Das fragilidades e da força

1. Muitos portugueses conhecem o Wolfgang, embora o conheçam pouco e o tenham julgado demasiado rápido. Kohl que tantos admiraram teve nele a sombra meticulosa que assegurou, num extraordinário trabalho jurídico, a reunificação alemã. Mas não vou falar de política, nem de direito ou de história. Vou falar de pessoas a quem há quem pergunte: “porque vives?”

2. Apresento-vos o Peter, sobejamente conhecido e admirado na Alemanha, condecorado com a mais elevada ordem civil.

O Peter nasceu em 1943 com uma doença rara Osteogenesis Imperfecta. Uma condenação à morte, mesmo sendo alemão, durante a treva nazi. A mãe escondeu-o do regime. Amou-o. E dele fez-se qualquer coisa. Estudou germanística e filosofia. Doutorou-se com uma tese sobre “Fragilidade” em Rabelais, Diderot e Claudel. Casou. Adoptou uma menina chinesa Bao Lei.

Interpretou Beckett, Kafka, nos grandes palcos alemães, em Berlim, em Munique, também em Zurique na Suíça, fascinando a crítica e o público. Chocando também. Nunca se escondeu. Nunca a sua deformidade foi um tema. “O que é normal ? Eu sou normal. A minha infância foi dolorosa, mas bonita. A minha vida é bonita. Nunca se esqueçam da solidariedade, da humanidade”.

Foi membro da Comissão Nacional de Ética alemã.

3. Para quem fale alemão aconselho a leitura da imensa obra que tem publicada. Deixo apenas uma frase de uma conversa célebre na Alemanha, entre ele e Wolfgang ( que foi ministro numa cadeira de rodas, o Bundestag adaptou-se, e presidente do Parlamento, “ quem já não conhece valores, agarra-se a normas”.

4. Alguém escreveu em comentário no meu mural “quem não tem que levar com as fragilidades de ninguém”. Merece-me dois comentários: Wolfgang foi vítima de um atentado que o deixou numa cadeira de rodas, nasceu “perfeito”, Peter nasceu “imperfeito” e fez da fragilidade força. Por ele, por tantos como ele, e por nós “normais” que tantas vezes somos cruéis. Porquê? Porque o sexo , morte, a solidão e a fragilidade, que sempre foram o alimento da literatura, representam o que de mais visceral existe em nós e o que mais tememos.


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