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- Um deputado socialista escreveu um bom texto de opinião sobre o iníquo voto de pesar pela morte de um “herói” de guerra. Esse texto, que subscrevo, pecava por uma parvoeira, o apelo ao derrube do Padrão dos Descobrimentos, que não subscrevo.
- O Padrão que tal como a intervenção no Castelo de São Jorge e alteração da muralha medieval para o que vemos hoje são produto Estado Novo e resultam na criação de uma ficção histórica. A intervenção, realizada entre 1938 e 1940, no âmbito das celebrações do duplo centenário da fundação da nacionalidade (1143) e da restauração da independência (1640), revela-nos de forma bastante concreta a visão de uma narrativa histórica nacional que se queria épica e mítica.
A atual configuração do Castelo de São Jorge constitui o exemplo perfeito de como o património histórico edificado pode ser manipulado ao serviço da ideologia. - Regressemos ao Padrão. Construído em 1960, por ocasião da comemoração dos 500 anos da morte do Infante D. Henrique, evoca a obra do impulsionador da Descobertas, sendo um dos altares do salazarismo e do mito do colonialismo fraterno com os outros povos. O que necessita de desafio no debate público.
- Ao contrário de outros monumentos o Padrão tem no entanto servido para problematizar o racismo em várias exposições. Recordo por exemplo “Racismo e Cidadania”, em 2017, que questionou a relação entre racismo e cidadania num espaço de seis séculos, de 1497 ao presente. No período considerado, ocorreram a expulsão de muçulmanos, a conversão forçada de judeus, o tráfico de escravos, a colonização de territórios em África, América e Ásia, a abolição da escravatura, a descolonização e o início de um processo inverso de imigração. Aqui se expôs o “exotismo” da mulata – que surgiu fruto de violações de mulheres negras – os traços animalescos dos negros, ou os rostos distorcidos dos judeus. Também se mostrou que o racismo resulta de preconceitos quanto à descendência étnica, combinados com ação discriminatória. É sempre desencadeado por projetos políticos, não é inocente e quer excluir minorias e monopolizar recursos por parte de alguns grupos étnicos ou sociais.
- Que melhor que um altar do nacionalismo e fo colonialismo português para o desconstruir ?
- Sim, o Padrão tem que ficar.E haverá prazer maior para um democrata que ver a extrema direita e a direita conservadora rasgar as vestes por monumento que tem na proa um Infante que era simultaneamente homossexual, pedófilo e escolhia os seus amantes entre escravos negros adolescentes, o Infante político a quem o pai aconselhou discrição fez desaparecer o seu cronista para que a Igreja não tomasse conhecimento que a sua “castidade” tinha outras motivações. Por esta hipocrisia da história ( e dos que a usando como arma discursiva não a estudam ou conhecem ) e porque os heróis quase todos têm pés de barro que importa conhecer o Padrão é um bom elemento de análise.
- Sim, o Padrão deve ficar. É símbolo e um lembrete de que a gesta das navegações foi feita à custa do sofrimento de muitos. Que o mundo nos dê novos mundos a nós, país democrático ainda ofuscado pelo brilho de fancaria dos mitos da ditadura.
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