O outro lado da Guerra Colonial

Nas histórias que me contavam quando menina o que me fascinava não era a moral da história, o final mais ou menos feliz, e sim os detalhes, os twists, os episódios que me suscitavam sorrisos. Faço aqui um parentesis, o sorriso hoje é uma dádiva tão excepcional que quase só se concebe para muito próximos ou pessoas da minha estima. Nas mentes parece haver um letreiro luminoso: “não se desperdiçam sorrisos”. Socorro-me da teimosia, sou uma perdulária de sorrisos. Fim de parentesis.

Tenho andado afastada do blogue, das viagens e do aconchego da escrita. Concentrada numa feroz solidão, a da escrita académica ( que dissolve qualquer veleidade criativa) e a medir forças com uma cardiopatia rara ( ah a ilusão inútil de sermos únicos). Num intervalo semelhante àqueles sorvetes de limão entre dois pratos, para limpar o palato, caiu-me em mãos (eufemismo para a minha não resistência a todos os livros que tenham a ver com a Guiné e a Guerra Colonial) um livro delicioso. Pleno do conforto dos detalhes. Em “O Outro Lado da Guerra Colonial” de Dora Alexandre cruzamo-nos com os homens e as suas memórias prosaicas, algumas tão, mas tão divertidas.

As bajudas guineenses, como as ostras, fazem parte do imaginário colectivo de quem  por lá passou. Várias foram a tentativas ( o pudor a sobrepor-se à cultura) de lhes tapar os seios. A mais deliciosa delas coube a uma missão católica em Farim. As boas das irmãs mandaram vir camisolas da Europa, com um pormenor:eram de lã. Que fizeram as bajudas numa inocente subversão? Vestiram as camisolas recortando estrategicamente dois círculos concêntricos para arejar vocês sabem o quê. Maravilhosas são também as histórias com o picante (piri-piri ou jindungo). Pouco habituados ao fogo africano os militares não queriam dar parte de fracos e  pediam “tudo a que tinham direito”. Não correu muito bem. Houve momentos onde a coragem falhou mesmo aos mais bravos. Numa aterragem de um  voo do mato para Bissau a parturiente teve o bebé no momento do impacto da aterragem . Piloto e mecânico não queriam acreditar. A enfermeira paraquedista que ia a bordo estendeu a tesoura ao mecânico – conhecido como “Pichas” – para cortar o cordão umbilical. Acabaria por ser ela faz-lo. Não pude deixar de sorrir.

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