Sem Volta

O Lago Volta é o maior lago artificial do mundo, criado em 1965 quando a barragem de Akosombo foi construída. Aqui vivem 49 mil ( quarenta e nove mil ) crianças, das quais 60 por cento são escravas, números oficiais das autoridades do Gana. Não é preciso dizer que não frequentam a escola, que não … More Sem Volta

Os ténis brancos  

Há alturas em que despertava sobressaltado a meio da noite com receio de ser descoberto. Apareciam-lhe personagens, vindas de um canto obscuro e desconhecido da sua mente. Escutava suspenso, com os ombros contraídos e as mãos fechadas, quando tinha a certeza que não ouvia nada e o medo se esfumava voltava a adormecer. Geralmente acordava … More Os ténis brancos  

Postais do Masai Mara 

Os Masai do Quénia têm lendas muito bonitas, quase todas envolvendo leões. Uma das minhas preferidas é “Anuani ya Simba” (o baobá do leão desperto). A história é muito longa – feita à medida das noites sem relógio redor da fogueira no enkang (aldeia) – mas vou partilhar uma versão mais curta.  Um espírito brincalhão … More Postais do Masai Mara 

Postais de Kibera 

O James é um homem humilde com a grandeza de uma alma recta. Nasceu numa boma no Rift Valley, aprendeu a juntar algumas letras e muito cedo tornou-se pastor. De pé descalço, lança e pernas a sofrerem o cansaço do caminho. Maus tratos, atrás do gado.  Nunca se desarmou do sonho. Se ele não pode … More Postais de Kibera 

24 horas, 3 países e a teoria dos seis graus de separação. 

Coloquei na mala no último instante um romance comprado há muito e que quedava por abrir. O parágrafo inicial contém a frase maravilhosa de Elias Canetti, “as interruptas idas e vindas do tigre diante dos barrotes da jaula para não que se lhe escape o único e brevíssimo instante da salvação”. De alguma maneira todos … More 24 horas, 3 países e a teoria dos seis graus de separação. 

Viver num campo de refugiados: uma experiência na primeira pessoa

O campo de refugiados de Kakuma é uma cidade de cerca de 180 mil pessoas de 20 nacionalidades. É também o sítio mais extraordinário onde vivi em toda a minha vida. A cidade cresce todos dias.  Vista da janela do Dash que me transportou de Nairobi – e que chocalhava como um brinquedo de criança … More Viver num campo de refugiados: uma experiência na primeira pessoa

Crónica do Maputo – Do trombil aos finais felizes 

Acordei grata por a vida oferecer tão auspiciosos contrastes. Quem goste de recantos de ninguém e histórias deslumbra-se no Maputo, que é uma espécie de transfusão lírica no sistema circulatório mais céptico. E essas histórias vão mais além do que o quarto com cama de dossel que coube ou os magníficos crepúsculos da plácida esplanada … More Crónica do Maputo – Do trombil aos finais felizes 

Crónica de Maputo

O dia começou como de costume: o quarto a pegar fogo com a luz do sol. Não sei porque insisto em deixar uma frincha das cortinas, espessas, aberta. Ou sei, é por intermédio desse cumprimento matinal do sol, mais quente que uma colorida gele (pano de adornar a cabeça) que vejo a África mais de … More Crónica de Maputo

Imigrantes

Escrevo no avião rumo a Lisboa. Acabei a leitura da imprensa e detive-me num artigo sobre o fluxo de imigrantes para a Europa. Ano após ano a agência de estatísticas europeia dá conta que os europeus não têm filhos porque não podem ou porque não querem e que se nada acontecer nos extinguimos sem apelo … More Imigrantes

Ich bin Gastarbeiter

Estou a olhar para uma fotografia enquanto escrevo isto. A imagem, de 1973, mostra seis homens em roupa interior, alinhados numa fila. Em frente a um deles está um médico a fazer uma palpação abominal enquanto lhe baixa as cuecas. Os homens são turcos, o médico alemão. Na década de 60 e 70 a Alemanha … More Ich bin Gastarbeiter

Ébola e histeria

Vivemos dias de verdadeiro circo político nos Estados Unidos. Bem sei que esta é a época dos circos montarem as suas tendas, mas ao menos que tragam trapezistas, acrobatas e malabaristas, e não o palhaço triste da  histeria. Eu explico. Kaci Hickox é uma das heroínas na luta contra o Ébola. A enfermeira do Maine … More Ébola e histeria

Uma explicação para o meu silêncio (ou crónica da minha quase morte)

A minha paixão por Moçambique é conhecida e  pela mesa também. Já aqui escrevi que me inquietam as pessoas que não apreciam os prazeres da mesa e os doces. É como se estivessem amputadas. Apreciar a comida é poesia e música. Aber, como diriam os alemães  às vezes quase mata (como conta, com muito humor, o … More Uma explicação para o meu silêncio (ou crónica da minha quase morte)

Sugestão de leitura

“As palavras que utilizamos no quotidiano, muito mais na construção do saber em ciências sociais e humanidades, podem conter pressupostos (ou armadilhas) que nos amarram a postulados que limitam o nosso olhar sobre um dado fenómeno social ou histórico. Uma delas é a palavra «colonialismo». Profusamente utilizada quando está em causa a dominação europeia em … More Sugestão de leitura

Reciclar é preciso

Procura um presente de Natal original e ecológico? Permita-me uma sugestão. À areia branca das praias do Quénia chegam anualmente 400 toneladas de chinelos de borracha. Lixo de turistas e locais ou não fossem as havaianas e afins o mais democrático dos calçados. O que poderia ser um grande problema ambiental transformou-se, graças ao projecto … More Reciclar é preciso

Catembe-Maputo: isto é uma história de mulheres

Não é fácil tocar-lhe no verdadeiro rosto. É uma cortesã envelhecida, feita de contrassensos. Deslumbrante e amarga. Maputo é uma mulher suspensa a quem cabe a resignação de esperar, sem saber por que e pelo que se espera. Qual a vida que se imagina quando as esperanças se desvanecem a cada manhã?Maputo não se percorre … More Catembe-Maputo: isto é uma história de mulheres

Maputo foi assim

Com os dias a fecharem-se em fade out abrupto, o tempo tem-me escasseado, mas como quero cumprir uma promessa, faço um retrato em traços largos, impressões subjectivas, da semana que passei em Maputo.  1. A minha geografia são as pessoas é por isso sempre bom voltar e reencontrar pessoas por quem se tem carinho, que … More Maputo foi assim

Da Guiné. Das palavras

Está nú. Grita “sombra,sombra”. Uma lona protege-o do sol cortante. A sombra será o derradeiro conforto do soldado na insanidade da guerra colonial. É díficil não adivinhar os traços da Pietà na imagem daqueles homens que embalam nos braços o companheiro agonizante. “Estás à sombra.Porra!” Precisei  de anos para conseguir  ver esta reportagem, de 1969, … More Da Guiné. Das palavras