Os ténis brancos  

Fotografia de Helena Ferro de Gouveia, Kakuma 2016

Há alturas em que despertava sobressaltado a meio da noite com receio de ser descoberto. Apareciam-lhe personagens, vindas de um canto obscuro e desconhecido da sua mente. Escutava suspenso, com os ombros contraídos e as mãos fechadas, quando tinha a certeza que não ouvia nada e o medo se esfumava voltava a adormecer. Geralmente acordava antes da alvorada hora em que Odenigbo ainda dorme.

Ugwu apertou as costas contra a parede de betão gélida. Sentiu um arrepio de prazer nos músculos tensos. O Harmattan que há dias varria a cidade trazia areia e o calor de guilhotina do deserto. A cisterna subterrânea era, na estação seca, um bom local para dormir, pensou. Quase um milagre ninguém ainda a ter descoberto. Lugares bons para dormir nos arrabaldes dos arrabaldes da cidade são tão raros como uma barriga cheia.

A noite resvalava para o dia e Ugwu apreciava aquele momento puro, instante raro antes de lhe cair em cima toda amargura do mundo. Subitamente o irmão remexe-se sobre o pedaço de cartão estendido no chão. Está deitado de lado e as mãos servem-lhe de almofada. Os estremeços de garganta tornavam-se mais fortes. Movia a boca sem palavras. Pálpebras bem cerradas. Tocou-lhe no ombro com suavidade.

– Schhhhh. Acorda, é apenas um sonho.

Odenigbo acordou. Chora como uma criança na ilusão de ser escutada, alguém se esquecera de dizer aos dois irmãos que a ajuda não vem. Pérolas de suor brilhavam na testa de Odenigbo. Ugwu secou-lhe as lágrimas. Ofereceu-lhe a consolação que as palavras conseguem e que por vezes tem o condão de acalmar. Já não há horror nas suas pupilas. Apenas apatia.

– Os grandes guerreiros Ibo não têm medo.

Mesmo guerreiros em fuga não têm medo, pensou. Durante muito tempo o mundo era o lugar onde nasceu. Durante muito tempo julgou que o mundo era: os pais, os irmãos, as vacas, a aldeia em Maiduguri. Depois o mundo estilhaçou-se em cacos. “Nunca vou esquecer o olhar da mãe. Grita com os olhos. Chora sem ruído e sem um músculo que estremeça sequer. O pai de olhos baixos. Nunca foi especialmente falador”. Depois: pam, pam, pam. Os tiros a queima-roupa. Os gritos de Allahu akbar e Nós somos o Boko Haram. A escola queimada. As casas queimadas. O cheiro a morte. As raparigas e os rapazes atordoados, arrastados para os camiões aos empurrões. “Para onde nos levam?” perguntam-se uns aos outros. As suposições misturam-se com testemunhos das atrocidades que sofreram. Sente medo nos olhares fugidios dos restantes cativos e esconde o seu no fundo do próprio peito. Durante o tempo que durou a viagem adormeceu, entorpecido, abraçando o irmão, tentando calar a angustiante sensação que nunca mais voltaria a ver seu mundo. Em bom rigor não se lembra quanto tempo esteve no camião, é irrelevante. Sabia que estava destinado a sobreviver. E foi aí, nesse caldeirão violento onde fervem os instintos, que encontrou a força suficiente para saltar do camião. Antes enfrentar a morte que o destino que os seus captores lhe reservavam.

Odenigbo continuava com os olhos marejados de lágrimas. A criança magra, de pernas esgalgadas e altas tremia. Ugwu olhou para a ferida aberta no pé do irmão. “Precisa de chinelos. As ruas estão cheias de vidros afiados”, pensou. Sacudiu a areia dos pedaços de tecido que já foram uma tshirt amarela.

– Um dia compro-te uns ténis brancos. Uns Nike. Verdadeiros. Não as falsificações que se vendem no mercado.

Apesar de serem as primeiras horas da manhã a cidade havia há muito despertado. Carrinhas de transporte cheias, okada, carros vorazes. Uma cacofonia de buzinas soando com múltiplos ecos desgastadas ate a ausência de sentido. A vida? Talvez seja assim. Cruzamentos sem regras. Uma intermitência entre a dor e a dor.

