Baixio das Bestas

Um filme que todos deveriam ver, e no todos incluo aqueles que se interessam por direitos humanos e por vitimologia, é o “Baixio das Bestas”, de 2006, realizado por Cláudio Assis.

A obra, baseada em histórias reais, recebeu prémios nos circuitos nacional e internacional de cinema, incluindo o Tiger Award, maior prémio do Festival Internacional de Cinema de Rotterdam em 2007.

A personagem principal Auxiliadora – interpretada por Mariah Teixeira – é uma adolescente de 16 anos que vive sob o controle do avô e também do seu pai Heitor, que, além de explorá-la domesticamente, é sexualmente , “ sabe que faço isso para o seu bem”, obrigada a despir-se para os homens que frequentam o posto da cidade de Baixio. Paradoxalmente o avó indigna-se pela falta de autoridade dos homens sobre as mulheres, afirmando que não existe mais vergonha ou honra no mundo a sua volta.

No sistema de “proibições e prescrições” de Baixio a mulher deve ser imaculada, livre de sexualidade, o feminino existe para tentar e provocar o masculino. Dessa forma quando a violência é cometida a mulher é considerada a causadora de seu próprio sofrimento.

A primeira cena dá o tom do que estar por vir, ao mostrar a exploração sexual de Auxiliadora pelo avô, por quem é despida. A jovem mantém o olhar baixo, os pés juntos, braços apertados contra o corpo e cabelo na frente do rosto, como quem tenta se esconder. Submissão e vergonha. O efeito é ampliado com o enquadramento da cena, que sugere Auxiliadora no centro de um palco, em evidência, com seu avô mais afastado da luz. Depois, o plano abre para os voyeurs que contemplam a nudez de Auxiliadora, violentando-a sem lhe tocar.

Faço aqui um parêntesis ao filme para contar um episódio real que me foi relatado na primeira pessoa por um homem de uma força de intervenção. Numa dada operação em que partiram uma porta e entraram num quarto estava uma jovem mulher de tshirt e cuecas e que terá feitos gestos e terá dito palavras obscenas para a equipa de homens, sabem o que sucedeu em seguida ? Quando chegaram à unidade/ quartel vários elementos dessa equipa foram masturbar-se, comentando uns com os outros a tesão que essa desconhecida, no caso inocente de qualquer crime, apenas familiar de um suspeito/criminoso, lhes suscitou.

Volto ao filme. Um dos palcos da ação é o bordel uma casa aberta para o campo de canavial vazio, representando a solidão daquele espaço. O descuido e a pobreza também são evidentes, com paredes descascadas e móveis gastos, nos quais as mulheres à espera. Uma delas, Bela, expõe seu desagrado e verdadeiro asco pelas práticas sexuais a que é submetida. É a única.

“Tu quer arrombar o cofre? Quer arrombar? Abre as pernas da menina, caralho!”. A puta, virgem, que se torna puta, violada, sem nunca deixar de ser virgem. Os gritos de Dorinha são sufocados pela mão de um dos “agroboys”, enquanto Everardo a violenta com um pedaço de pau e o outro participante do crime faz gestos sexuais com uma garrafa de bebida. “Preta, puta e pobre. Tem que tomar no teu cu, sua filha da puta”, “Fode ela, caralho” e “Viu só, sua rapariga” são alguns dos insultos proferidos pelo agressores.

A dada altura no filme Auxiliadora é violada.”Você é minha, minha”, “Dói não, lindinha”, “Tome, pirralha” e “Tome, cabaça”. Após o crime o agressor chama a Auxiliadora “lixo”. Quando volta para casa, Auxiliadora é recebida pelo avô com gritos de “Você me traiu? Traiu a confiança?” e, apesar de ver a situação de violência que a neta sofreu, ele assume a culpa como da jovem, como se ela tivesse provocado o que sofreu,

As histórias de Baixios encontrei-as repetidamente ao longo dos últimos vinte anos por todo o mundo.

Com mulheres, homens e meninas abusadas e violadas aprendi varias coisas:

A vítima não tem delírios

A vítima nunca tem culpa

Sem excepção os culpados são sempre os acusadores e cúmplices são todos aqueles que memorizam um crime de abuso físico e psicológico como o é a violação.

A vítima é incómoda ? É. Põe-nos perante escolhas éticas e morais. Entre o ser pessoa ou ser gentalha.

Pela vítima sempre.

Desculpem-me as “pessoas sensíveis” ou as boazinhas a quem “isto”, o sofrimento de outros, não interessa.


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