Com os refugiados rohingya no campo 12

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Areia, pó, bambu e plástico negro. Logo de manhã faz tanto calor que se torna impossível respirar. É um quase deserto que se transforma em oceano de lama nas monções. Nos 12 campos de refugiados de Cox”s Bazar vive quase um milhão de rohingya, na maioria crianças. Todos viram matar e morrer. Meninas e mulheres foram violadas. As crianças andam nuas, com barrigas inchadas. Há quem tenha chegado em agosto no auge do conflito. Há quem ainda esteja a chegar

A distância que nos separa tem o diâmetro da vida. Lisboa-Dubai-Dhaka-Chittagong, depois cinco horas de carro até Cox”s Bazar. Estamos no campo 12, em Balukhali, o mais recente dos campos que acolhem refugiados rohingya.

Vemos gente a pé com sacos brancos às costas, crianças transportando caixotes de ajuda humanitária quase do seu tamanho. A estrada é de terra batida amarela. Camiões de organizações não governamentais, riquexós, motos, ovelhas, vacas escanzeladas, vendedores, crianças descalças, crianças nuas, mulheres de negro, outras de sari e roupa garrida. A vida que não parou numa cidade-favela feita de plástico e bambu, erguida em socalcos conquistados pelo homem às colinas, sob um céu densamente azul, ainda que num atordoamento, num alvoroço de formigueiro singular.

Centenas de pessoas esperam há horas pela entrega de alimentos sob o chicote impiedoso do sol. De 25 de agosto até agora chegaram mais de seiscentos mil rohingya, mais de metade são crianças. Nos campos de Kutupalong, Thyangkhali, Palongkhali e Balukhali vive um milhão de refugiados.

Numa escada íngreme cavada na rocha cruzamo-nos com Jubairah Begum, uma mulher com pouco mais de 20 anos. Chegou há três dias ao Bangladesh, moída pela fadiga de dias de vigília e desespero. Acabrunhada ajeita a dupatta [lenço] cor-de-rosa forte, ajeita o bebé de colo, fixa-nos com uns olhos muito negros e as palavras saem-lhe numa torrente. “Mataram a minha sogra, o meu sogro, os meus irmãos, à minha frente. Os militares [birmaneses] mutilaram pessoas com machetes, incendiaram as casas.” Não sabe quanto tempo correu com o bebé, sabe que correu, correu, correu. Depois de a sua aldeia natal em Buthidaung, no estado de Rakhine, na Birmânia (atual Myanmar), ser arrasada, queimada, andou durante dias até ao rio Naf, “na fronteira tiraram-me as joias, bateram-me”. Numa embarcação de madeira atravessou o Naf para a ilha de Shah Puri Dwip no Bangladesh, o porto de chegada da maioria dos rohingya. Um camião de caixa aberta trouxe-a a Balukhali.

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Embora nos tivéssemos mentalizado para esperar todas as comoções, diante de todas as histórias que escutaremos, de inacreditável horror e inverosimilhança, compreendemos que a desumanidade nos surpreenderá sempre com o seu inventário de atrocidades. “Eles escolhem as mulheres mais bonitas, não apenas as solteiras, as casadas também. Violam-nas. Cortam as mãos e decapitam os homens e deixam lá os corpos.” Desvia o olhar. Cerra-o. “Tudo se perde como lágrimas na chuva. Já não consigo chorar.”

Roupas coloridas prendem-se nas estruturas de bambu e nos terraços das tendas ao lado das quais paramos para conversar com Jubairah Begum. Estranhas flores transitórias. É de transição, de duração, o mais efémero dos sentimentos, que falamos. Todos os refugiados com quem conversámos nos disseram “quero voltar para o meu país”. Que país? A minoria rohingya é considerada apátrida pela Birmânia e desde a independência em 1948 tem sido vítima de tortura e repressão. A solidão, neste caso a de um povo, pode ser uma circunstância ou uma permanência.

