Porque se calam?

Em 2010 uma europeia viajou para um país africano desses que quase ninguém sabe localizar no mapa. Tinha como alojamento uma cabana de madeira individual, como as que existem em muitas unidades hoteleiras africanas. Diariamente era acompanhada por um motorista/segurança local porque naquela zona de fronteira os assassínios ou os raptos eram banais. A rotina era sempre a mesma: o motorista recolhia-a, levava-a ao local de trabalho e ao anoitecer deixava-a na cabana.

Uma noite, já bem depois do jantar, o motorista bateu à porta trazendo um recado da directora da televisão da qual a europeia era mentora. A mulher abriu a porta e foi atirada para o chão por uma hiena esfaimada. Rasgaram-lhe a tshirt, bateram-lhe, estrangularam-lhe o pescoço que se enfeitou com um negro colar maldito. A mulher resistiu, mordeu, gritou, lutou, conseguiu pôr o homem em fuga. Ninguém acudiu a mulher. A mulher não fez como nos filmes e tomou um longo duche, enrolou-se como um tatu bola e chorou até de manhã.

Na manhã seguinte colocou um lenço em torno do pescoço, maquilhou-se, ajeitou os estilhaços internos e foi trabalhar como num dia normal.

A mulher não apresentou queixa da tentativa de violação. Era uma estrangeira, num país distante, que abriu a porta do quarto a horas impróprias a um homem. Naquele país esse gesto era suficiente para ser considerada uma puta, uma galdéria, uma “estava a pedi-las”.

A mulher durante muito tempo não conseguiu falar daquela noite. Continuou a viajar sozinha. Coloca uma cunha de madeira na porta de todos os quartos de hotel onde dorme e está ainda mais atenta aos sinais.

Há muitas razões para uma vítima não apresentar queixa, não preciso que mas indiquem, porque a mulher nesta história sou eu.

Escrevi este post há uma semana no meu mural de Facebook, não esperava as reacções. Não me foi fácil pronunciar o que se tornou silencio sem o ser e por ser assim tanto feriu.

Como jornalista, como pessoa, acredito que o grande desafio quotidiano e o acto de resistência é olhar para ver, é perceber os silêncios e os invisíveis. Depois desta publicação chegaram-me três dezenas de relatos, de mulheres e homens, violados ou abusados. Em comum? O silêncio.

Conta a A. “ao aparecer, desgrenhada, em pânico, a esplanada explodiu em riso. Confusa e em choque, correu rua abaixo, apanhou um autocarro. Tremia e um fio de sangue escorria pelas pernas, para dentro das botas da tropa. Os adultos presentes olhavam para ela, mas nem um se dignou a perguntar se precisava de ajuda. Chegou a casa e meteu-se no chuveiro, enrolada como um bicho de conta. Horas debaixo do chuveiro. Para tirar a porcaria. Mente em branco. Quando os pais chegaram, ela saiu da banheira e meteu-se na cama. Tinha febre. Ficou na cama dois dias a dormir. Doente, certamente, pensaram os pais. Na segunda feira foi para a escola. “Se fingir que não aconteceu nada é como se não acontecesse. Será que aconteceu? (…) Nunca fez queixa, nunca contou aos pais, nem sequer aos amigos que fez depois. Se os pais soubessem iam pensar que tinham falhado, e eles tentavam tanto não falhar, dar-lhe o melhor que conseguiam… Se contasse ia ser outra vez “a violada”, “a maluca”, “a mentirosa”, “a puta”. Se ninguém souber, é mais fácil fingir que não aconteceu e viver normalmente. Mas aconteceu. E não se vive normalmente. E não passa. E passaram 25 anos”.

A vontade de condenar as vítimas – pelo silêncio, por não terem reagido, por, por – numa sociedade sempre pródiga em presentear os perpetradores com a impunidade, é imediata. É necessário porém resistir-lhe. Ninguém deveria poder decidir por uma vítima como vai lidar com uma violação ou cometer a indignidade de a julgar.

A dor só se torna palavra escrita depois de respirar dentro de cada um como um pesadelo.

Deste desabafo vai nascer um livro para dar aos leitores as texturas do inferno pessoal, as nuances da resiliência e para que ao tocar a  dor dos outros, ao sentar-se na sua cadeira de pregos, se torne inescapável reconhecer que a violência sexual deixa marcas para vida, não é uma bagatela. Há que preveni-la, há que educar, há que criar as condições para que as vítimas denunciem e os perpetradores sejam condenados.

A vida doeria um pouco menos se cada um se esforçasse para vestir a pele do outro, antes de julgar ou condenar.

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