Da solidão

Há uns anos fiz um retiro espiritual de uns dias num mosteiro alemão. A principal das regras era o silêncio. Quebrado apenas durante as espartanas refeições. Todas as orações eram feitas em silêncio. Abandonei tudo o que ligava ao mundo exterior, nem a leitura era permitida. Permitiam-se longas caminhadas pela montanha onde ficava o mosteiro … More Da solidão

Caleidoscópio

Há dias assim. Sufocantes. Diante de mim uma evidência. Já gastei talvez três quartos do tempo máximo que me foi reservado na Terra, talvez mais. Não tenho outro remédio senão admitir a minha fragilidade, o meu fracasso. Queria ter feito mais, melhor. Faltam-me as forças. Tentei como escreveu maravilhosamente Eliane Brum, a propósito de ser … More Caleidoscópio

Vintage

Estou naquela fase belíssima da vida em que já tenho um passado, deixei pegadas. Não me detenho perante a aventura da vida como uma miúda, sem saber o que escolher em frente da montra da confeitaria apreciando as formas coloridas e caprichosas que se dirigem simultaneamente a vários sentidos ( a composição do extraordinário prazer … More Vintage

O canalha

Há poucos autores que escrevam sobre canalhas como Nelson Rodrigues. Na crónica “O Juiz ( árbitro) ladrão” escreve que “o pulha costuma ter uma fluorescente aura de simpatia”, o canalha “é sempre um cordial, um ameno, um amorável”. Ou seja a coluna dorsal do canalha é a falsidade ( é uma contradição em termos escrever … More O canalha

Quisera eu

A história não é dessas, de quotidianos desgastes, mas de improváveis e de segredos mais transparentes que a própria luz. Se toda a história se quer fingir verdade, esta verdade aspira ao encantamento da história. Confidencio-vos. Era uma tarde de zinco de Janeiro. O frio empurrava para dentro. Riscos molhados de tristeza descem pelos vidros. … More Quisera eu

Ser português

As minhas filhas depois de fazerem uma asneira qualquer, do género autorizar a cadela preta a sentar-se no meu sofá branco – onde é que eu estava com a cabeça?Onde? – quando confrontadas com as clássicas perguntas: “o que fizeste?” ou “o que se passou?” respondem com um invariável  e nihilista “nada”. Provavelmente noutras casas … More Ser português

Da morte 

A vida é como navegar. Até se pode saber de cor as constelações e tirar azimutes, conhecer os ventos favoráveis, as correntes profundas, o recorte da costa, porém o mar esse permanece para sempre imperscrutável, imprevisível. Tudo o que nos resta como marinheiros é adaptar-nos e tentar tornar a viagem inesquecível. Ou afogar-nos. Nem sempre … More Da morte 

O corte em capítulos 

Tenho uma mania: a de tentar dar importância ao desimportante e dar significado ao insignificante. Procuro que o olhar vá mais além e com devoção o melhor nos outros. Insurjo-me contra o egoísmo.  Esta rebeldia ou inocência opcional tem-me permitido conhecer pessoas maravilhosas nos locais mais inesperados e não ficar amarga com as almas deformadas … More O corte em capítulos 

Ausência 

O café esfriou. Não o consigo beber. É amargo. Sabe a fracasso. O distraído beijo matinal que me pões nos lábios é como um livro de esqueci o enredo, mas que teima em permanecer nas minhas mãos. Sabe a rotina. Fechas a porta atrás de ti. Dizes até logo e alegras-te por não te deter. … More Ausência 

Mariposas

O que se conserva de todos os caminhos debaixo da pele? E o que se faz deles quando se regressa à casa? São duas perguntas que me consomem. O jornalista, o repórter é um “fixador de instantes”. Instantes que na voracidade dos dias se esvanecem. Esbarram contra a indiferença ou fazem que alguns desviem o olhar, … More Mariposas

A crise 

Quando o ambiente geral convida ao pessimismo ou pode descambar em depressão, é hora de ler. Prosa, poesia, um jornal, tanto faz.  Sábio verdadeiro é aquele que tem com a vida uma relação directa. Aquele que no pequeno mundo do dia a dia sabe identificar as coisas boas da vida. Conta o Otto Lara Resende, … More A crise 

