Da desilusão

Quando eu era adolescente e sofria desilusões lamentava profundamente não ser mais parecida com a minha grande amiga de infância. Cresci e continuei a pensar o mesmo.

Foram inúmeras as ocasiões em que eu a vi desapegar- se completamente de pessoas que, de uma forma ou de outra, foram desleais, que a tinham desiludido ou que lhe tinham falhado. E nisso ela é implacável, um verdadeiro terminator de sentimentos: é como se a pessoa em causa nunca tivesse existido, corta qualquer contacto. Passa-a para o arquivo morto.

E eu tantas tive pena de não conseguir reagir assim. Demasiadas vezes perdoei o imperdoável, a amigos, família, conhecidos e amores e fui sempre o coração mole ( a idiota) de serviço. Dezenas e dezenas de vezes fiz que não ouvia, tinha percebido ou engoli o orgulho e estendi a mão. Era viciada em perdoar, amenizar, esquecer.

Quantas vezes mesmo muito magoada construí pontes. Talvez a bonita linha de amor alguma vez escrita seja esta do Chico Buarque: “Te dei meus olhos pra tomares conta/ Agora conta como hei de partir“. No amor, como na amizade damos os nossos olhos para que tomem conta deles. Ou então não é amor, nem é amizade.

A dada altura na vida todos nos desiludem de alguma forma. Fazem-no intencionalmente ou sem se aperceberem, na maioria dos casos porque são egoístas, ou narcisistas, ou simplesmente parvos. Ou nós nos enganámos na avaliação que fizemos.

E nesses momentos separa-se o trigo do joio. Perdoa-se quem merece e quer ser perdoado, afasta-se quem não interessa, quem não é toma conta de nós, quem não merece (porque é disso que se trata, reciprocidade) a nossa amizade, o nosso carinho, o nosso amor, o nosso tempo ou a nossa consideração.

Deixei de acreditar, custou-me horrores, que toda a gente é bem intencionada ou bem formada mas que, de quando em vez, tem um lapso, um descuido. Não é verdade. Para tudo na vida há sempre aquele momento em que se pode escolher entre ser gente ou gentalha. Sempre.

No percurso de uma vida passamos por várias pequenas mortes e renascimentos. É importante que partes de nós morram para que outras possam nascer. Que os trastes passem a arquivo morto, ao mausoléu dos velhos amigos ou à caixa selada das desilusões profundas, que renasça a cada dia o elo que me liga aos que me merecem.

Cansei-me de ser a “boba”, como dizem os brasileiros, a boazinha morreu. Viva o meu novo eu.


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