Acasos

Na procura de um café aberto esta manhã decidi ir até aos Pastéis de Belém. Quando o meu pai era vivo e nós vivíamos ali por perto era um dos rituais de domingo ou feriado e cumpria-se sempre no dia primeiro do ano. Quando cheguei estava cheio, porém encontrei uma mesa vaga. Sentei-me e uma … More Acasos

Dormir

Subitamente os olhos bem abertos e a cabeça clara e lúcida. Olho para o despertador: são três horas da manhã. As luzinhas verdes do Messenger já se apagaram e não posso telefonar a ninguém que nos me maldiga. Acendo a luz. Que tal ler ? Ver uma série na Netflix? Escrever sobre a insónia ? … More Dormir

Vintage

Estou naquela fase belíssima da vida em que já tenho um passado, deixei pegadas. Não me detenho perante a aventura da vida como uma miúda, sem saber o que escolher em frente da montra da confeitaria apreciando as formas coloridas e caprichosas que se dirigem simultaneamente a vários sentidos ( a composição do extraordinário prazer … More Vintage

Pai

Tiveste várias mortes. A da emboscada na Guiné de que nunca recuperarias, a do Stress pós-traumático, que te roubou as palavras, e a definitiva na batalha que perdeste contra o cancro. Não há nada mais difícil e generoso que partilhar o silêncio, território de salvação ou desamparo, ensinaste-me. E olhar para além do simples ver, … More Pai

Diz-me a música do teu telemóvel, dir-te-ei quem és

Corria a manhã amena, o banalíssimo quadro do quotidiano foi interrompido por erupções da fantasia mais delirante. E a culpa é dela, da S. que partilha comigo o gabinete. Do nada demos por nós na Buenos Aires do início do século XX, que se assemelhava a uma grande capital de província, povoada de imigrantes oriundos … More Diz-me a música do teu telemóvel, dir-te-ei quem és

Resistência

Acredito muito na resistência pelos detalhes, começando pelas pequenas coisas. Aqui no gabinete detenho o título da secretária mais organizada, mudei várias vezes de escritório e de colegas ,mas mantive o título. Quando se trata de gestão de tempo ou organização os meus genes são mais alemães do que um icebergue nos polos e não … More Resistência

Novo, como usado

“Und wie du wieder aussiehst, Löcher in der Hose und ständig dieser Lärm/ Und dann noch deine Haare, da fehlen mir die Worte/ Must du die denn färben ?” . Em 2007 esta canção dos Die Ärtze estava no top alemão e era uma afirmação de protesto dos pais contra o look punk de um … More Novo, como usado

O anel devolvido 

Ao amanhecer cessou o vento e o Atlântico tingia-se de reluzente azul prata. Pouso nos seixos o olhar. Deslumbro-me com a leve eternidade da espuma. Do inclemente embate da massa de água contra as rochas resulta o rendilhado perfeito da espuma. As pequenas e as grandes felicidades são assim. Únicas, poéticas e fugazes. E pelas quais … More O anel devolvido 

Ser português

As minhas filhas depois de fazerem uma asneira qualquer, do género autorizar a cadela preta a sentar-se no meu sofá branco – onde é que eu estava com a cabeça?Onde? – quando confrontadas com as clássicas perguntas: “o que fizeste?” ou “o que se passou?” respondem com um invariável  e nihilista “nada”. Provavelmente noutras casas … More Ser português

Pode acontecer

Já se disseram e escreveram mais “bobagens” sobre futebol, em geral e o Sporting em particular, do que sobre qualquer outro assunto. Talvez com três excepções: a vida para além da morte, sushi e o orgasmo feminino. Adiante. Falar de futebol é cair no delicioso campo da metáfora porque é quase impossível usar com a … More Pode acontecer

O Domadora pelos olhos da Helena (a outra) 

Quem tem amigos tem tudo. Quem tem amigos que escrevem e moderam bem, é privilegiado. Partilho a apresentação do Domadora de Camalões, feita em Berlim pela Helena Araújo (tradutora, autora de documentários, melómana e blogger) “Quando li o título “Domadora de Camaleões” pela primeira vez, pensei “esta mulher é louca!” Pensei, mas nunca o diria … More O Domadora pelos olhos da Helena (a outra) 

Um aniversário no convento

Montem o filme mentalmente. Mãe pergunta à adolescente: “querida o que vamos fazer nos teus anos ?”. Adolescente responde: “vamos festejar no convento”. Mãe paralisada como aqueles gulosos que abrem um frigorífico e se depararam com uma cornucópia de delícias. “Seja convento, então”.  Fechem os olhos. Imaginem o local: um convento de Carmelitas, belíssimo, bem … More Um aniversário no convento

“Que só o prato revele o melhor, o mais humano”

Gosto de cozinha, sobretudo de cozinha com histórias. Herdei vários livros de culinária, outros que comprei e evocam memórias afectivas de viagens ou de uma sobremesa memorável. Das muitas guloseimas que me fascinam há uma, simultaneamente despretensiosa e subtil, que faz as delícias das minhas manhãs: o croissant de manteiga. Estaladiço e a derreter-se na … More “Que só o prato revele o melhor, o mais humano”

Os lápis

Os lápis, em si, são banais. Vendem-se em qualquer papelaria ou estão a uma mão de agarrar numa qualquer prateleira de supermercado. Será mesmo assim? Não encerram os lápis de cor e as canetas de feltro a possibilidade de um jardim? Ou de algo bonito? Um momento só nosso, de isolamento, o regresso a um … More Os lápis

O cheiro 

Lembram-se da madalena molhada no chá de Proust? E da associação de memórias que o prazer daquele momento desencadeou?  Todos nós temos o nosso “momento madalena” em que um dos nossos sentidos nos transporta a algum lugar. De todos eles o que maior poder de evocação tem é o olfacto.  Os estudos demonstram que as … More O cheiro 

Impossível não gostar de uma língua assim…

Ser mãe de uma adolescente significa cozinhar para as visitas “Smombie”, palavra em gíria teen  alemã que combina “smartphone” e “zombie” para designar aqueles seres de narizes colados ao telemóvel, de preferência uma refeição “Swaggetarier”, isto é swag (fantástico) e vegetariana. E por falar em vegetais, sabia que” Bambus” não se encaixam apenas nas classificações de … More Impossível não gostar de uma língua assim…

Dia da mãe 

Para onde fui só havia mapa para chegar ao ponto de partida. Nessa travessia, só chegaria ao destino quando me esquecesse de mim.  Ao avesso de qualquer outra aventura que vivi em lugares exóticos e imprevisíveis, num mundo onde quase todas as geografias já são conhecidas, na maternidade quero o perto e esse perto onde … More Dia da mãe 

O pijama de flanela

Falar dela não é difícil, preciso de três verbos: acolher, sorrir, dar(-se). Falo da minha mãe que vou buscar ao aeroporto, mais frágil, envelhecida, numa cadeira de rodas, mas com a menina que é a espreitar-lhe dos olhos verdes. Ela sempre foi mapa, o meu mapa como no poema,”vou emigrar de ti, levo a tua … More O pijama de flanela

A árvore de Natal

1.Começo pelo fim. O chocolate fumega na chávena. Escalda ao tocar das mãos. Enquanto espero que arrefeça, mexo lentamente a cobertura espessa do meu bolo preferido. Gosto tanto de ter na mesa de domingo um bolo. Degusto o tempo e o silêncio. Abro o Die Zeit, que pode ser, pelo seu formato, difícil de ler, … More A árvore de Natal