Caixotes

Aos pouco mais de trinta já tinha vivido mais do que a maioria de nós numa vida inteira. Já tinha conhecido a violência e a fome na cidade baiana onde nasceu, que de redentora só carrega o nome, Salvador. Já desejou não ser preto e emigrou para Lisboa. Foi enganado, roubado, dormiu meses a fio … More Caixotes

O silêncio cúmplice dos não-inocentes

Apesar de ser uma ideia razoavelmente consensual afirmar que a violência sobre mulheres ou o abuso sexual são inaceitáveis, responsabilizar homens violentos ou assediadores é para muitos ir longe demais. Por estes dias, o #MeToo chegou finalmentea Portugal, onde tudo chega atrasado, e permitam-me ter a esperança de que tenha chegado para estilhaçar a omertà … More O silêncio cúmplice dos não-inocentes

Não se trata de reescrever a História. Trata-se, apenas, de garantir que ela não se repetirá

Em ditadura, há condecorações que pesam, e que arrastam os seus condecorados para as profundidades mais turvas da memória, escreve o jurista, professor universitário e ex-secretário de Estado Miguel Prata Roque, que conta o caso do nazi das SS Karl Schümers, responsável pelo assassínio de muitas centenas de gregos e que, apesar de todas as … More Não se trata de reescrever a História. Trata-se, apenas, de garantir que ela não se repetirá

O derrube do Padrão dos Descobrimentos e outras parvoeiras:

Um deputado socialista escreveu um bom texto de opinião sobre o iníquo voto de pesar pela morte de um “herói” de guerra. Esse texto, que subscrevo, pecava por uma parvoeira, o apelo ao derrube do Padrão dos Descobrimentos, que não subscrevo. O Padrão que tal como a intervenção no Castelo de São Jorge e alteração … More O derrube do Padrão dos Descobrimentos e outras parvoeiras:

Carta aos Exmos membros da Ordem da Sisudez

Com o Orçamento fechado e a época festiva a chegar há que redirecionar a pedinchice. Epistolemos portanto. Antes de mais peço desculpa por importunar os que andam em bolandas com conspirações galácticas, o “vírus inexistente” e os clones (como eu precisava de um, ou de dois vá), seguindo gurus licenciados em Ciências da Vida, mestrados … More Carta aos Exmos membros da Ordem da Sisudez

Passageiros clandestinos

Resignação é a mais feia palavra da língua portuguesa. É um esmagamento.Nascemos para viver contra os aniquilamentos. Vou contar uma história. Quando ela tinha 12 anos disseram-lhe: “a minha vida acabou quando tu nasceste”. A mãe morreu no parto e nunca lhe perdoaram. Aquelas palavras queimaram lá dentro, doeram mais que o descaso, as tareias … More Passageiros clandestinos

10 de Junho 2020

O QUE É AMAR UM PAÍS Agradeço ao senhor Presidente o convite para presidir à Comissão das comemorações do dia 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. Estas comemorações estavam para acontecer não só com outro formato, mas também noutro lugar, a Madeira. No poema inicial do seu livro intitulado Flash, … More 10 de Junho 2020

Auschwitz em Lisboa

Umas horas não chegam para contar como Esther sobreviveu a Auschwitz, graças a um acordeão, e actuou esta noite na Escola Alemã de Lisboa. E neste agora-aqui, com integridade, com humor, com a capacidade de dizer muito, tanto com poucas palavras. Aos 95 anos ainda tem a voz clara, enche um palco apesar de ser … More Auschwitz em Lisboa

Porto

Temos que vigiar constantemente os amores. Segura o teu amor entre os dedos é um verso de Sophia que me ocorreu há pouco. Tirei esta fotografia depois de ficar a contemplar o desvelo com que a velha senhora, confundindo os seus cabelos com os cabelos do vento, prendia a bandeira do FCP impedindo que o … More Porto

