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Imigrantes

Escrevo no avião rumo a Lisboa. Acabei a leitura da imprensa e detive-me num artigo sobre o fluxo de imigrantes para a Europa.
Ano após ano a agência de estatísticas europeia dá conta que os europeus não têm filhos porque não podem ou porque não querem e que se nada acontecer nos extinguimos sem apelo nem agravo em poucas gerações. Quase sempre quando se fala neste tema o politicamente correcto obriga a que se diga “precisamos de imigrantes”. O que não se diz ou pouco se fala é na forma como a fortaleza Europa fecha as portas aos que não lhe servem (leia-se bem qualificado, ateu ou cristão, “ocidental”). A comoção pelos que vão deixando a vida nesse cemitério em que converteu o Mediterrâneo até será na maioria dos casos genuína, porém não passa de lágrimas fugazes que duram o tempo de uma reportagem na imprensa. Demasiados não perdem tempo a pensar em quem são estas pessoas a quem recusamos entrada. Algum jornal publicou as histórias individuais dos sírios que embarcaram no voo da TAP de Bissau para Lisboa? Saber-lhes a história e não apenas a proveniência torna-os numa coisa de mais palpável. Gente sem futuro assinalável e passado distante, doloroso.
Olha-se para o exército de desesperados que se atropelam nos muros e sebes de arame que separam África da Europa como pobres, sem instrução, sem nada para oferecer ou como prostitutas nigerianas (tantas nas ruas e bares portugueses), pequenos criminosos, traficantes de todos os males. 
Quando olho para essas pessoas – a quem não tem a oportunidade de as olhar no branco dos olhos recomendo o livro do Paulo Moura, “Passaporte para o Céu” – vejo-as como pessoas que muitas vezes não tendo nada de seu, possuem algo de que a egoísta Europa desesperadamente precisa: uma fúria de viver e a juventude.
Todos temos uma noite escura, mas 
alguém  imagina o que é viver em quarteirões inteiros arrasados, com paredes, onde as há, pontilhadas por furos de balas? Ou coberto por um plástico azul da ONU esticado numa armação de paus ? Em tendas encharcadas, sujas de lama, rotas? Ter apenas insectos para comer porque os animais domésticos e o gado há muito foram consumidos? 
 
Fogem eles para se salvar? Talvez, mas não apenas, eles também vêm para nos salvar a nós. Recordam-se do empregado no supermercado judaico de Paris ?
Quantas sepulturas nas ondas nas ondas serão ainda precisas? 
Foi no Promontório de Sagres que um príncipe português visionário sentiu o apelo nómada das águas e enviou caravelas com Cruz de Cristo arvorada nas velas para unir continentes. A densidade do tempo faz-nos responsáveis pelos invisíveis, os cuja vida anónima jaz no enrolar e desenrolar das ondas. “E assim se sabe que sempre que se fala do espírito do Príncipe”, diz a Lídia Jorge, “seus cálculos astronómicos e seu Mapa-múndi de Fra Mauro, sempre se terá de falar daquele outro infante múltiplo, sem retrato, que habita na sombra do seu silêncio e se chama Humanidade”.

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Galdérias

 

O século XXI nasceu um puritano disfarçado de tolerante, dizia a Inês Pedrosa. Eu acrescento cada vez mais puritano e cada menos tolerante. Olhe-se para o Uganda. A bem da virtude, da moral ou da integridade – a lista de prerrogativas é extensa e sempre declinada no masculino – dilaceram-se a dignidade, cometem-se crimes contra a autodeterminação individual. O país prepara-se para regressar à era do ditador Idi Amin e proibir o uso de mini-saias.

“Qualquer peça de vestuário que exponha partes íntimas do corpo humano, em particular zonas eróticas, são proibidas. Qualquer peça de vestuário acima do joelho será proibida. Qualquer mulher que use mini-saia será presa”, explica Simon Lokodo, o ministro da Ética e Integridade ugandês. O mesmo que considera que as mulheres vítimas de violação são parcialmente culpadas por serem “provocadoras”. Esta inaceitável diminuição da mulher – porque é que a liberdade da mulher incomoda tanto? E porque é que a sua sexualidade assusta? – assenta num pensamento monolítico: se a mulher não é uma santa, e aparentemente para estas luminárias à mulher de César não basta sê-lo há que parecê-lo, inevitavelmente será uma galdéria, ou uma puta, pardon my french.

Não há condescendência possível para com este pensamento castrador. Se o ministro uganiano está tão preocupado com a imoralidade lance uma cruzada contra a corrupção e a pobreza. Essas sim são imorais.

A primeira coisa a ensinar-se a uma criança, uma espécie de bê-a-bá da educação, deveria ser o respeito. É a rocha sobre a qual se constrói a tolerância e o amor pelo outro. Só o respeito permite entender que o corpo da mulher vale tanto como o do homem. Ah e ambos nasceram nus.

 

PS- Quando leio projectos de lei como estes apetece-me mandar os seus autores “arranjar uma vida”. Ou então ter bom sexo. Parte do problema deve passar por aí, creio.

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E a banqueira mais poderosa de África é…

Chama-se Maria Ramos, tem 53 anos, nasceu em Lisboa, e é filha de emigrantes portugueses na África do Sul. Esta semana, a mulher que ajudou a escrever a constituição pós-apartheid e integrou o o governo de Nelson Mandela, foi destaque em inúmeras publicações alemãs pelo facto passar chefiar o maior banco do continente africano, o Barclays Africa Limited. Isto apesar de ser mulher, branca e de “origem estrangeira”. Uma lição enorme para muitas empresas europeias.

