Longa teia de impossibilidades

É pelos olhos que se reconhecem. São vermelhos, inflamados pelo horror que viram é que vivem. E esses olhos a sua guerra particular, longe dos nossos. O que é irónico nessa batalha ? O final está desde o início traçado.

Estive muito tempo a olhar para esta imagem. É de Dakha, no Bangladesh, não fui eu que a tirei, embora tenha visto muitas cenas semelhantes quando trabalhei na. capital do Bangladesh. É um mundo distante demais e dos demais.

O que vemos nesta imagem é um retrato da pobreza extrema, inimaginável para qualquer um de nós. São existências que partilham as horas connosco e existem debaixo do mesmo céu. Existem ? Ou sobrevivem apenas porque lhes bate no peito um coração e se recusam a desistir?

Quando ouço quem questione a pobreza ou os apoios a quem se quer manter à tona de água lembro-me das hordas de farrapos humanos com corpos curvados por uma espécie de invisível canga.

Em Portugal já não há pobres dos se revezavam pelas portas das diferentes aldeias para subtrair a vergonha. Nem miseráveis, descalços e com fome. Dos que faziam caminhadas de quilómetros para ir à escola, às vezes já tinham cavado a terra ou saído com os animais, eram humilhados pelos professores. Esse passado, não muito longínquo, passou.

Mas ainda há pobres e quem tenha caído temporariamente na pobreza, não por desleixo ou por preguiça apenas por circunstâncias da vida. Nos últimos dias temos ouvido falar muito do RSI e dos “abusos”, esquecendo que do lado de lá estão pessoas, dramas individuais, e tantas, tantas crianças. Nascer na pobreza é quase como integrar a equipa das impossibilidades.

Na Faculdade lembro-me de quem passasse mal por quase não comer, isto no início da década de noventa do século passado, ou se pagavam livros e transporte ou se comia. Isto em Lisboa. A vergonha essa escondia-se olhares fugidios e no engolir em seco.

Apoiar quem precisa, sem questionar porque precisa é um dever de humanidade, também é um direito porque todos nascemos com o direito à dignidade. Se por cada pessoa que consegue escapar à pobreza houver uma que “abusa” – e não há, são uma percentagem ínfima os abusos – teremos ganho enquanto sociedade e enquanto humanos. Custa assim tanto partilhar e ajudar a iludir um futuro que ninguém quer?


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