravessa, invisível, o mundo interior dos que partem e dos que ficam.

Apaixonei-me em Maputo. Por um edíficio. A centenária estação dos Caminhos de Ferro de Moçambique  desenhada por Eiffel. É um sítío a visitar. ilimitadamente. No ano passado a  “Newsweek”, considerou-a como a mais bela de toda a África e a sétima numa lista mundial que compreende nove estações ferroviárias.

Hoje jantei na estação, num restaurante cosmopolita e improvável, o Kampfumo . Camarões fritos e uma Laurentina. Uhmm. Boas surpresas me tem reservado Maputo.

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As capulanas falam

  À procura de capulanas em Maputo. Não na Casa Elefante – sobre ela há pouco a dizer, é “apenas” a mais bela loja de tecidos africanos que conheço – mas nas ruas da cidade. E vejo muitas, num sortido tutti frutti de cores e “estórias”. Sim “estórias” porque as capulanas falam. São vida, amor, ciúmes, sexo. São sobretudo mulher. O modo de  amarrar a capulana ou o lenço revelam  se a mulher é do Sul, do Centro ou do Norte, se é da costa ou do interior, se está noiva, se é casada, se é divorciada, se é viúva…

Não há mulher em Moçambique que não use esse pedaço de tecido de algodão. Para  vestir, para belecar ( amarrar às costas os bébes, nesse caso a capulana  tem o nome de ntehe)  como  cortina ou toalha , como saco ou trouxa. Na vida de uma mulher moçambicana, todos os momentos importantes -   o lobolo, o luto, a prática de medicina tradicional – têm a capulana como compasso. 

“Guardadas nos baús, as capulanas são o símbolo da riqueza que uma mulher possui. Foram-lhe oferecidas pelo homem que as cortejou, o marido que as amou, o filho quando regressou das minas do Transvaal, o genro que lhe quer a filha. A dona não as usa, guarda-as, entesoura-as. Só uma ocasião muito especial as fará sair à luz do dia. Mas podem ser oferecidas como presente, à filha, à futura nora, à neta no seu casamento. E quando a dona morrer elas passarão como herança para as descendentes suficientemente afortunadas para serem contempladas com elas. Mas a avó, em dia de boa disposição, pode chamar a neta para lhe mostrar as capulanas guardadas e falar-lhe do passado. A capulana, aqui, é documento histórico”.*

Mas, também é futuro. Esta semana foi lançada em Maputo uma nova capulana. Uma capulana educativa  para transmitir informação relativa à prevenção da malária. Cinco mensagens foram escritas no tecido:, desde um  apelo à pulverização até ao conselho de dormir debaixo de uma rede impregnada com insecticida.

 

*Texto extraído do livro Capulanas & Lenços, publicado pela Missanga

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Camarada Bob

Há aqui qualquer coisa que não bate certo.

Num dia o senhor das oportunidades perdidas passeia-se por Hong Kong e faz compras de milionário. Alguns dias depois põe os galões empoeirados de libertador e herói da independência e é recebido com deferência pelos líderes da SADC, numa reunião inútil destinada a “analisar” a situação do Zimbabué e a “evolução” da vida política. Como se houvesse vida política no Zimbabué para além do “camarada Bob”.

Ainda sob efeito do jetlag passei a noite de ontem a ler Our Votes, our guns: Robert Mugabe and the Tragedy of Zimbabwe. Uma acutilante narrativa da carreira política do déspota africano. É um desfilar de atrocidades, corrupção, nepotismo, terror, massacres e opulência da elite ligada ao ZANU-PF. Este livro não será certamente a última palavra sobre o tirano, mas é uma boa introdução. Introdução que põe também a nu o drama da comunidade internacional.

O caos no antigo celeiro de África mostra como os países ocidentais não sabem lidar com as crises humanitárias ou com conflitos nas suas antigas colónias.

Só quando um conflito étnico atinge proporções bíblicas ou um déspota pós-independência se diverte a assassinar parte da população nos seus gabinetes assépticos a comunidade internacional reage em três fases: “condena” os acontecimentos, “exerce pressão” e “coordena os esforços no sentido de se encontrar uma solução para crise”. Quando nada funciona impõem-se “sanções económicas”. Depois continuam a assobiar para o lado de consciência tranquila, dispostos a nada mais fazer. Apetece dizer: meus senhores se não querem agir – pôr ordem em situações caóticas, lutar pelos direitos liberdades e garantias do mundo dito “civilizado” – então deixem-se de levantar o dedo, de superioridades morais e de hipocrisias acerca do comportamento dos governantes doutros países. Não há paciência para o politicamente correcto!

