Uma história de luz

Quando já havia consumido as unhas todas para se manter agarrado às paredes do precipício, em 2015 Alex leu na internet que precisavam de alguém para cortar legumes. Não era uma ocupação à altura da sua formação, mas nunca, nunca mesmo, vi alguém tão feliz trabalhando de graça na “Moabit hilft”. Alex chegou a Berlim em Outubro de 2014. Fugido das bombas, da prisão líbia e resistindo horas dentro de água no mediterrâneo quando a sua embarcação naufragou. Em Berlim uma estranha ajudou-o a encontrar o centro de refugiados, com ela comeu a sua primeira currywurst (salsicha com caril, a iguaria típica de Berlim) e foi ess desconhecida que colocou na mão uma nota de 50 euros. No dia seguinte apareceram à porta do centro duas universitárias, voluntárias, que o ajudaram a firmar pé.

À medida que as semanas passavam, com o seu dinheiro comprava comida, cozinhava e distribuía refeições por sem-abrigo. A boa acção chegou ao Facebook. Do Facebook ao Senado berlinense, do Senado ao Presidente da República alemão, que convidou o sírio para uma visita ao palácio. Passaram cinco anos, casou com uma alemã, encontrou emprego como engenheiro informático e continua a cortar legumes todos dias para as refeições daqueles que como ele um dia precisaram de ajuda.

O que faz de um humano um humano? Há várias formas de não ver o outro. Infelizmente exercitamos todas elas e inventamos novas, nesta história, num bairro comum de Berlim, foram muitos os que escolheram olhar.


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