10 de Junho 2020

O QUE É AMAR UM PAÍS Agradeço ao senhor Presidente o convite para presidir à Comissão das comemorações do dia 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. Estas comemorações estavam para acontecer não só com outro formato, mas também noutro lugar, a Madeira. No poema inicial do seu livro intitulado Flash, … More 10 de Junho 2020

Miguel

Miguel Otávio Santana da Silva tinha 5 anos e caiu do 9 andar de um prédio de luxo no Centro do Recife, no dia seguinte ao dia da criança. Assim dito pode parecer um azar, um acidente. Mirtes Renata é “diarista” ( empregada doméstica)e mãe do Miguel, no momento da queda ela estava a passear … More Miguel

E o passado aqui tão perto

Abruptamente falamos do início do ano como se de um passado longínquo se tratasse e introduzimos palavras pouco usuais no nosso vocabulário: confinamento, desconfinamento, distanciamento social. Falamos do “R” como se fosse aquele tipo rezingão que ninguém suporta. O que parecia impossível, aulas em casa, teletrabalho, fronteiras fechadas, aviões parados, tornou-se o possível.As redes sociais … More E o passado aqui tão perto

Da desilusão

Quando eu era adolescente e sofria desilusões lamentava profundamente não ser mais parecida com a minha grande amiga de infância. Cresci e continuei a pensar o mesmo. Foram inúmeras as ocasiões em que eu a vi desapegar- se completamente de pessoas que, de uma forma ou de outra, foram desleais, que a tinham desiludido ou … More Da desilusão

Em tempos de pandemia, humanidade

Um bairro de uma cidade alemã, também em quarentena, canta “Bella Ciao”, em solidariedade com a Itália. Há aqui uma ironia histórica e também uma grande lição: sendo originalmente uma canção de resistência camponesa, no século XIX, tornou-se no hino hino de resistência antifascista e anti ocupação nazi dos partigiani, na 2ª guerra mundial. E … More Em tempos de pandemia, humanidade

Auschwitz em Lisboa

Umas horas não chegam para contar como Esther sobreviveu a Auschwitz, graças a um acordeão, e actuou esta noite na Escola Alemã de Lisboa. E neste agora-aqui, com integridade, com humor, com a capacidade de dizer muito, tanto com poucas palavras. Aos 95 anos ainda tem a voz clara, enche um palco apesar de ser … More Auschwitz em Lisboa

Baixio das Bestas

Um filme que todos deveriam ver, e no todos incluo aqueles que se interessam por direitos humanos e por vitimologia, é o “Baixio das Bestas”, de 2006, realizado por Cláudio Assis. A obra, baseada em histórias reais, recebeu prémios nos circuitos nacional e internacional de cinema, incluindo o Tiger Award, maior prémio do Festival Internacional … More Baixio das Bestas

Acasos

Na procura de um café aberto esta manhã decidi ir até aos Pastéis de Belém. Quando o meu pai era vivo e nós vivíamos ali por perto era um dos rituais de domingo ou feriado e cumpria-se sempre no dia primeiro do ano. Quando cheguei estava cheio, porém encontrei uma mesa vaga. Sentei-me e uma … More Acasos

Dormir

Subitamente os olhos bem abertos e a cabeça clara e lúcida. Olho para o despertador: são três horas da manhã. As luzinhas verdes do Messenger já se apagaram e não posso telefonar a ninguém que nos me maldiga. Acendo a luz. Que tal ler ? Ver uma série na Netflix? Escrever sobre a insónia ? … More Dormir

Da solidão

Há uns anos fiz um retiro espiritual de uns dias num mosteiro alemão. A principal das regras era o silêncio. Quebrado apenas durante as espartanas refeições. Todas as orações eram feitas em silêncio. Abandonei tudo o que ligava ao mundo exterior, nem a leitura era permitida. Permitiam-se longas caminhadas pela montanha onde ficava o mosteiro … More Da solidão

Da série mulheres extraordinárias ( e ainda pouco reconhecidas):

Os nazis consideravam Virginia Hall o “mais perigoso de todos os espiões aliados”, mas a história da “Dama Manca” ainda é amplamente desconhecida. Hall passou quase toda a guerra na França, primeiro como espia do recém-formado SOE da Grã-Bretanha e depois para o Departamento de Operações Especiais (OSS) dos EUA. Nem a sua perna protética … More Da série mulheres extraordinárias ( e ainda pouco reconhecidas):

Ninguém é uma ilha

Em Lost Connections, Johann Hari escreve sobre as suas décadas de trabalho nas áreas do  trauma e da saúde mental e explica por que acredita que na origem de  quase tudo  o que sofremos está uma conexão cortada que nunca descobrimos como reparar. A dado momento, Hari refere-se a uma clínica de obesidade, onde os … More Ninguém é uma ilha

Rosas da Síria

Vou contar uma história. Provei pela primeira vez água de rosas num jantar tradicional em casa de um casal iraniano. Bebi-a num copo belíssimo e sentada, com modéstia, sobre um tapete. Na ingenuidade dos vinte anos não me apercebi na altura do que continha daquele gesto e estranhei-lhe o gosto. Nunca vi o rosto da … More Rosas da Síria

Caleidoscópio

Há dias assim. Sufocantes. Diante de mim uma evidência. Já gastei talvez três quartos do tempo máximo que me foi reservado na Terra, talvez mais. Não tenho outro remédio senão admitir a minha fragilidade, o meu fracasso. Queria ter feito mais, melhor. Faltam-me as forças. Tentei como escreveu maravilhosamente Eliane Brum, a propósito de ser … More Caleidoscópio

Migrantes

Quando olham para esta fotografia o que veem ? Eu vejo a minha neta mais nova, que não herdou os olhos castanhos da avó, nem os verdes da mãe, herdou os azuis do pai. Vejo um bebé lindo, de catálogo, pele clara, cabelo cor de manteiga açoreana, olhos cor de mar das Caraíbas. E se … More Migrantes

Dia D. Dia dela.

160 000 homens desembarcaram na praia de Omaha. E apenas uma mulher. Marta Gellhorn. Dois terços dos militares morreu, um terço sobreviveu. Um terço e Gellhorn. Antes de Svetlana Aleksiévitch ganhar um Nobel a escrever sobre a guerra no feminino, já Gellhorn o havia feito em “A Face da Guerra” e nas melhores reportagens de … More Dia D. Dia dela.

A mulher transparente

Olhar para ver é um acto diário de resistência. Contar a violência pelos olhos da vítima é um exercício brutal, mostrar uma imagem inteira dessa pessoa e com isso aproximá-la do leitor para que não possa ser ignorada e se torne inescapável é fazer um delicado trapezismo na corda das emoções que a violência doméstica … More A mulher transparente

Deuses

Na berma de muitas ruas ou estradas no Uganda há “plant nurseries”, vendem-se mudas de flores e árvores. São assim como um jardim do Éden em miniatura (quando penso em paraíso e nas suas árvores, elas são sempre tropicais, ao pé de uma palmeira a macieira é sem jeito). Na terra fértil elas crescem rapidamente, … More Deuses