Auschwitz em Lisboa

Umas horas não chegam para contar como Esther sobreviveu a Auschwitz, graças a um acordeão, e actuou esta noite na Escola Alemã de Lisboa. E neste agora-aqui, com integridade, com humor, com a capacidade de dizer muito, tanto com poucas palavras. Aos 95 anos ainda tem a voz clara, enche um palco apesar de ser pequena, tão pequena, tão frágil e tira-nos o chão.

No braço esquerdo traz tatuado o número 41 948. Ouvir uma sobrevivente a dizer o seu número, a negação de ser pessoa perfura a pele. Conta a sua deportação para o campo da morte e a seleção. Mulheres grávidas, mulheres com filhos pequenos, mulheres com mais de 45 anos tinham um destino: a morte por asfixia nas câmaras de gás.

Os pais e a irmã não sobreviveram à barbárie nazi. O pai judeu havia sido agraciado com a Cruz de Ferro de primeira classe a mais alta condecoração por bravura em cenário de guerra. Judeu, alemão, herói de guerra, um ninguém para os nacional-socialistas.

Quando desceu do comboio perguntaram-lhe se sabia tocar um instrumento, a orquestra precisava de uma acordeonista, sem saber tocar mas confiando na sua educação musical disse que sim, tocou e entrou para a orquestra.

Por vezes a orquestra tocava quando as colunas de mulheres e crianças caminhavam para as câmaras de gás. “Se há música não pode ser tão mau”, disse-lhe alguém com o negro humor judaico.

Depois da libertação do campo fez da música a sua resistência. Em 1989 fundou uma banda de hip hop , para lutar contra o racismo, o fascismo e o extremismo de direita.
Participou em centenas de manifestações anti-nazis, levantou a voz pelos refugiados. Defende a solução de dois Estados para a Israel, canta com um músico, turco muçulmano.

A Alemanha atribuiu-lhe a mais elevada condecoração civil, a Bundesverdienstkreuz, os alunos das muitas escolas que visita sabem que o testemunho e a memória não têm prémio, menos ainda preço. Só em 2019 fez 150 concertos e um número sem conta de visitas a escolas.

A Escola Alemã de Lisboa ensinou à sala cheia mais sobre a natureza humana do que se teria aprendido noutro qualquer lugar do mundo. Esther Bejanaro pôs tudo em proporção, incluindo a nossa existência e ajudou-nos a lembrar o que é importante: a indiferença mata.


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