Passageiros clandestinos

Resignação é a mais feia palavra da língua portuguesa. É um esmagamento.
Nascemos para viver contra os aniquilamentos.

Vou contar uma história. Quando ela tinha 12 anos disseram-lhe: “a minha vida acabou quando tu nasceste”. A mãe morreu no parto e nunca lhe perdoaram. Aquelas palavras queimaram lá dentro, doeram mais que o descaso, as tareias de cinto, os pratos atirados para o chão quando o jantar que aprendeu sozinha a fazer não era suficiente
para apaziguar os demónios do álcool. “Puta, nunca devias ter nascido”. Passou aquela fome que não mata, mas tortura, dia após dia.

Os anos na instituição endureceram-lhe o olhar. Ninguém quer adoptar uma adolescente com o pai vivo. A escola ficou por acabar “não tinha cabeça para aquilo”. Fez limpezas, trabalhou num café. Engravidou, uma, outra e outra vez. Entre uma gravidez e outra desenharam-se-lhe na pele os hematomas. “Não prestas, não vales nada”. Ele cumpre pena. Ela fugiu daquela vida “amo os meus filhos, quis que cada um deles nascesse”.

Tirou comida da boca para lhes dar, recebeu o
o subsídio do estado, “é tão poucochinho”. Agora limpa a casa “das doutoras” vai sobrevivendo com a ajuda das refeições da igreja. Tem um par de botas de inverno e dois pares de sapatos de verão, uma casita com humidade nas paredes e uma cama de casal onde dormem os três filhos. Não entra em centros comerciais para não ser olhada de alto a baixo. “Sou pobre não sou ladra. Passei fome, dormi na rua com frio. Tantas vezes e tanta gente fingiu que não me via. Os meus filhos estão na escola, não quero que tenham uma vida como a minha. Será que consigo ?”. O semblante é sereno, as palavras punhais. Irá resignar-se ? Revolto-me a não querer que o faça, sinto que não tenho o direito a esperar mais dela.

Alguns já nascem com metade da vida desfeita. A história dela é densa — e não cabe toda aqui. É uma história em tantas. Há vidas que parecem passageiros clandestinos que partilham o nosso navio.

Quando ouço falar em pobres como “subsídiodependentes” ou “que vão trabalhar que têm bom corpo” escapam-se-me as palavras. Que sabemos nós destas vidas ? Do inferno que os mastiga ?


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