10 de Junho 2020

O QUE É AMAR UM PAÍS Agradeço ao senhor Presidente o convite para presidir à Comissão das comemorações do dia 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. Estas comemorações estavam para acontecer não só com outro formato, mas também noutro lugar, a Madeira. No poema inicial do seu livro intitulado Flash, … More 10 de Junho 2020

A mulher transparente

Olhar para ver é um acto diário de resistência. Contar a violência pelos olhos da vítima é um exercício brutal, mostrar uma imagem inteira dessa pessoa e com isso aproximá-la do leitor para que não possa ser ignorada e se torne inescapável é fazer um delicado trapezismo na corda das emoções que a violência doméstica … More A mulher transparente

Almas gémeas

No café ouvi alguém falar da sua “alma gémeas”. Para mim a ideia de alma gémea é uma chatura. Se procuramos alguém igual mais cedo ou mais tarde fazemos uma luta mortal. Prefiro outra expressão popular: ‘quem ama o feio, bonito lhe parece’. Eu preciso da diferença, do desafio, do contraste.

Vai-te embora. Por favor não leias este texto

Em 2006 uma palavra entrou no dicionários de inglês: “pizzled”, uma amálgama entre “puzzled” (perplexo) e “pissed off” (fulo). Esta palavra designava o sentimento quando alguém a meio de uma conversa sacava do telemóvel e começava a falar com outra pessoa. Nessa altura as pessoas sentiam-se ofendidas e indignadas. Uma década depois a desatenção parece … More Vai-te embora. Por favor não leias este texto

Da grandeza: 

Hesitante entrou numa cadeia de fastfood alemã que serve peixe. Era um desses dias claros e de termómetro benevolente. A velha senhora era alta, vestida de branco. Cabelo alvo, penteado com aprumo e preso por ganchos. Encomendou a refeição e sentou-se, com dificuldade. Deve ter sido uma mulher belíssima. Ainda o é no Inverno da … More Da grandeza: 

Borboletas 

Tropecei numa pesquisa na internet neles: os confetti em forma de borboleta. Substituem o arroz que tradicionalmente se atira aos noivos à saída da igreja. Gostei tanto deles por tudo aquilo que evocam. O arroz é prosaico: um alimento, lembra a placa vitrocetâmica, a cozinha e a cozinha fica dentro de casa. A cor do … More Borboletas 

Quisera eu

A história não é dessas, de quotidianos desgastes, mas de improváveis e de segredos mais transparentes que a própria luz. Se toda a história se quer fingir verdade, esta verdade aspira ao encantamento da história. Confidencio-vos. Era uma tarde de zinco de Janeiro. O frio empurrava para dentro. Riscos molhados de tristeza descem pelos vidros. … More Quisera eu

Estrangeiros do nosso ontem ou crónica que (quase) ninguém lê

Na Praça Roncalli, em frente à Catedral de Colónia, foi colocado um barco. Confiscado pela marinha maltesa e comprado pelo Cardeal, Rainer Maria Woelki. A bordo dele, no meio momento em que foi apresado no mar Mediterrâneo, estavam entre 80 a 100 pessoas que haviam largado de areias líbias. O Cardeal fez dele altar há … More Estrangeiros do nosso ontem ou crónica que (quase) ninguém lê

Micro conto ( qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência)

A mensagem apareceu na caixa de mensagens sem se fazer anunciar. E sem que se atinasse porque escolhera aquele poiso. Eliminá-la de imediato? Detenho-me não seria humano eliminar a mensagem só porque trazia flores kitsch e letras que rodopiavam. Algoz em perspectiva da mensagem penso que não incomoda, é como alguém que viesse fazer companhia durante … More Micro conto ( qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência)

Da morte 

A vida é como navegar. Até se pode saber de cor as constelações e tirar azimutes, conhecer os ventos favoráveis, as correntes profundas, o recorte da costa, porém o mar esse permanece para sempre imperscrutável, imprevisível. Tudo o que nos resta como marinheiros é adaptar-nos e tentar tornar a viagem inesquecível. Ou afogar-nos. Nem sempre … More Da morte 

A filha descartável

Esta crónica não tem a pretensão de ser imparcial, e não tem porque todos somos parte de alguma coisa, nos inscrevemos por alguma causa. Mas já lá vamos. A história do industrial milionário que andou décadas a furtar-se a reconhecer a paternidade, e quando, por fim o teste de ADN a provou, tenta deserdar a filha … More A filha descartável

“Que só o prato revele o melhor, o mais humano”

Gosto de cozinha, sobretudo de cozinha com histórias. Herdei vários livros de culinária, outros que comprei e evocam memórias afectivas de viagens ou de uma sobremesa memorável. Das muitas guloseimas que me fascinam há uma, simultaneamente despretensiosa e subtil, que faz as delícias das minhas manhãs: o croissant de manteiga. Estaladiço e a derreter-se na … More “Que só o prato revele o melhor, o mais humano”

Surdos 

Foram cinco dias em Lisboa a ouvir histórias. Mais ou menos íntimas, pequenos e grandes sonhos, angústias e felicidades. Quase todas elas fora norma, inesperadas.  Uma amiga flirta com a ideia de, tendo como capital uma herança criar uma ONG de empoderamento de mulheres em Cuba. Outra planeia fazer a mítica Route 66 com um … More Surdos 

Os chatos

Quem não tem um amigo chato que levante a mão.  Em abono da verdade os amigos chatos são um grande empecilho. São como as enchentes, que puxam pela terra e arrancam o lixo. O nosso.  Os amigos chatos avisam sobre perspectivas possíveis e são terrenos, tão por terra que nos dizem: “estás a ser egoísta” … More Os chatos

Não sou sem ti

  Posso dormir toda a noite sob um céu infinito  amanhecer na praia com os cabelos deslaçados entre o sono e o prazer.  Posso ter um braço de homem a rodear a minha cintura  acordar com um beijo delicado acolhedor como um velho casaco.  Posso negar que queima  porque o teu sono se desprendeu do … More Não sou sem ti

Praia dos medos

Quem conta uma história teme por vezes não estar à altura. Contar é dar palavras ao outro, dar memória, recordações, por vezes é uma aventura pessoal que faz com que se vá ao fundo de si, por vezes é como fazer rodar uma chave reticente. À minha frente na mesa sentam-se três crianças. Nove anos, … More Praia dos medos

Na tua margem 

   Porque fazes dos dias veleiros que conhecem os ventos e determinam meridianos.Porque és areia fina como mãos de príncipe onde me quebro em espuma  Porque o teu corpo agasalha longe das vozes da ventania  Porque a noite toma a forma do teu rosto  Porque quero permanecer naquele momento de assombro e perfeito em que … More Na tua margem 

Conto de Ano Novo

Havia um muro de pedra que bordava o caminho. Bordava e ainda borda. Eu é não passo naquele caminho há muito tempo, nem vejo a silhueta do muro recortada contra o céu a despedir-se da noite. Nem prendo o olhar nas maçãs bravo-de-esmolfe, nos  medronheiros  ou no pessegueiro ao fundo. Era véspera de Ano Novo. … More Conto de Ano Novo