A mulher transparente

Olhar para ver é um acto diário de resistência. Contar a violência pelos olhos da vítima é um exercício brutal, mostrar uma imagem inteira dessa pessoa e com isso aproximá-la do leitor para que não possa ser ignorada e se torne inescapável é fazer um delicado trapezismo na corda das emoções que a violência doméstica evoca.

Quando terminei de ler A Mulher Transparente pensei ter lido um livro bom com alguns momentos excepcionais, depois o livro colou-se mim. Passei dias a interrogar-me sobre questões nada fáceis suscitadas por ele.

Retenho de Clara uma fotografia que nunca chegou a ser tirada, porque Clara existindo, a história dela é a da vida de tantas Claras, não existe, é uma personagem.

Essa fotografia tem, teria, som: o ruído das botas a subir as escadas, a cadeira a ser derrubada, os gritos do marido e antes dele da mãe de Clara, e o silêncio. Num mundo em dissonância como o das vítimas de violência doméstica o silêncio esmaga. “Seria preciso inventar uma língua que usasse palavras mais clarividentes para traduzir o silêncio que tomou conta de mim depois do Meireles me ter dado a primeira sova. Os significados passaram a ser nublosos porque as palavras conhecidas não tinham recursos para contar a história do meu sofrimento”. Logo nas primeiras páginas é capaz de desnudar as sutilezas da violência emocional e a nada subtil violência física de que a personagem feminina é vítima.

Não existe uma vítima sem que exista um agressor e neste romance, os papéis de vítima de algoz têm contornos menos definidos do que os que gostamos de pensar. A própria Clara, vítima do abuso emocional da mãe, de uma sogra obsessiva compulsiva, “pro- vavelmente, na sua própria alma devia haver uma espécie de gavetas onde conservava em naftalina as suas obsessões bem ordenadas”, fantasia uma vingança contra o agressor que acaba por falhar. “Se em vez de arsénico for estricnina, os efeitos serão mais lentos e a minha vingança mais prolongada. Contracturas tetânicas, refere a enciclopédia. Nesse caso, o seu corpo será sacudido por dolorosos espasmos, dando-lhe tempo para entrar em pânico. Consigo ver-lhe os olhos a revirar como se estivesse a ser empurrado para a antecâmara da agonia. Olhos assombrados por um terror idêntico ao meu. Dispneia e paralisia res- iratória são os efeitos que conduzem à morte. Ouço a sua respiração ofegante, os pulmões a asfixiar. O rosto vermelho a ficar cinzento, os dedos agitando-se sobre o peito, tentando ainda vagamente desapertar os botões da camisa. Por fim, os lábios a soltarem um derradeiro gemido antes de se recolherem ao silêncio. E eu a assistir a essas crispações e angústias com indiferença, sabendo que, quando ele fechasse os olhos de vez, conheceria finalmente a paz”.

Num casal não existe agressor sem vítima e sem que a dado momento tenha existido um encontro. Embora nem sempre nos lembremos os encontros só acontecem quando um tem o que o outro busca. “Quando conheci o Luís Meireles, o meu marido, acreditei que o destino me favorecera e que, pela primeira vez, decidira conceder- me uma oportunidade. As horas de transe que passava na biblioteca passaram a ser invadidas pela imagem do meu marido. Tinha descoberto que experimentava com ele uma felicidade indiscritível que nunca sentira antes. Aos dezoito anos, tinha a sensação de ser uma rapariga insignificante, na verdade, transparente”.

Entender esse encontro e o que faz com que se permaneça numa relação violenta importa para quebrar a espiral da violência e criar outra identidade que não seja a da vítima nem a de agressor. Perceber a violência e as suas causas, perceber o que transforma uma relação amorosa numa relação de violência, não é legitimá-la, nem desculpá-la. “Cada escolha que fazemos tem a sua história. Quantos momentos recalcados da nossa infância ficam à espera de uma saída? A oportunidade de me salvar pareceu-me ter chegado quando conheci o meu marido”. Cada escolha tem a sua história, e este livro desafia-nos a vê-las, sem as julgar, a tocar vidas onde parece não haver saída de emergência. É nos detalhes que vamos pressentindo a aproximação da violência e a sua escalada. “A princípio atribuía-os a uma espécie de génio maligno que infectara o Meireles e que, tal como um vírus, não lhe pertencia, apesar de circular na sua corrente sanguínea. Convencia-me de que aquelas atitudes passariam como qualquer doença que tem de seguir o seu curso. Até porque, depois de me bater, ele pedia-me sempre desculpa, ajoelhava-se, dava-me prendas para provar o seu arrependimento. Agora já não acredito nos seus remorsos e, aliás, ele deixou de me pedir perdão. Sei também que não lhe posso escapar. A fuga está-me interdita. Por mais longe que conseguisse ir, ele acabaria por encontrar-me. Várias vezes ameaçou matar o nosso filho se o tentasse. Tirou-me tudo, aquele a quem eu ainda chamo “o meu marido””.

Ana Cristina Silva transporta com mestria o leitor para o mundo interior de Clara, a sua angústia, o medo, a quase crença na omnipresença do agressor, crença que leva Clara, e tantas mulheres a ficarem paralisadas, a esconderem a violência, a tentar enganar todos, com isso enganando-se a si. “Porque não o deixa? Porque não faz queixa à polícia?” pergunta Mário, um estranho. “Aquele homem espreitara para o fundo da minha vida, vira as feridas e os destroços.” Não é possível enganar toda a gente.

O romance A Mulher Transparente na sua complexidade mexe com o nosso lado sombrio, faz-nos pensar até que ponto nos submetemos nos relacionamentos, nos anulamos. A força desta obra está em envolver-nos e falar com partes mais ou menos invisíveis de nós. Podiamos ser nós? Algozes e vítimas?

Quando as mãos deixam de circunavegar o corpo. Quando a paixão se desbota e se reedita a existência, as lágrimas lavam a poeira dos olhos, mas haverá cílios que apaguem as poeiras do coração, que amachuquem o silêncio, que contestem a secreta desistência de si?

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2 thoughts on “A mulher transparente

  1. Helena, não escrevas Pósfácios, escreve um livro! Ou já escreveste? Não sei nada de ti. Ainda te lembras de mim? Sou o tipo dos 3 Bs: Brille, Bart und Bauch

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