 África (não todo o continente é certo) precisa desesperadamente de grandes homens e grandes chefes, lá e cá, mas a amostra que temos é desoladora.

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Dia mundial da liberdade de imprensa

 Desde o ínicio do ano foram mortos 9 jornalistas.168 permanecem detidos assim como 120 netizens.

Neste dia mundial da Liberdade de Imprensa a ONG Repórteres sem Fronteiras, RSF, actualiza a sua lista de 40 “predadores”: dirigentes políticos, religiosos ou organizações terrorristas, criminosas ou mafiosas que têm como alvo preferencial os jornalistas.  “Poderosos, perigosos, violentos, eles estão acima da lei”, sublinha a RSF. Nada mais nada menos que 17 chefes de Estado e numerosos chefes de Governo figuram na lista. Entre eles os “susppeitos do costume” : líderes da China, da Coreia do Norte, do Zimbabwe e de Cuba.

Outro dos “predadores” denunciados pela RSF é o Presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Nguema, que aspira ver o seu país tornar-se  membro pleno da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), onde  já tem o estatuto de observador.

Para ler a lista toda passe pela RSF em www.rsf.org

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Gerontocracia africana

Em África há 200 milhões de africanos entre os 15 e os 24 anos. A maioria da  população é jovem no continente, mas olhe-se para os seus políticos. Robert Mugabe (86 anos), Omar al-Bashir (66 anos) , Hosni Mubarak (82 anos), José Eduardo dos Santos (68 anos). 

 Os heróis  libertadores de outrora , são os colonialistas de hoje. Colonializam pelo terror, matam pela fome, silenciam opositores, servem-se  obscenamente dos seus países  e deixam cair do banquete as migalhas. Quando deixam.

A gerontocracia africana  saturada de riqueza como uma esponja cheia de àgua asfixia o continente. O rasgão na tela da paisagem da África de Hollywood permite-nos espreitar para dentro de um continente e o que vemos causa repugnância.

África não é um continente para jovens.

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O veneno da rosa

 

As rosas de São Valentim são um lago no Quénia.

A África é o principal fornecedor de rosas da Europa. Só a Holanda compra 95 por cento de rosas africanas, metade das quais oriundas do Quénia. Flores que asseguram emprego a um preço elevado: a destruição do lago Naivasha.

A floricultura é a principal indústria de Naivasha; quase meio milhão de pessoas vive agora próximo das margens do lago, devido ao comércio de flores. O valor natural de Naivasha fez com que fosse declarado com um site “Ramsar”, um reconhecimento internacional da sua biodiversidade, ignorado pelos floricultores. O uso intensivo de pesticidas envenena a água e a irrigação das rosas está secar o lago. Se nada for feito daqui a poucos anos do lago imponente resta um charco pestilento.

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A “pureza africana” e a pena de morte para os homossexuais

 

Meninos ugandeses

O mundo está a desfazer-se, onde não convêm que se consuma mais. Do Iraque ao Afeganistão, do Paquistão aos territórios palestinianos. Casos graves discutidos nos jornais, nos blogues e pelos especialistas.  Já o continente africano parece ter apenas uma mão cheia de países: o Sudão, o Zimbabué e a Somália, África do Sul e Angola. Ponto final parágrafo.

África constrói-se de extraordinárias personagens, de monstros, de habitantes nos limites da vida e de heróis insondados.

Falemos do Uganda. É um dos piores países para se ser criança. Numa guerra longa de duas décadas mais de 30 mil crianças foram usadas como soldados ou escravas sexuais. Forçadas a matar os pais ou outros meninos como eles. Infâncias raptadas.

As atrocidades no Uganda não se ficam pelas crianças. Advogando a espada da “pureza africana”, os moralistas de serviço – tantas vezes com poder, tantas vezes no poder – pedem a pena de morte para gays e lésbicas. E em breve, muito em breve, um infame projecto de lei poderá passar a letra de lei. Citando Pedro Rosa Mendes “ a janela está entaipada e o desespero é estanque”.

 http://www.dw-world.de/dw/0,,12273,00.html

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