Caçador de Bibliotecas

Corria o Verão de 1992 e um menino de 8 anos voltava da igreja com a mãe, Joana D’Arc, e a irmã mais nova, Jucilene. Afastou-se delas em direção ao campo de futebol bem no meio do depósito de lixo do Morro do Caracol, no Complexo de Favelas da Penha, onde morava desde que nasceu. A bola rolaria. Para ele, o jogo seria outro.

Num lugar inusitado, uma criança encontra um objeto mágico: um livro, o seu primeiro livro, Dom Gatô (de Maria Dinorah).

“Comecei a frequentar a biblioteca da minha escola, muito incentivado por uma professora chamada Maria Luzia Cunha. Num segundo momento, passei a visitar a biblioteca do meu bairro — a Penha —, depois de bairros vizinhos e, então, do restante da cidade. Virei um caçador de bibliotecas. De tanto ler, meu desejo se tornou também o de escrever. Rascunhava pequenas histórias e, depois, textos teatrais, que apresentava em escolas da Zona Norte. Dali, descobri os centros culturais, os espetáculos de narração oral e os eventos literários de fim de semana nas livrarias. Assim nasceu meu projeto Ler é 10 — Leia Favela [em 2006], porque queria compartilhar aquela vivência, democratizar o acesso ao livro nas comunidades. Iniciei pelo Complexo da Penha e, em seguida, fui para o Complexo do Alemão [o Complexo de Alemão é o segundo maior complexo de favelas do Rio de Janeiro onde vivem cerca de 80 mil pessoas]”. Nascia o Livreiro do Alemão, alcunha que daria nome ao seu primeiro livro,  de seu nome Otávio de Souza.

Em “O Livreiro do Alemão” (2011) o escritor, actor e contador de histórias, conta um episódio dramático, vivido em 2007. Tinha acabado de contar uma história a 25 crianças sentadas no chão de uma sala de aula no Espaço Ibiss, na Vila Cruzeiro (Complexo da Penha), e imperava o silêncio, com todos concentrados nos livros. Subitamente ouviu-se um estampido ao longe,  seguiram-se outros, muitos, aterrorizantes. Minutos depois, veio o grito: “Olha o caveirão!”, nome dado aos blindados da Polícia Militar. “Tive de interromper a leitura e levar as crianças para um local seguro”, recorda. “Nem deu tempo de recolher os livros”.

Aquele ano foi especialmente violento, mesmo para os padrões cariocas, a ponto de Otávio não conseguir mais viabilizar as reuniões de leitura. Os pais temiam deixar os filhos fora de casa, e por pouco o projeto não acabou. “Quem mora ali no morro sabe que há medo, angústia, desespero. Mas também há um desejo enorme de superação. Superar a violência, superar o preconceito, superar a falta de perspectivas. (…) Vejo homens armados por todos os lados, já tive amigos aliciados por criminosos, e uma bala perdida invadiu minha casa, deixando marca na parede em cima da minha cama”, relatou, no livro.

Confinado em casa por vários dias, acompanhado pela trilha sonora  dos tiroteios, “escrevia, escrevia, escrevia para esquecer a tensão. Escrevia para não morrer sufocado”. O seu  último livro, “Da Minha Janela”, ilustrado pela argentina Vanina Starkoff, foi o vencedor da categoria infantil do Prémio Jabuti, o Oscar da Literatura no Brasil.


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