 

 

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A saudade com mapa e bússola

Recolho-me como um poente. Pelos vidros entra o ruído da noite. Nos pés a intimidade com o chão.Haverá conforto maior ao final do dia do que pés despidos no chão? Magoa-me a saudade que ainda não sinto, mas que virá com bússola e mapa. Faço a mala. Aconchego nela o vestido tradicional namibiano feito à numa aldeia pela mãe da directora da NBC Oshiwambo. Um pedaço de pano riscado pródigo de carinho. “Meme Helen, a minha mãe agradece e abençoa-a”. Onghulungubu hai pwa makiya (os velhos tem sempre alguma coisa sábia a dizer). Algures no Kalahari uma anciã africana, que não me conhece, pensou em mim. Haverá razão maior para amar este esta terra de pastores?

Tenho sempre dificuldades em dizer adeus. Foram dias intensos em Oshakati. Muito trabalho na NBC, muito calor. Acompanhei reportagens duras, retratos de vidas de excepção e donos de coisa alguma. Horas passadas em cabanas de palha e cubos de zinco. Violência, morte, destituição. Corrigi a forma de contar essas histórias, num exercício delicado entre a minha sensibilidade de jornalista europeia e a cultura nativa.

Como a realidade ultrapassa sempre a melhor ficção fui conduzida todos estes dias pelo filho de uma rainha, pai de de trinta e cincos filhos. E África não seria África se não houvesse aqueles momentos de alegria uterina, aqueles sorrisos, aqueles picasr de olhos involuntários e esporádicos cada vez que me deparo com uma das “invencionices” africanas. E os abraços que trocam o mundo de fora, pelo mundo de dentro. Haverá melhor motivo para voltar?

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Ajuda ao desenvolvimento Sul-Norte

As “Áfricas” são um puzzle complexo. Onde os conceitos não são os nossos. Com Richard Kapuschinski e com as viagens que fiz ao continente africano comecei a detestar as pessoas vêm para África e vivem na sua “Pequena Europa” e “depois regressam gabando-se de terem vivido em África, que na realidade nunca chegaram a conhecer”.  Houve poucos a escrever sobre as “Áfricas” como Kapuschinski, evitando as rotas oficiais e os palácios. No panorama português lembro-me apenas da Baia dos Tigres, de Pedro Rosa Mendes, que nos conduz numa ”viagem sem bilhete, sem horário, sem transporte público, sem “vouchers” com pequeno almoço incluído, sem bebida fresca tomada na varanda à hora do sol se pôr”, pedindo as palavras emprestadas ao Adelino Gomes.

Como “a”  África não existe, ou existe apenas como conceito geográfico , vale a pena ver esta sátira  (de 2012) sobre a ajuda humanitária europeia. Numa palavra: genial.

PS- O que escrevi acima é um copy-paste de um post meu de 2010. Mantém-se actual.

Obrigada José Milhazes pelo vídeo.

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Oshakati

Teimo em não conseguir andar muito tempo por este Norte sem devolver-me ao silêncio do deserto, ou aos murmúrios da noite africana.  Teimo em continuar a dar, sempre que possível, um salto ao Sul. A mala está quase feita. E entrei em modo  de contagem decrescente. De um amigo, conselheiro bem intencionado e profundo conhecedor de África, recebi um email com algumas recomendações antes da partida para  Oshakati, no norte da Namíbia:

  – “se te oferecerem vermes Mopani (umas lagartas gordas, maiores do que um dedo indicador, que fazem parte da alimentação tradicional da Àfrica do Sul, Botswana, Zimbabué e Namíbia, e habitualmente são servidas estufadas) não recuses. Pensa neles como escargots, só que sem manteiga de alho”.

– “o preço da cerveja varia consoante ela estar fria ou não”. A cerveja mais bebida em Oshakati é a angolana Cuca (a cidade teve um papel importante na guerra civil angolana), de tal forma que os “bares” informais  são conhecidos como “Cuca Shops”. O real faz-se de encontros e convergências a pedir que se decifrem continuidades e contiguidades.

– “burros, cabras e gado fazem parte do ‘mobiliário urbano’. Trava.”

– “uma ‘pequena distância’ significa uma viagem de carro com um minímo de três horas”.

Ai que saudades do firmamento africano. Até já.

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Helena Ferro de Gouveia:

A propósito deste artigohttps://apps.facebook.com/theguardian/commentisfree/2012/jun/03/how-not-to-write-about-africa, lembrei-me de algo que já aqui tinha publicado.

Originally posted on Domadora de Camaleões :

As “Áfricas” são um puzzle complexo. Onde os conceitos não são os nossos. Com Richard Kapuschinski e com as viagens que fiz ao continente africano comecei a detestar as pessoas vêm para África e vivem na sua “Pequena Europa” e “depois regressam gabando-se de terem vivido em África, que na realidade nunca chegaram a conhecer”.  Houve poucos a escrever sobre as “Áfricas” como Kapuschinski, evitando as rotas oficiais e os palácios. No panorama português lembro-me apenas da Baia dos Tigres, de Pedro Rosa Mendes, que nos conduz numa “viagem sem bilhete, sem horário, sem transporte público, sem “vouchers” com pequeno almoço incluído, sem bebida fresca tomada na varanda à hora do sol se pôr”, pedindo as palavras emprestadas ao Adelino Gomes.

Como “a”  África não existe, ou existe apenas como conceito geográfico , vale a pena reler a sátira de Binyavanga Wainaina , Como escrever sobre África

“No seu título use sempre…

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