Quero tanto estar errada

Comecemos pelo cenário: um aeroporto. Peço para enrolarem a mala em película transparente, que me dá a ilusão de ser imune a tudo.
Aterro de noite, saio do aeroporto e procuro o motorista que está no exterior com um papel onde estará o meu nome. Dezenas de motoristas na escuridão com papeis. Encontro-o. Conduz-me a um velho Nissan Sunny onde está o meu guarda-costas, um jogador de futebol local que treina para a maratona. Extenuada pergunto-me mentalmente como um jogador de futebol me poderá proteger. O motorista, um nigeriano enorme, sorri. “Welcome to hell”.

Antes de partir, em Bona sentei-me com o Gunnar, o homem das secretas e consultor de segurança, estendeu-me o formulário habitual: identificação de cadáver e as respostas em caso de rapto. Preparámos os cenários de saída do país em emergência, com mapa em papel. Discutimos os items da running bag obrigatória. Testámos os telefones satélite. Juntos vamos ao director-geral: “está consciente dos riscos?”. “Estou”. “Ok”. Fomos buscar o colete à prova de bala e o capacete. Repeti este procedimento vezes sem conta, antes de tantas viagens, e o arquivo morto conhece todos os sinais e marcas do meu corpo.

Poucas vezes tive medo, das vezes que tive desconfio que foi ele que me salvou. Talvez um dia escreva sobre isso.

Agora tenho. Não por ser uma pessoa num grupo de risco. Depois de 8 internamentos por causa do coração, de ter sobrevivido a uma paragem cardíaca, a snippers e bombardeamentos, de uma aterragem de emergência na selva, de um rapto, de uma agressão sexual e de uma arma encostada ao externo, aprendi a gerir o medo – já vivi tantas vidas nesta vida já sobrevivi tanto, conheço a minha fragilidade – e a farejar o perigo.

Pressinto que não estamos preparados para o que aí vem. Tento distrair-me, fazer as rotinas, restringir as saídas – e faço-as por mim e para ajudar o pequeno comércio e os pequenos negócios que lutam pela sobrevivência – usar o humor, mas a minha experiência de crise diz-me que o que vem aí será literalmente um “welcome to hell”, sem motorista nigeriano de dois metros, nem guarda-costas.

Quero tanto estar errada.


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