“A Festa do Chibo”

1. Em 2016 a D. Quixote reeditou o romance de Mário Vargas Llosa “A Festa do Chibo”. A obra transporta-nos até à República Dominicana e ao consulado do ditador Trujillo – anos sessenta -, o “generalíssimo”, “chefe” ou “benfeitor”.

A história decorre no passado traçando um retrato o da crueldade e do terror, onde em paralelo corre a semente da revolução numa cidade que se passou a chamar Trujillo; e no presente, onde a personagem feminina Urania, que aos 49 anos, depois de três décadas sem pisar a terra natal, regressa para enfrentar a ruína em que se transformou o seu pai – ele próprio um fiel servidor de Trujillo -, arrumando de vez um passado que lhe deixou traumas eternos.

A obra é actualíssima do ponto de vista político, mas não apenas. O Nobel descreve de forma magistral um país mergulhado na ditadura e no terror e mostra como uma democracia pode, também ela, assentar em estilhaços pintalgados de sangue, onde a linha que separa os lobos dos cordeiros é do mais ténue que se pode desenhar.

2.  Urania ajuda-nos a perceber, a tocar a memória do abuso que é “decisiva para a luta política e social contra o fenómeno. Não é possível fazer verdadeiras mudanças sociais, esquecendo o sofrimento das vítimas de um sistema social, político ou familiar. A preservação da memória é uma forma de resistência e de luta”, como escreve Maria Clara Sottomayor.

Urania foi violada, com 14 anos, pelo ditador, a quem o seu pai, um importante senador do regime, a entregou, para esse efeito, como demonstração de lealdade. O narrador descreve, em diálogo com Urania, a dimensão dos sentimentos de raiva de Urania, contra o seu pai, autor moral do crime e mais odiado do que o autor material.

(…) “Detesta-lo? Odeia-lo? Ainda? “Já não”, diz em voz alta. Não terias voltado se o rancor continuasse a crepitar, a ferida a sangrar, a decepção a esmagá-la, a envenená-la, como na tua juventude, quando estudar, trabalhar, se converteram num remédio de obsessão para não recordar.” Então sim odiava-lo. Com todos os átomos do teu ser, com todos os pensamentos e sentimentos que te cabiam no corpo. (…)”

(…)“Ele tinha setenta e eu catorze – precisa Urania, pela quinta ou pela décima vez – (…).
(…) Ela não resistia; deixava-se tocar, acariciar, beijar, e o seu corpo obedecia aos movimentos e posições que as mãos de Sua Excelência lhe indicavam. Mas não correspondia às carícias recebidas, e, quando não fechava os olhos, mantinha-os cravados na ventoinha do tecto. Então, ouviu-o dizer para consigo: “Rasgar a coninha de uma virgem excita os homens”.

(…)“Tenho quarenta e nove anos e ainda me sinto a tremer, uma vez mais. Estou a tremer há trinta e cinco anos, desde esse momento”.

3. Não apenas pelo prazer da escrita, um livro a ler.Já.

 

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