Rosas da Síria

Vou contar uma história. Provei pela primeira vez água de rosas num jantar tradicional em casa de um casal iraniano. Bebi-a num copo belíssimo e sentada, com modéstia, sobre um tapete. Na ingenuidade dos vinte anos não me apercebi na altura do que continha daquele gesto e estranhei-lhe o gosto. Nunca vi o rosto da … More Rosas da Síria

24 horas, 3 países e a teoria dos seis graus de separação. 

Coloquei na mala no último instante um romance comprado há muito e que quedava por abrir. O parágrafo inicial contém a frase maravilhosa de Elias Canetti, “as interruptas idas e vindas do tigre diante dos barrotes da jaula para não que se lhe escape o único e brevíssimo instante da salvação”. De alguma maneira todos … More 24 horas, 3 países e a teoria dos seis graus de separação. 

O anel devolvido 

Ao amanhecer cessou o vento e o Atlântico tingia-se de reluzente azul prata. Pouso nos seixos o olhar. Deslumbro-me com a leve eternidade da espuma. Do inclemente embate da massa de água contra as rochas resulta o rendilhado perfeito da espuma. As pequenas e as grandes felicidades são assim. Únicas, poéticas e fugazes. E pelas quais … More O anel devolvido 

Da morte 

A vida é como navegar. Até se pode saber de cor as constelações e tirar azimutes, conhecer os ventos favoráveis, as correntes profundas, o recorte da costa, porém o mar esse permanece para sempre imperscrutável, imprevisível. Tudo o que nos resta como marinheiros é adaptar-nos e tentar tornar a viagem inesquecível. Ou afogar-nos. Nem sempre … More Da morte 

O cheiro 

Lembram-se da madalena molhada no chá de Proust? E da associação de memórias que o prazer daquele momento desencadeou?  Todos nós temos o nosso “momento madalena” em que um dos nossos sentidos nos transporta a algum lugar. De todos eles o que maior poder de evocação tem é o olfacto.  Os estudos demonstram que as … More O cheiro 

Perguntas sem resposta ou a questão do diminutivo

Quando eu era muito pequena tratavam-me por um diminutivo. E esse nome tinha a suavidade da seda, dava-me uma grande tranquilidade e protegia-me das dores do mundo. “Não é a casa que nos abriga/ nós é que abrigamos a casa,/pois é a ternura que sustenta o tecto”. Como a vida não é um poema de … More Perguntas sem resposta ou a questão do diminutivo

Advertências sobre (os escrúpulos da) a fantasia*

Quem nunca sentiu a necessidade de dar sentido à própria vida, mesmo que temporariamente, ou revivê-la? Sou depositária de uma história que me pediram para escrever. Sem julgamentos morais. Os envolvidos traziam consigo a urgência de narrar, de a projectar para além do tempo, do espaço, da precariedade do encontro, procurando habitar o presente absoluto. … More Advertências sobre (os escrúpulos da) a fantasia*