O derrube do Padrão dos Descobrimentos e outras parvoeiras:

  1. Um deputado socialista escreveu um bom texto de opinião sobre o iníquo voto de pesar pela morte de um “herói” de guerra. Esse texto, que subscrevo, pecava por uma parvoeira, o apelo ao derrube do Padrão dos Descobrimentos, que não subscrevo.
  2. O Padrão que tal como a intervenção no Castelo de São Jorge e alteração da muralha medieval para o que vemos hoje são produto Estado Novo e resultam na criação de uma ficção histórica. A intervenção, realizada entre 1938 e 1940, no âmbito das celebrações do duplo centenário da fundação da nacionalidade (1143) e da restauração da independência (1640), revela-nos de forma bastante concreta a visão de uma narrativa histórica nacional que se queria épica e mítica.
    A atual configuração do Castelo de São Jorge constitui o exemplo perfeito de como o património histórico edificado pode ser manipulado ao serviço da ideologia.
  3. Regressemos ao Padrão. Construído em 1960, por ocasião da comemoração dos 500 anos da morte do Infante D. Henrique, evoca a obra do impulsionador da Descobertas, sendo um dos altares do salazarismo e do mito do colonialismo fraterno com os outros povos. O que necessita de desafio no debate público.
  4. Ao contrário de outros monumentos o Padrão tem no entanto servido para problematizar o racismo em várias exposições. Recordo por exemplo “Racismo e Cidadania”, em 2017, que questionou a relação entre racismo e cidadania num espaço de seis séculos, de 1497 ao presente. No período considerado, ocorreram a expulsão de muçulmanos, a conversão forçada de judeus, o tráfico de escravos, a colonização de territórios em África, América e Ásia, a abolição da escravatura, a descolonização e o início de um processo inverso de imigração. Aqui se expôs o “exotismo” da mulata – que surgiu fruto de violações de mulheres negras – os traços animalescos dos negros, ou os rostos distorcidos dos judeus. Também se mostrou que o racismo resulta de preconceitos quanto à descendência étnica, combinados com ação discriminatória. É sempre desencadeado por projetos políticos, não é inocente e quer excluir minorias e monopolizar recursos por parte de alguns grupos étnicos ou sociais.
  5. Que melhor que um altar do nacionalismo e fo colonialismo português para o desconstruir ?
  6. Sim, o Padrão tem que ficar.E haverá prazer maior para um democrata que ver a extrema direita e a direita conservadora rasgar as vestes por monumento que tem na proa um Infante que era simultaneamente homossexual, pedófilo e escolhia os seus amantes entre escravos negros adolescentes, o Infante político a quem o pai aconselhou discrição fez desaparecer o seu cronista para que a Igreja não tomasse conhecimento que a sua “castidade” tinha outras motivações. Por esta hipocrisia da história ( e dos que a usando como arma discursiva não a estudam ou conhecem ) e porque os heróis quase todos têm pés de barro que importa conhecer o Padrão é um bom elemento de análise.
  7. Sim, o Padrão deve ficar. É símbolo e um lembrete de que a gesta das navegações foi feita à custa do sofrimento de muitos. Que o mundo nos dê novos mundos a nós, país democrático ainda ofuscado pelo brilho de fancaria dos mitos da ditadura.

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