Miguel

Miguel e a mãe

Miguel Otávio Santana da Silva tinha 5 anos e caiu do 9 andar de um prédio de luxo no Centro do Recife, no dia seguinte ao dia da criança. Assim dito pode parecer um azar, um acidente.

Mirtes Renata é “diarista” ( empregada doméstica)e mãe do Miguel, no momento da queda ela estava a passear o cão da patroa.

Sari Corte Real é a primeira dama da cidade de Tamandaré, esposa do prefeito e patroa da Mirtes.

Com as creches fechadas devido à pandemia a criança teve que que acompanhar a mãe aquele apartamento de luxo no 5 andar.

Como o menino estava a incomodar a manicure da patroa e pedia para ir ver a mãe, a patroa acompanhou Miguel ao elevador e carregou no botão do 9 andar.

Chegado ao 9 andar o menino saiu e trepou para uma caixa de ar condicionado e dela mergulhou 35 metros para a morte.

Quando a mãe o encontrou morto no chão, o menino ainda respirava. Morreria pouco depois.

Este também é um retrato do Brasil. O do Brasil branco, rico, herdeiro do esclavagismo, onde as “diaristas” são o elo mais fraco da cadeia. Se tudo isto não estivesse documentado – o prédio era de luxo, o elevador e o prédio têm câmaras – o crime da patroa seria apenas mais um episódio da injustiça gritante.

Um retrato do Brasil que, diante da desigualdade brutal, supostamente respondia com uma alegria irredutível, ainda que bastasse prestar atenção à letra dos sambas para perceber que a alegria era uma alegria triste. Ou uma tristeza que ria de si mesma. Aqui só é possível chorar de tristeza.

Como escreveu Eliane Brum, a melhor e mais crua retratista do Brasil, em 2015, “ o Brasil do futuro não chegará ao presente sem fazer seu acerto com o passado. Entre tantas realidades simultâneas, este é o país que lincha pessoas; que maltrata imigrantes africanos, haitianos e bolivianos; que assassina parte da juventude negra sem que a maioria se importe; que massacra povos indígenas para liberar suas terras, preferindo mantê-los como gravuras num livro de história a conviver com eles; em que as pessoas rosnam umas para as outras nas ruas, nos balcões das padarias, nas repartições públicas; em que os discursos de ódio se impõem nas redes sociais sobre todos os outros; em que proclamar a própria ignorância é motivo de orgulho na internet; em que a ausência de “catástrofes naturais”, sempre vista como uma espécie de “bênção divina” para um povo eleito, já deixou de ser um fato há muito; em que as paisagens “paradisíacas” são borradas pelo inferno da contaminação ambiental e a Amazônia, “pulmão do mundo”, vai virando soja, gado e favela – quando não hidrelétricas como Belo Monte, Jirau e Santo Antônio.”

Com a morte do Miguel, morreu mais um pedaço de Brasil.


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