O regresso 

Era tão bom poder meter no bolso o ar da praia onde escrevo, o ar da praia quando o horizonte muda de cor, e respirá-lo pelas manhãs devagarinho. Seria parecido com as espirais ténues que continuam a sair pelos frascos de perfume vazios. Sal, pinheiros e uma quase vontade de chorar.  Quando as circunstâncias me … More O regresso 

Ser português

As minhas filhas depois de fazerem uma asneira qualquer, do género autorizar a cadela preta a sentar-se no meu sofá branco – onde é que eu estava com a cabeça?Onde? – quando confrontadas com as clássicas perguntas: “o que fizeste?” ou “o que se passou?” respondem com um invariável  e nihilista “nada”. Provavelmente noutras casas … More Ser português

A filha descartável

Esta crónica não tem a pretensão de ser imparcial, e não tem porque todos somos parte de alguma coisa, nos inscrevemos por alguma causa. Mas já lá vamos. A história do industrial milionário que andou décadas a furtar-se a reconhecer a paternidade, e quando, por fim o teste de ADN a provou, tenta deserdar a filha … More A filha descartável

O salto

             Descobrir o tamanho dos nossos limites é parte do desafio de viver. E eu nunca tive medo de ter medo. Concedi-me uma pequena aventura.Desde que me lembro que sempre quis saltar de pára-quedas. Amo a liberdade e poucas coisas estarão mais próximas dela, de suspender o tempo, do que o deslizar pelo … More O salto

Desamparo

Na brevíssima passagem por Lisboa, este fim-de-semana, encontrei-me com um amigo de que gosto muito. Encontrar não será talvez o verbo adequado, retomamos uma velha conversa inacabada, conspiramos o necessário sobre política e falamos de viagens e escritores. Dizia o meu amigo que “estava a mudar de pele”. Às vezes por excesso outras por carência, … More Desamparo

Diário de Lisboa

Escrevo sentada na Biblioteca da Fundação Calouste Gulbenkian, um dos meus locais preferidos em Lisboa. Pela janela observo o sol luminoso espalhando diamantes na vegetação e na superfície da água lisa como um chão. Deslumbramento que contraria o calendário que onde se escreve Janeiro. Sinto-me como os cafeeiros ao peso das bagas vermelhas. Plena. Por … More Diário de Lisboa

Cicatrizes

Ela está lá. Quase ninguém a vê, porém está. É bem real. Falo de cicatrizes, do corpo, mas sobretudo da alma, de marcas que nos deixam o coração apertado no corpo como umas calças dois números abaixo do tamanho certo. Nada é fácil neste tema de fronteira entre dois mundos, o interior e o de … More Cicatrizes

Amigos, família, comida: assim se declina a saudade

1. Quarta-feira é dia de arroz doce na cantina da Deutsche Welle. Arroz doce alemão entenda-se. Branco e sem açúcar. Canela e açúcar são adicionados a gosto próprio. O certo é que o arroz doce é pretexto recorrente para divagarmos durante todo o almoço sobre as delícias da gastronomia portuguesa. Desgostosos com o que temos … More Amigos, família, comida: assim se declina a saudade

Setembro

Não consigo deslumbrar-me com Setembro. É o mês em que tenho consciência plena que o Verão desapareceu. Refiro-me não à estação, mas ao verdadeiro Verão, o da minha meninez. Aquele em o tempo se estirava até ao infinito. Sobravam horas para o deslumbramento com a Volta a Portugal, para correr pelos campos com os primos … More Setembro

Havia um Müller no meio do caminho, no meio do caminho havia um Müller

Onde estava a 20 de Junho de 2000? Não se recorda? Quem não se interessa por futebol que vire a página, perdão navegue para outro local, e nos deixe com as boas memórias. Recapitulemos. Nesse dia a selecção portuguesa venceu por 3 a 0 a Alemanha, em Roterdão. É pavloviano: quando penso naquele jogo, ouço a canção “Haja o … More Havia um Müller no meio do caminho, no meio do caminho havia um Müller