Dormir

Subitamente os olhos bem abertos e a cabeça clara e lúcida. Olho para o despertador: são três horas da manhã. As luzinhas verdes do Messenger já se apagaram e não posso telefonar a ninguém que nos me maldiga. Acendo a luz. Que tal ler ? Ver uma série na Netflix? Escrever sobre a insónia ? … More Dormir

Da solidão

Há uns anos fiz um retiro espiritual de uns dias num mosteiro alemão. A principal das regras era o silêncio. Quebrado apenas durante as espartanas refeições. Todas as orações eram feitas em silêncio. Abandonei tudo o que ligava ao mundo exterior, nem a leitura era permitida. Permitiam-se longas caminhadas pela montanha onde ficava o mosteiro … More Da solidão

Da série mulheres extraordinárias ( e ainda pouco reconhecidas):

Os nazis consideravam Virginia Hall o “mais perigoso de todos os espiões aliados”, mas a história da “Dama Manca” ainda é amplamente desconhecida. Hall passou quase toda a guerra na França, primeiro como espia do recém-formado SOE da Grã-Bretanha e depois para o Departamento de Operações Especiais (OSS) dos EUA. Nem a sua perna protética … More Da série mulheres extraordinárias ( e ainda pouco reconhecidas):

Ninguém é uma ilha

Em Lost Connections, Johann Hari escreve sobre as suas décadas de trabalho nas áreas do  trauma e da saúde mental e explica por que acredita que na origem de  quase tudo  o que sofremos está uma conexão cortada que nunca descobrimos como reparar. A dado momento, Hari refere-se a uma clínica de obesidade, onde os … More Ninguém é uma ilha

Rosas da Síria

Vou contar uma história. Provei pela primeira vez água de rosas num jantar tradicional em casa de um casal iraniano. Bebi-a num copo belíssimo e sentada, com modéstia, sobre um tapete. Na ingenuidade dos vinte anos não me apercebi na altura do que continha daquele gesto e estranhei-lhe o gosto. Nunca vi o rosto da … More Rosas da Síria

Caleidoscópio

Há dias assim. Sufocantes. Diante de mim uma evidência. Já gastei talvez três quartos do tempo máximo que me foi reservado na Terra, talvez mais. Não tenho outro remédio senão admitir a minha fragilidade, o meu fracasso. Queria ter feito mais, melhor. Faltam-me as forças. Tentei como escreveu maravilhosamente Eliane Brum, a propósito de ser … More Caleidoscópio

Migrantes

Quando olham para esta fotografia o que veem ? Eu vejo a minha neta mais nova, que não herdou os olhos castanhos da avó, nem os verdes da mãe, herdou os azuis do pai. Vejo um bebé lindo, de catálogo, pele clara, cabelo cor de manteiga açoreana, olhos cor de mar das Caraíbas. E se … More Migrantes

Dia D. Dia dela.

160 000 homens desembarcaram na praia de Omaha. E apenas uma mulher. Marta Gellhorn. Dois terços dos militares morreu, um terço sobreviveu. Um terço e Gellhorn. Antes de Svetlana Aleksiévitch ganhar um Nobel a escrever sobre a guerra no feminino, já Gellhorn o havia feito em “A Face da Guerra” e nas melhores reportagens de … More Dia D. Dia dela.

A mulher transparente

Olhar para ver é um acto diário de resistência. Contar a violência pelos olhos da vítima é um exercício brutal, mostrar uma imagem inteira dessa pessoa e com isso aproximá-la do leitor para que não possa ser ignorada e se torne inescapável é fazer um delicado trapezismo na corda das emoções que a violência doméstica … More A mulher transparente

Deuses

Na berma de muitas ruas ou estradas no Uganda há “plant nurseries”, vendem-se mudas de flores e árvores. São assim como um jardim do Éden em miniatura (quando penso em paraíso e nas suas árvores, elas são sempre tropicais, ao pé de uma palmeira a macieira é sem jeito). Na terra fértil elas crescem rapidamente, … More Deuses

Sem Volta

O Lago Volta é o maior lago artificial do mundo, criado em 1965 quando a barragem de Akosombo foi construída. Aqui vivem 49 mil ( quarenta e nove mil ) crianças, das quais 60 por cento são escravas, números oficiais das autoridades do Gana. Não é preciso dizer que não frequentam a escola, que não … More Sem Volta

Porque se calam?

Em 2010 uma europeia viajou para um país africano desses que quase ninguém sabe localizar no mapa. Tinha como alojamento uma cabana de madeira individual, como as que existem em muitas unidades hoteleiras africanas. Diariamente era acompanhada por um motorista/segurança local porque naquela zona de fronteira os assassínios ou os raptos eram banais. A rotina … More Porque se calam?

Almas gémeas

No café ouvi alguém falar da sua “alma gémeas”. Para mim a ideia de alma gémea é uma chatura. Se procuramos alguém igual mais cedo ou mais tarde fazemos uma luta mortal. Prefiro outra expressão popular: ‘quem ama o feio, bonito lhe parece’. Eu preciso da diferença, do desafio, do contraste.

Inóspito: Falemos de refugiados

Que linha une Albert Einstein, Amilcar Cabral, Freddie Mercury, Marc Chagall, Willy Brandt e Josef Konrad ? São pessoas que escolheram resistir, decidiram viver. A linha que os une ? São refugiados. Saí de uma sala quase cheia no Chapitô, a maioria estrangeiros, turistas, alguns adolescentes. Ao espectáculo que vi não desejo acrescentar personagens, nem … More Inóspito: Falemos de refugiados

Maminhas

O Facebook pôs-me de costas viradas para a sala e com orelhas de burro durante 3 dias. O motivo ? Publiquei uma fotografia da Madonna com os seios desnudos. Pecado capital no universo zuckbergiano onde todos os seres não possuem mamilos, essa perversão, e são assexuados como os anjos. Por falar em anjos, discussões infindáveis … More Maminhas

Vintage

Estou naquela fase belíssima da vida em que já tenho um passado, deixei pegadas. Não me detenho perante a aventura da vida como uma miúda, sem saber o que escolher em frente da montra da confeitaria apreciando as formas coloridas e caprichosas que se dirigem simultaneamente a vários sentidos ( a composição do extraordinário prazer … More Vintage

Porto

Temos que vigiar constantemente os amores. Segura o teu amor entre os dedos é um verso de Sophia que me ocorreu há pouco. Tirei esta fotografia depois de ficar a contemplar o desvelo com que a velha senhora, confundindo os seus cabelos com os cabelos do vento, prendia a bandeira do FCP impedindo que o … More Porto

Pai

Tiveste várias mortes. A da emboscada na Guiné de que nunca recuperarias, a do Stress pós-traumático, que te roubou as palavras, e a definitiva na batalha que perdeste contra o cancro. Não há nada mais difícil e generoso que partilhar o silêncio, território de salvação ou desamparo, ensinaste-me. E olhar para além do simples ver, … More Pai