Tag Archives: Àfrica

Galdérias

 

O século XXI nasceu um puritano disfarçado de tolerante, dizia a Inês Pedrosa. Eu acrescento cada vez mais puritano e cada menos tolerante. Olhe-se para o Uganda. A bem da virtude, da moral ou da integridade – a lista de prerrogativas é extensa e sempre declinada no masculino – dilaceram-se a dignidade, cometem-se crimes contra a autodeterminação individual. O país prepara-se para regressar à era do ditador Idi Amin e proibir o uso de mini-saias.

“Qualquer peça de vestuário que exponha partes íntimas do corpo humano, em particular zonas eróticas, são proibidas. Qualquer peça de vestuário acima do joelho será proibida. Qualquer mulher que use mini-saia será presa”, explica Simon Lokodo, o ministro da Ética e Integridade ugandês. O mesmo que considera que as mulheres vítimas de violação são parcialmente culpadas por serem “provocadoras”. Esta inaceitável diminuição da mulher – porque é que a liberdade da mulher incomoda tanto? E porque é que a sua sexualidade assusta? – assenta num pensamento monolítico: se a mulher não é uma santa, e aparentemente para estas luminárias à mulher de César não basta sê-lo há que parecê-lo, inevitavelmente será uma galdéria, ou uma puta, pardon my french.

Não há condescendência possível para com este pensamento castrador. Se o ministro uganiano está tão preocupado com a imoralidade lance uma cruzada contra a corrupção e a pobreza. Essas sim são imorais.

A primeira coisa a ensinar-se a uma criança, uma espécie de bê-a-bá da educação, deveria ser o respeito. É a rocha sobre a qual se constrói a tolerância e o amor pelo outro. Só o respeito permite entender que o corpo da mulher vale tanto como o do homem. Ah e ambos nasceram nus.

 

PS- Quando leio projectos de lei como estes apetece-me mandar os seus autores “arranjar uma vida”. Ou então ter bom sexo. Parte do problema deve passar por aí, creio.

1 Comentário

Filed under Uganda

E a banqueira mais poderosa de África é…

Chama-se Maria Ramos, tem 53 anos, nasceu em Lisboa, e é filha de emigrantes portugueses na África do Sul. Esta semana, a mulher que ajudou a escrever a constituição pós-apartheid e integrou o o governo de Nelson Mandela, foi destaque em inúmeras publicações alemãs pelo facto passar chefiar o maior banco do continente africano, o Barclays Africa Limited. Isto apesar de ser mulher, branca e de “origem estrangeira”. Uma lição enorme para muitas empresas europeias.

 

 

Deixe o seu comentário

Filed under África do Sul

A saudade com mapa e bússola

Recolho-me como um poente. Pelos vidros entra o ruído da noite. Nos pés a intimidade com o chão.Haverá conforto maior ao final do dia do que pés despidos no chão? Magoa-me a saudade que ainda não sinto, mas que virá com bússola e mapa. Faço a mala. Aconchego nela o vestido tradicional namibiano feito à numa aldeia pela mãe da directora da NBC Oshiwambo. Um pedaço de pano riscado pródigo de carinho. “Meme Helen, a minha mãe agradece e abençoa-a”. Onghulungubu hai pwa makiya (os velhos tem sempre alguma coisa sábia a dizer). Algures no Kalahari uma anciã africana, que não me conhece, pensou em mim. Haverá razão maior para amar este esta terra de pastores?

Tenho sempre dificuldades em dizer adeus. Foram dias intensos em Oshakati. Muito trabalho na NBC, muito calor. Acompanhei reportagens duras, retratos de vidas de excepção e donos de coisa alguma. Horas passadas em cabanas de palha e cubos de zinco. Violência, morte, destituição. Corrigi a forma de contar essas histórias, num exercício delicado entre a minha sensibilidade de jornalista europeia e a cultura nativa.

Como a realidade ultrapassa sempre a melhor ficção fui conduzida todos estes dias pelo filho de uma rainha, pai de de trinta e cincos filhos. E África não seria África se não houvesse aqueles momentos de alegria uterina, aqueles sorrisos, aqueles picasr de olhos involuntários e esporádicos cada vez que me deparo com uma das “invencionices” africanas. E os abraços que trocam o mundo de fora, pelo mundo de dentro. Haverá melhor motivo para voltar?