O espectro da fome

Há imagens que se fixam na retina e assentam nela raízes. É então que uma interrogação nos acomete: estas imagens são as lentes que corrigem a nossa miopia? Falemos dos despojos da violência, os que ficam quando as armas se calam e os holofotes se apagam. Olhemo-los. Mohammad Sohail chora. Pele esticada sobre os ossos, olhos grandes, os olhos da fome. É uma dos milhares de crianças subnutridas. Chegou com a mãe a Balukhali há duas semanas. Outras cinquenta crianças subnutridas estão internadas no hospital da UNICEF. “A condição destas crianças é muito crítica”, afirma o paramédico Shumi Akhter.

A UNICEF estima que 25 mil crianças, nos 12 campos refugiados de Cox”s Bazar, sofram de subnutrição severa. “As crianças rohingya nos campos, que já sobreviveram a horrores no estado de Rakhine e numa perigosa fuga até aqui, foram apanhadas numa catástrofe”, diz Edouard Beigbeder, chefe da UNICEF local. As equipas médicas estão a distribuir comida para bebés altamente nutritiva, mas é uma batalha desesperada contra o tempo e as circunstâncias.

Para viúvas como Hasana Begum, a mãe de Mohammad, conseguir comida é uma luta diária, uma vez que as filas de espera para a alimentação podem demorar seis a oito horas. “Não os posso levar para buscar ajuda porque não consigo carregar os meus filhos e os sacos pesados.” Não os pode deixar na tenda e não tem ninguém que tome conta de Nur Alam, 3 anos, nem do bebé de 11 meses Mohammad. Conta com a boa vontade dos vizinhos, há dias em que passa sem refeições. A maioria das famílias rohingya sobrevive com uma dieta à base de arroz e lentilhas, com vegetais ocasionais e peixe seco. “Esta dieta não é adequada para crianças pequenas ou para mães que amamentem. Neste campo o número de bebés subnutridos já ultrapassou a chamada linha de emergência”, diz Shumi Akhter.

Alguns refugiados vendem a comida que recebem para poder comprar lenha para cozinhar, roupa e outros bens de primeira necessidade (tapetes para pôr no chão de terra batida, esteiras para dormir, uns recipientes de plástico, sabão). “Diariamente compramos comida aos rohingya. Arroz, lentilhas, açúcar, sal, leite em pó e comida para bebé”, conta-nos uma vendedora de um mercado informal. Os rohingya não estão autorizados a trabalhar no Bangladesh nem a sair dos campos.

Porém, não é apenas o espectro da fome – três em quatro pessoas não têm comida suficiente, 95% da população nos campos bebe água contaminada com fezes – que paira sobre os refugiados, doenças como o sarampo, a disenteria, infeções respiratórias podem levar a uma “crise de saúde pública de escala inimaginável”, alerta Cat Mahony, do International Rescue Committee.

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Cicatrizes do corpo e da alma

“Os militares separaram as mulheres dos homens. Eles foram abatidos, as mulheres levadas para a selva. Quando fui à procura da minha irmã vi muitos corpos. Estava deitada no chão, não sabia se estava viva. Ajoelhei-me e vi que respirava. Sangrava muito. Levei-a até ao rio e lavei-a. Depois fugimos. Foi violada por soldados birmaneses e civis budistas.” Este é o relato feito por uma mulher de 27 anos, de Buthidaung, aos Médicos sem Fronteiras.

Quando se fala com sobreviventes de violência sexual – a menina violada de que fala o testemunho acima tem 14 anos -, um dos pedidos mais comuns e que partem o coração é o de roupa nova, não por vaidade mas porque dias ou semanas depois ainda trazem vestida a mesma roupa que tinham quando foram violadas. Isto dá uma ideia da dimensão da tragédia. Outra é dada pelos Médicos sem Fronteiras e pela Human Rights Watch: mais de metade das vítimas de violação em tratamento nos campos têm menos de 18 anos, algumas são meninas com idade inferior a 10 anos.

