Da solidão

uns anos fiz um retiro espiritual de uns dias num mosteiro alemão. A principal das regras era o silêncio. Quebrado apenas durante as espartanas refeições. Todas as orações eram feitas em silêncio. Abandonei tudo o que ligava ao mundo exterior, nem a leitura era permitida. Permitiam-se longas caminhadas pela montanha onde ficava o mosteiro e a contemplação. Houve momentos em que me sentia a pintura mais famosa do Edvard Munch.

Oriunda de uma família grande e ruidosa, com boa parte da minha vida passada em países em conflito ou pós-conflito, a experiência foi uma dolorosa viagem ao interior de mim e a lucidez do silêncio devolveu-me a minha finitude e uma profunda solidão. Nunca me senti tão , acompanhada e acho que foi nesses dias que despertei para a solidão de outros.

Com o passar dos anos foi conhecendo pessoas profundamente solitárias, algumas cujo Natal é passado no sofá, com um copo de vinho na mão e a ver um filme ou simplesmente a deixar os dias correrem, falo de adultos ainda no activo e que por circunstâncias da vida se viram sozinhos.

Pensar que controlamos nossa vida é uma das grandes ilusões contemporâneas, mas não passa disso mesmo, uma ilusão. Aprendi-o com as viagens e as vidas de tantos que ma confiaram. Eu tive o privilégio da geografia, eles não.

Várias correntes do budismo consideram que o que nos faz sofrer é o apego, eu discordo: o que nos faz sofrer é o desapego, a indiferença, a falta de empatia. Precisamos de muito mais apego aos outros.

Como muitos tive alguém de gostava muito, um amigo, que me traiu de forma soez. Muito tempo depois falamos sobre a atitude dele, “ nem me lembrava porque nos afastamos“, consegui perdoar a traição, porque o sei alguém profundamente só, por escolhas e muitos erros, a amizade está depositada no mausoléu dos velhos amigos, pessoas que foram importantes em momentos da nossa vida, porém que é melhor manter à distância guardando apenas os momentos felizes.

A minha doença ensinou–me da forma mais dura e inesquecível, que existe uma realidade interna para a qual nunca olhamos, somos surdos à nossa solidão e à dos outros.

Haverá poucos locais mais solitários que uma cama de hospital. Ali despojados, amarrados a fios, a oxigénio, somos uma espécie de frágil Dhow à mercê dos ventos. Montesquieu terá dito com algum exagero: “não há nenhum desgosto que uma hora de leitura me não console.” Mãos amigas fizeram-me chegar livros. Reli o Borges Coelho e o seu magnífico conto sobre a Ilha de Moçambique de que retive uma frase: 

“Como em todas as ilhas, também aqui os habitantes são inquietos, olhando o continente com desdém, outras vezes como se o desejassem. Nunca se decidindo, todavia, a alcançá-lo.” Não sou ilhéu, preciso de pontes. 

Neste Natal pensei nos meus amigos perdidos, pensei nas solidões de tantos e pô-los todos numa prece. Precisa-se de apego, muito mais apego.


One thought on “Da solidão

  1. Quando li o seu texto pensei logo que não me importava nada de passar o Natal sozinha com um bom livro ou filme em vez de ter de aturar conversas de circunstância com familiares que não suporto.
    Palavra de honra que o meu maior desejo, no que ao Natal diz respeito, é passar a noite de Natal a bordo de um avião e desembarcar no dia de Natal num sítio onde esta quadra não tenha qualquer importância…

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