O caos tornava-os invisíveis. Ninguém reparava no adolescente alto e no seu irmão que assomam de um buraco na terra, protegendo os olhos da luz exterior. A areia tornava o ar da manhã irrespirável, magoava nos lábios crestados. Ouvia as pulsações do coração e sentia as contrações de dor do estômago. A ultima refeição fora há um dia. Atravessaram a rua a andar depressa, depois a correr para que os automóveis não os atropelassem. O restaurante de Adakae ficava a vinte minutos a pé da cisterna e perto da prisão. Cumprimenta-a com uma cortesia invulgar em Abuja, a cortesia dos apaixonados. A rapariga esta de pé, de costas para a rua, a balançar o corpo enquanto mexe a panela da sopa picante. O restaurante de rua, famoso entre os visitantes da prisão, resumia-se a um fogão de barro, uma enorme panela de alumínio amolgado e duas mesas, de pernas tortas, de plástico vermelho desbotado. A sopa Ogbomo fumega nas malgas plásticas. Com a barriga cheia os irmãos sentem-se como recém-nascidos.

– Quando encontrar o meu tio pago-te.

– O teu tio é rico?

– Claro todos na Europa são ricos. Em breve vou para a Europa e deixo de viver na rua.

– Onde é que o teu tio está?

Retira um papel amarrotado dos calções que a mãe lhe havia entregue pouco antes de morrer. Nele apenas uma palavra: Bona.

– É um lugar que fica na Europa. Não sei bem onde.

– Queres ir para a Europa? Tens ideia de quanto custa?

– Estou a poupar todos os dólares que recebo e nunca esquecerei o que fazes por nós.

Antes de Adakae poder ripostar chega a mãe carregada de sacos, caminhando com a fúria de um búfalo de água pronto a investir.

– Daqui para fora. Já. Ladrões

Ladrão. Era essa a palavra. Nesta cidade todos roubam, ricos e pobres, até os polícias. Na Nigéria todos roubam, pensou. Mas, nada dá mais prazer às pessoas do que caçar um ladrão e o linchar. Já viu ladrões ou apenas suspeitos de o ser serem, perseguidos por uma multidão com os dentes cerrados, as têmporas tensas, e cobiça sanguinária do caçador a brilhar nas pupilas. Respira com uma ansiedade crescente, agarra a mão de Odenigbo e começa a correr. Só quando chegaram a uma ruela esconsa pode suspirar. “Foi por pouco”. Percorre atalhos até chegar ao trabalho.

Conheceu Odongoo quando chegou a Abuja. A sua casa de tábuas e zinco ondulado estava sempre cheia de fumo de cigarro que se impregnara nos poucos móveis: um sofá cama que abria à noite e fechava de manhã, uma estante de contraplacado para livros -quatro ou cinco romances, uma bíblia, um ou outro livro e poesia – uma esteira e duas cadeiras de madeira. Nas paredes desenhos a lápis. Por se situar no interior do pátio traseiro de uma empresa estrangeira a casa tinha uma torneira e água corrente. Um tesouro. Odongoo era um homem de cerca de sessenta anos e cinco, seco e ossudo, que não gostava de falas desnecessárias para não trair a bondade do seu coração. Quando encontrou os irmãos escondidos no pátio estes não comiam há dias.

-Querem chá e uns doces? Sim? É beber e andar que não vos posso ter aqui.

– Obrigada.

– Conta-me o que aconteceu.

Com delicadeza foi inquirindo Ugwu. Ao ouvi-lo teve dificuldade em reprimir o impulso de os abraçar. Acariciou-lhes paternalmente a cabeça. Odongoo aparecera em Abuja há tanto tempo que pareciam séculos, fugido de um amor mal correspondido. Nunca teve filhos de sangue, tinha incontáveis entre os meninos de rua que protegia.

– Se quiserem ganhar uns dólares dou-vos trabalho, disse.

E foi assim que os irmãos começaram a lavar carros de expatriados, esses seres joviais que mudam de país de vida sem dificuldade apegados a nada, íntimos de tudo. A comunidade dos expatriados de Abuja gasta os dias em festas, umas acções de caridade aqui e ali,jantares, bebedeiras, em hotéis de onde nos terraços se avistam com crepúsculos poéticos. Sim, existe a beleza e existem os humilhados.

Odenigbo mergulha o pano no balde de água e esfrega os pneus diligentemente. O automóvel é um Mercedes preto. Novíssimo. “Um dia acabo a escola e quem sabe posso ser engenheiro, desenhar carros numa empresa alemã”. Volta a mergulhar o pedaço de tecido na água turva. Afaga a pintura com mãos de mãe a distribuir carícias. Todos os dias a mesma rotina. Cisterna, lavar carros da alva ao crepúsculo e guardar numa lata os dólares que vai ganhando. “Um dia eu vou para a Europa e encontro o meu tio. É a única família de sangue que me resta”. Se Ugwu lesse os clássicos talvez soubesse que da caixa de Pandora, que encerrava todos os males da humanidade, em último lugar os gregos fizeram sair a esperança por a considerarem o mais temível de todos.

