Calhou-nos a nós

Em 2011, residia na Alemanha mas fui passar um largo período de tempo à Califórnia. Aluguei uma casa tipicamente americana com alpendre de madeira, jardim frontal sem gradeamento e plano de emergência em caso de terramoto colocado no frigorífico King size.
Aprendi imenso nesses dias. Deixava as miúdas na colónia de férias da Universidade e ia buscá-las ao final do dia. Depois comíamos um hambúrguer vegetariano com facon ( bacon vegetariano ) ou passávamos pelo Starbucks tentadas pelo bolo de canela.

Recordo-me da cara de surpresa das miúdas ao entrar nos hipermercados de Berkeley. Na Alemanha há hipermercados como os portugueses, mas nada comparado com o gigantismo norte-americano. Comprar um shampoo, um pacote de bolachas, ou lacticínios equivalia a percorrer prateleiras e prateleiras e prateleiras. O esplendor, para o bem e para o mal, da abundância norte-americana.

Nestes tempos de pandemia lembro-me com frequência dos hipermercados norte-americanos com tudo o que o desejo humano possa cobiçar e pagar. As nossas sociedades são um pouco assim. Habituados que estávamos a fazer o que nos apetecia, quando nos apetecia – e dá-lo como adquirido – vemos a privação do pequeno prazer de tomar um café como algo que nos atinge nos nossos direitos adquiridos. Habituados que estávamos a ver as desgraças, inundações, terramotos, fome a acontecer aos outros, não queremos aceitar que nos está a acontecer a nós. Pedem-nos tão pouco para achatar a curva: achatar o rabo no sofá. E não há alternativa. Não salvamos a economia, nem voltamos às nossas vidas sem controlarmos a pandemia. Calhou-nos a nós.

Esta tarde vi um filme sobre Benghazi e dei por mim a ter saudades da adrenalina de países em guerra, de aterrar com o avião a fazer círculos, de ver tanques estacionados no aeroporto e viver em compounds com arame farpado. Suponho que a monotonia também é isto.

Tenho saudades dos meus amigos. Muitas. Da minha filha na Alemanha. De poder dar uma volta só por dar uma volta e de abraçar.
Calhou-nos a nós. A tempestade há-de passar e como me ensinaram na Bundeswehr em caso de ataque snipper: abrigar-se e reduzir a superfície de ataque. É isto.


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