Surdos 

Foram cinco dias em Lisboa a ouvir histórias. Mais ou menos íntimas, pequenos e grandes sonhos, angústias e felicidades. Quase todas elas fora norma, inesperadas.  Uma amiga flirta com a ideia de, tendo como capital uma herança criar uma ONG de empoderamento de mulheres em Cuba. Outra planeia fazer a mítica Route 66 com um … More Surdos 

Saudade

Existir é um vasto exercício de pesquisar da vida um vago indício. Tudo é barro, à espera de escultura e que lhe comuniquem o sentimento do efémero.  E  eu escultora débil me pergunto: se a saudade que tenho tua, não é mais que saudade nossa?  E eu escultora débil me pergunto: se o efémero que … More Saudade

Não sou sem ti

  Posso dormir toda a noite sob um céu infinito  amanhecer na praia com os cabelos deslaçados entre o sono e o prazer.  Posso ter um braço de homem a rodear a minha cintura  acordar com um beijo delicado acolhedor como um velho casaco.  Posso negar que queima  porque o teu sono se desprendeu do … More Não sou sem ti

Da fantasia 

   O psiquiatra José Gameiro, numa crónica sobre fantasia e o seu papel para superar o trauma, conta a história de uma colega que conheceu em Roma. Elena era filha de uma ex-deputada do PC italiano e de um resistente contra o nazismo lendário. A psiquiatra sofria de esclerose múltipla, doença de que viria a morrer, … More Da fantasia 

O poder do elogio

  Por vezes andamos às voltas com o comprimento da vida, sempre breve, tão breve, que nos esquecemos de dar largura à sua existência. Que sejam desiguais as contas. Por cada crítica feita, dois elogios. Por cada amargura, dois abraços. Por cada esquecimento, dois sorrisos rasgados. Ao acendermos a luz no outro, não deixamos que a nossa … More O poder do elogio

Toma conta de nós 

Os nossos amigos de infância nunca são pessoas comuns. São o pavimento da memória de dias felizes, de um tempo mágico onde tudo estava certo. Achamos que nada pode acontecer aos nossos amigos de infância com a mesma naturalidade com que à  mesa do café se conversa de trivialidades. Será por inocência? Pelo medo de … More Toma conta de nós 

Montar em pelo

  Não sei se já alguma vez montou sem sela, nem estribo, nem freio, de olhos fechados. Este contacto directo entre cavalo e cavaleiro permite sentir a suavidade do pelo, a calma do corpo do cavalo, a confiança dos seus movimentos. Liberdade absoluta. Vulnerabilidade absoluta. Sem violência, sem intimidação o cavalo é controlado pela voz. Pela … More Montar em pelo

Avarias

Não existe nada mais capaz de estimular a imaginação humana do que uma avaria no carro. Acompanhem-me. Esta manhã, depois dos rituais que contribuem para um spa da alma – traduza-se tomar um café no lugar habitual e ler umas páginas do romance A Irmã de Sandór Marai, um livro intenso e delicado – peguei … More Avarias

Nada mudou 

  Nada mudou. Sobre o teu nome deixei cair o tempo, rasguei-o numa árvore. Não te invoco. Encontro-te no recorte do silêncio tão pesado que me dobra. Aguardo um vento de feição que leve o teu perfume que me atravessa. Assim me faço ao sono, noite após noite, lembrando horas, de olhos desatentos sobre os … More Nada mudou 

Tempo de cerejas *

Uma longa e doce nostalgia apertou-lhe o coração. Não apenas a nostalgia da mulher, mas sobretudo a de a saber pretérito definitivo. Fora um por acaso que a conhecera. A internet tornou o mundo num lugar sem distância. O algoritmo do Facebook, esse cúpido moderno, sugeriu-lhe que lhe pedisse amizade. O ano aproximava-se do final, … More Tempo de cerejas *

Nosso amor 

Nosso amor é perfeito Suave como a seda das Índias Som do vento nas velas dos navios, Dedos de areia e lábios de sal. Nosso amor é perfeito E que doçura entregar-me Não ao sonho, és existência Poema, morada e abrigo. Nosso amor é perfeito Não há muito que dizer Pois para isso fomos feitos … More Nosso amor 

O que lêem as pessoas na casa de banho ?

Alguns snobs por aí desprezam a leitura de casa de banho como se  a elevação da reflexão não fosse compatível com os momentos mais básicos da fisiologia humana. Eu descobri a obra quase toda do Ernest Hemingway na loobrary generosa  do meu apartamento em São Francisco (o senhorio era um professor universitário) ou folheei  magníficos … More O que lêem as pessoas na casa de banho ?