Por vezes o acaso, de acaso nada tem. Ao baixar-se vê a carteira ali no chão. Com tantas notas de dólar como jamais havia visto. “Deus vai-me perdoar, mas quem sabe na Europa o meu irmão volte a falar e nunca mais vai ter de caminhar descalço”. Retirou as notas verdes da carteira negra de pele macia e escondeu-as nas cuecas. Separou uma de cem dólares.

– Toma, disse.

Colocando a nota muito dobrada na mão de Adakae.

– Um dia venho buscar-te mais bela flor de África.

A rapariga sorriu exibindo uma fiada de dentes alvos, perfeitos. Tinham-se conhecido dia em que um condutor de Okada embriagado a tinha atropelado e fugido. Ele e o irmão levantaram-na estrada e levaram-na ao hospital, não conseguiram impedir a fúria da mãe e nem o espancamento que se seguiu “por andares com a cabeça na lua”. Desde esse dia que a única refeição quente dos irmãos era feita bem cedo enquanto a mãe de Adaeke ia ao mercado.

Quando se mora na rua conhecem-se todo o tipo de pessoas. Chegar ao traficante de pessoas que os havia de levar até à praia de onde tentariam a travessia para a Europa foi fácil.

– Tens o dinheiro? Para ti e o teu irmão?

Anuiu. Acordaram o preço. No mercado comprou dois pares de chinelos, jeans usados, uma tshirt do Didier Drogba para si e uma do Barcelona com o número 10 para o irmão

e dois casacos grosseiros. Durante dois meses viajaram através do deserto. Cruzando a imensidão africana com o destino suspenso. Da Nigéria até Marrocos. Atravessaram fronteiras clandestinamente, sempre de noite, pagando em cada uma um tributo em dinheiro. Até ao porto marroquino de Tânger de onde fariam ao mar. Chegaram num domingo de nuvens a entristecerem a tarde. Há dias que uma chuva sem trégua caia sobre Tânger. Do alto de um céu que parecia infinito aguaceiros viscosos de tanta espessura desabavam sobre o Mediterrâneo. Na manhã seguinte os irmãos entraram num Zodiac sobrelotado rumo à orla espanhola.

– Não tenhas medo. Vamos encontrar o tio e vou comprar-te uns ténis brancos.

Têm roupa húmida e tiritam de frio. Passam as horas entre dores, o entorpecimento e lampejos inconscientes do que viveu nos últimos dias: os camiões, os check-points, o calor abrasador do deserto.

Ugwu afasta o olhar das águas, na sua mente flutuam, como faúlhas de uma fogueira, ténis brancos. Sabe que o alheamento do irmão não é mais que o resultado do sofrimento pelo qual passou. O que aquele miúdo carrega nos ombros foi-lhe infligido por outros. Mas na Europa tudo será diferente.

Postfácio:

Num dia comum em Ajdabya, nordeste da Líbia, os homens que guardam o campo bebem e fumam cannabis. Depois entram no campo e escolhem o troféu que querem.

Ramya, uma belíssima eritreia de 22 anos conta “com uma arma apontada à cabeca não tens grande hipótese de resistir se queres sobreviver. Fui violada duas vezes por três homens… não queria morrer”.

Numa tarde comum, no campo de refugiados turco de Nizip, na zona de Gaziantep, perto da fronteira com a Síria, a insanidade. Crianças que estiveram a um quase da morte são abusadas. Mais de trinta, em 2016, com idades entre os oito e os 12 anos.

Numa noite comum em Dunkirk, no norte da Franca, mulheres e meninas usam fralda durante a noite para não terem de ir à casa de banho do campo. Adivinham vultos na escuridão.

Os Gynaecology sans Frontières falam de crianças de sete e oito anos vítimas de violência sexual. No campo há mais de uma centena de menores não acompanhados.

Num dia comum na rota das migrações norte de África há mulheres e meninas a serem forçadas a tomar contraceptivos para evitar as consequências da violação de que serão provavelmente alvo antes de chegar à Europa.

As mulheres, as meninas e meninos estão a ser violadas pelas figuras da autoridade, pelos contrabandistas, por outros refugiados e por traficantes. A coordenação húngara do Lobby Europeu das Mulheres está ciente de casos de violação perpetrados pela polícia dos Balcãs.

A Diretora da Women Under Siege Lauren Wolfe relata: “Todas as mulheres com quem me deparei referiram a violação – de si próprias ou de outras mulheres -, enquanto atravessavam o continente Africano através da Líbia para atravessar o mar em direção a Itália.” Devido às estruturas patriarcais predominantes, as mulheres raramente relatam os casos de violência às autoridades. Elas não têm, portanto, acesso a qualquer apoio e justiça.

São estas as horas comuns dos que nasceram em países desgarrados das notícias da noite.

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