2 Comentários

Filed under África, Namíbia

Ajuda ao desenvolvimento Sul-Norte

As “Áfricas” são um puzzle complexo. Onde os conceitos não são os nossos. Com Richard Kapuschinski e com as viagens que fiz ao continente africano comecei a detestar as pessoas vêm para África e vivem na sua “Pequena Europa” e “depois regressam gabando-se de terem vivido em África, que na realidade nunca chegaram a conhecer”.  Houve poucos a escrever sobre as “Áfricas” como Kapuschinski, evitando as rotas oficiais e os palácios. No panorama português lembro-me apenas da Baia dos Tigres, de Pedro Rosa Mendes, que nos conduz numa ”viagem sem bilhete, sem horário, sem transporte público, sem “vouchers” com pequeno almoço incluído, sem bebida fresca tomada na varanda à hora do sol se pôr”, pedindo as palavras emprestadas ao Adelino Gomes.

Como “a”  África não existe, ou existe apenas como conceito geográfico , vale a pena ver esta sátira  (de 2012) sobre a ajuda humanitária europeia. Numa palavra: genial.

PS- O que escrevi acima é um copy-paste de um post meu de 2010. Mantém-se actual.

Obrigada José Milhazes pelo vídeo.

Deixe o seu comentário

Filed under África

Oshakati

Teimo em não conseguir andar muito tempo por este Norte sem devolver-me ao silêncio do deserto, ou aos murmúrios da noite africana.  Teimo em continuar a dar, sempre que possível, um salto ao Sul. A mala está quase feita. E entrei em modo  de contagem decrescente. De um amigo, conselheiro bem intencionado e profundo conhecedor de África, recebi um email com algumas recomendações antes da partida para  Oshakati, no norte da Namíbia:

  – “se te oferecerem vermes Mopani (umas lagartas gordas, maiores do que um dedo indicador, que fazem parte da alimentação tradicional da Àfrica do Sul, Botswana, Zimbabué e Namíbia, e habitualmente são servidas estufadas) não recuses. Pensa neles como escargots, só que sem manteiga de alho”.

- “o preço da cerveja varia consoante ela estar fria ou não”. A cerveja mais bebida em Oshakati é a angolana Cuca (a cidade teve um papel importante na guerra civil angolana), de tal forma que os “bares” informais  são conhecidos como “Cuca Shops”. O real faz-se de encontros e convergências a pedir que se decifrem continuidades e contiguidades.

- “burros, cabras e gado fazem parte do ‘mobiliário urbano’. Trava.”

- “uma ‘pequena distância’ significa uma viagem de carro com um minímo de três horas”.

Ai que saudades do firmamento africano. Até já.

4 Comentários

Filed under África, Namíbia

Helena Ferro de Gouveia:

A propósito deste artigohttps://apps.facebook.com/theguardian/commentisfree/2012/jun/03/how-not-to-write-about-africa, lembrei-me de algo que já aqui tinha publicado.

Originally posted on Domadora de Camaleões :

As “Áfricas” são um puzzle complexo. Onde os conceitos não são os nossos. Com Richard Kapuschinski e com as viagens que fiz ao continente africano comecei a detestar as pessoas vêm para África e vivem na sua “Pequena Europa” e “depois regressam gabando-se de terem vivido em África, que na realidade nunca chegaram a conhecer”.  Houve poucos a escrever sobre as “Áfricas” como Kapuschinski, evitando as rotas oficiais e os palácios. No panorama português lembro-me apenas da Baia dos Tigres, de Pedro Rosa Mendes, que nos conduz numa “viagem sem bilhete, sem horário, sem transporte público, sem “vouchers” com pequeno almoço incluído, sem bebida fresca tomada na varanda à hora do sol se pôr”, pedindo as palavras emprestadas ao Adelino Gomes.

Como “a”  África não existe, ou existe apenas como conceito geográfico , vale a pena reler a sátira de Binyavanga Wainaina , Como escrever sobre África

“No seu título use sempre…

View original mais 99 palavras

Deixe o seu comentário

Filed under África, Uncategorized

E que tal um banho sem água?

Já não é um um segredo bem guardado. Chama-se “Drybath”e tem tanto de insólito como de inovador. Trata-se de um gel que  permite que qualquer pessoa faça a sua higiene pessoal sem recorrer a uma pinga de água. O produto é aplicado na pele, eliminando, segundo afirma o seu criador a quase a totalidade das bactérias nela existentes.

O gel foi desenvolvido pelo sul-africano Ludwick Marishane, de 22 anos, e a ideia já lhe valeu o prémio de Estudante Empreendedor do Ano (2011) da Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul. O objectivo? Salvar vidas em locais onde a água escasseia.

Só em África existem mais de 450 milhões de pessoas sem acesso à água ou a condições básicas de saneamento. O gel resulta de uma mistura de um biocida, bioflavonóides e hidratantes e a aplicação deve ser feita sobre a pele – à semelhança de um creme comum – sendo que a fórmula antibacteriana promete eliminar 99,9 por cento das bactérias. Além da eliminar bactérias, o gel hidrata e elimina os maus-cheiros.

6 Comentários

Filed under África, Viagem