Do racismo

  1. O Brasil é um país onde a abolição da escravatura ainda não se concluiu, profundamente racista e classista. Quer a cor da pele, quer o ser pobre são uma espécie de ferrete que milhões de brasileiros transportam toda a vida, vida essa mais curta e sofrida que a dos brancos. Não sou eu que digo são as estatísticas.

Recentemente num evento profissional uma brasileira da elite comprou casa (s) em Portugal disse-me “estão a chegar muitos brasileiros”. Perguntei e “isso é mau ?”. A resposta foi lapidar “brasileiros pobres”. A classe média alta e alta brasileira despreza pobres. Não sou eu que o digo são as estatísticas e os artigos de jornal sobre discriminação e até escravatura.

São todos os brasileiros racistas ou classistas? Certamente que não. Há um movimento activista forte no Brasil personificado por negros ( o lugar da fala aqui é importante porque nós brancos jamais sentiremos o que é ser olhado com desconfiança pela cor da pele) com aliados brancos que procura cortar os grilhões. Ainda não o conseguiu mas há progressos.

  1. Há uns anos uma das minhas filhas namorou um angolano ( miúdo fantástico de quem ainda hoje sou amiga) e houve quem me perguntasse : “não tens medo de ter netos pretos?” . Estive a segundos de esbofetear aquela pessoa. Segundos. Portugal é um país onde o racismo é bem visível e continua a medrar. Dois exemplos: o assassinato de Candé à luz do dia antecedido de insultos racistas, o ódio a Joacine ( de quem discordo em quase tudo, até na postura assumida, mas a quem reconheço uma enorme coragem para enfrentar o que enfrentou ), no caso de Joacine a conjugação de negra, mulher e assertiva (goste-se ou não dela, era assertiva nas suas posições) foi demasiado para alguns e assistimos a episódios de enorme violência verbal, literalmente discurso de ódio.
    Sintomático desse racismo tolerado, “brando”, são as “piadas” em relação à Amadora ou à prestação sexual de homens e mulheres negras ( os crimes de violação das tropas portuguesas na guerra colonial e dos portugueses nas antigas colónias ainda são tema tabu).
  2. Com isto quero dizer que não me interessa a na nacionalidade da mulher racista que proferiu insultos contra crianças negras e angolanas num restaurante da Costa da Caparica, interessa-me o debate sobre o racismo daí resultante em várias perspectivas:

a) houve uma quase unanimidade em classificar o “vai para a tua terra “ e “pretos imundos” como insultos racistas. Um progresso seja em Portugal ou no Brasil.

b) a indignação portuguesa ao ver o país ser rotulado como racista. Não sendo todo o país racista, nem todos os portugueses, há racismo estrutural, assim como há xenofobia, assim como há abuso sobre cidadãos estrangeiros ( visíveis no caso do ucraniano torturado pelo SEF, nos imigrantes que trabalham em estufas ou nas prostitutas traficaras por redes). Uma das formas de lutar contra isto é começar a aplicar a lei e a “desnormalizar” o discurso de ódio nas redes sociais e nas caixas de comentários ( os órgãos de comunicação social têm aqui uma responsabilidade que não cumprem).

c) o apontar de dedo do Brasil em direção a Portugal. Há sobejos casos de abusos sobre estudantes brasileiras ( a universidade de Coimbra que o diga), de xenofobia em relação a brasileiros, muitas vezes também entre brasileiros residentes em Portugal.
O Brasil, ou parte dele, culpa os portugueses pela colonização e por todos os entorses de um país com futuro adiado não obstante os séculos de independência, a ideia do “país irmão” é uma fantasia de cabeças luso-tropicalistas. O Brasil gosta dos italianos, dos japoneses, dos alemães, os portugueses são o Manuel das anedotas.

Claro que ao apontar o dedo indicador o Brasil não se confronta com o seu racismo diário que em duas décadas matou milhares de negros ( em 2015 tinha-se ultrapassado os 300 mil, não vi os números actuais ).

d) Lula falou, Marcelo falou. Ambos, um ex-presidente e um presidente se insurgiram contra o racismo. Naturalmente que o facto de os pais das crianças serem brancos famosos com milhões de seguidores nas redes sociais ( seguidores que reagiram ao vídeo) pesou nesta reação, mas ainda bem que o fez.

Quem se insurge contra o racismo, sendo branco, tem um caminho: aliar-se à luta, ser intolerante contra os abusos ( “ah e tal o racismo não existe”, ”eu branco já fui vítima de racismo”, e todos os outros argumentos falaciosos), denunciar comentários abusivos e de ódio ( a linguagem que desumaniza outra pessoa é a porta aberta para a agressão física), levar a que aplique a lei.

Nota final: fez um ano que se aprovou um plano contra o racismo e não vi nem nos jornais nem nas declarações políticas uma única referência ao facto. Está ser aplicado ? Como ? Com que resultados?


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