Caleidoscópio

Há dias assim. Sufocantes. Diante de mim uma evidência. Já gastei talvez três quartos do tempo máximo que me foi reservado na Terra, talvez mais. Não tenho outro remédio senão admitir a minha fragilidade, o meu fracasso.

Queria ter feito mais, melhor. Faltam-me as forças. Tentei como escreveu maravilhosamente Eliane Brum, a propósito de ser forte, ser forte é cuidar dos barcos de papel, nossos e dos outros, “não como uma criança que os imagina poderosos, de aço. Mas sabendo que são de papel e que podem afundar de repente”.

A vida permitiu-me rasgar a cortina e vislumbrar para além da geografia confortável. Quase numa travessia de identidades. Vidas tão diferentes da minha, que me tocaram tanto. As viagens trazem à tona o pior ou melhor, depende do olhar. Tenho pendurado entre os meus vestidos um vestido feito à mão, no deserto do Kalahari, pela mãe de uma aluna minha. Tem cores garridas, exuberante,s se fechar os olhos consigo mergulhar no puro ascetismo do deserto, com as suas faixas no céu do anil ao cor de rosa suave quando sol se põe,  e no abraço daquela mulher de cabelo entrançado,  daquela mãe. Das mãos dela bebi leite azedo numa cabaça. Se fechar os olhos vejo as bomas do Quénia, as tabancas da Guiné, as barracas de zinco ondulado cobertas de poeira ocre, sinto a humidade no ar das nuvens amontoadas no céu, num prenúncio de tempestade. Sinto os cheiros, a fruta, o suor, a morte. E o gotejar da malária, o frio do cacimbo, a chuva das monções.

Trouxe do Cambodja uns brincos e um pendente feitos de projeteis vazios. Transportam-me além da geografia e do tempo, são meu monumento pessoal à sobrevivência, minha, das tantas vezes que a vida quase me escapou – quem teve uma arma apontada ao externo ou dormiu sob bombardeamentos gasta as vidas de um gato – e memória dos outros que em mim habitam. Eu, europeia deixei para trás muitos infernos, os meus alunos, os que comigo se cruzaram ficaram lá.

De cada vez que viajei para dar aulas ou trabalhar em países em desenvolvimento ganhei mundos e um sentido de partilha. Ainda hoje nasço das histórias deles que habitam em mim.  Talvez por habitar em mim aquela criança de 4 anos a quem os militares birmaneses cortaram o braço, só porque sim, talvez por habitarem em mim as mulheres violadas por soldados e por baionetas, talvez por habitar em mim o Elliah, o menino órfão sul-sudanês que me disse “school is mother, school is father”, talvez por isso me toque tão fundo o egoísmo europeu. Eu vejo-me neles. Vejo-me meu motorista cairota que me levou a tomar chá com a mãe numa zona do Cairo interdita a ocidentais, vejo-me nos filhos dele, alunos exemplares, elas e eles, que dormiram abraçados aos brinquedos que lhes levei. “Nunca tinha tido uma bola, eu sonhava com uma”.

São peças do meu caleidoscópio interior.

africa-boy-brick-wall-1686467.jpgHoje é o dia em que abandono o Facebook. Que se tornou num monstro que nos pode golpear sem aviso. Uma máquina trituradora sem coração. A minha presença era activista, a de procurar mostrar outras perspectivas, a de mostrar o Outro, aquele que por um acaso da geografia não teve as oportunidades que eu tive. Sim, sinto culpa. Onde há amor, há culpa.


2 thoughts on “Caleidoscópio

  1. Helena, certamente que o “tempo” num blogue correrá menos célere. Os utilizadores de redes sociais tornaram-se/são? rápidos no gatilho e mortais. Os meus votos de boas viagens.

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