Nos campos, como aqui no campo 12, têm sido criados espaços para mulheres para as apoiar para lidar com o trauma, muitas das vítimas não recorrem, todavia, a eles devido ao estigma, à vergonha e ao medo de serem culpadas pelo que lhes aconteceu.

Para Human Rights Watch não há nenhuma dúvida de que as “Forças Armadas de Myanmar usam de forma bastante evidente a violação como um de vários métodos horríficos de limpeza étnica contra os rohingya”. A menina cujo nome não vamos citar chegou há dias ao Bangladesh. Tem 4 anos e perdeu o braço esquerdo. Pai, mãe e tio foram mortos com machetes pelos militares. A mãe, num exemplo terrível de coragem, colocou a menina debaixo do corpo para a proteger, morreu abraçada à filha salvando-lhe a vida. Já com a família morta, os militares cortaram o braço à menina e permitiram que fugisse com uma tia. São as únicas sobreviventes da família. A menina está agora a ser cuidada na Orphan Friendly Zone, da Fundação para a Saúde do Bangladesh.

Professora menina

Só no território conservado teimosamente à margem do real existem universos a salvo das perversões. Entro num território de sorrisos no cimo da colina. Vinte e sete crianças sentadas sobre um plástico amarelo recitam as 11 vogais birmanesas. Algumas destas crianças são órfãs. A ultima contagem da UNICEF apontava para 36 mil órfãos e 700 raparigas menores em situação de risco (raptos e casamento infantil). A professora-menina, Nauar, tem 13 anos, e das 09.00 às 12.00 cuida destas crianças. Transmite-lhes o que aprendeu, sem papel nem canetas – serão distribuídos mais tarde, prometeram-lhe – canta com eles. Está no Bangladesh há um mês, “vi as casas a serem queimadas, os militares a disparar, a minha cunhada foi morta. Pegamos nas nossas coisas e fugimos. Demoramos dez dias a chegar aqui”. Reconstruir infraestruturas, uma ponte, casas, é fácil, muito mais difícil é reconstruir pessoas.

Durante a fuga, Nauar separou-se dos familiares e parou para ajudar um vizinho 15 anos, ferido por uma bala. Correram por entre soldados e uma multidão que saqueava casas. Esconderam-se na selva durante dias. Algumas mulheres da aldeia soluçavam, enquanto outros desconcertados olhavam em redor, sem saber o que fazer. Trataram a ferida do adolescente com água fervida e trapos rasgados das roupas. “Trouxemos ao colo mulheres mais velhas, como pudemos. Quando atravessamos o Naf fomos ajudados pelos militares do Bangladesh. Deram-nos comida e leite.” Recorda o medo, mas mais do que este a fome insaciável e insaciada que a perseguiu como o mais fiel dos cães.

Por vezes a ausência de expectativas é tão agressiva que a melhor forma de a encarar é de frente e lutando. “Nunca tinha pensado nisso, mas agora sei que vou ser professora no meu país.”

Estas histórias são setas espetadas na pele dura da realidade. As imagens fixam-se na retina, conferem a dimensão do “real” aos acontecimentos, espicaçam a consciência.

Dirão os mais cínicos, do conforto das suas poltronas e que nunca estiveram perto de uma tragédia, que elas pouca influência têm. Como escreve Susan Sontag, “nomear um inferno não é, naturalmente, dizer alguma coisa sobre como moderar as chamas desse inferno. No entanto, já parece ser bom o facto de dar a conhecer, de ter alargado o sentido que as pessoas têm de quanto sofrimento existe no mundo que partilhamos com os outros”.

* Balukhali, Bangladesh (Serviço especial para o DN)

PS- As fotografias são minhas e tem direito de autor

 

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One thought on “Com os refugiados rohingya no campo 12

  1. Estou-lhe muito grata pela sua coragem e pela forma como consegue com a sua escrita forçar a sair do conforto este lado ocidental que quer ignorar esta triste realidade.

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