A avó – histórias do Bangladesh 

Espiãs, contrabandistas de armas, combatentes. Violadas.
A história da guerra da independência do Bangladesh, em 1971, que fez 3 milhões de mortos em 9 nove meses de conflito, também se escreve no feminino.
Durante esse período 250 mil mulheres foram violadas pelo exército paquistanês, que usando a violação como arma de guerra tentou alterar permanentemente a composição étnica do Bangladesh. Essas mulheres ficaram conhecidas como “Biranganas” e, numa sociedade conservadora, receberam o rótulo de “mulheres estragadas” com as quais ninguém casaria.
Parveen tem um corpo frágil que ameaça desconjuntar-se ao menor toque. A boca perdeu todos os dentes, sobra-lhe o gesto coquete de cobrir a cabeça com um lenço turquesa estampado. Oferece-me chá e samosas. 
Tem 73, 74 ou 75 anos, não sabe. É difícil imaginar que cozinhou para os combatentes bengalis, lutou ao lado deles, encharcou-se com as mesmas chuvas, arrancou as mesmas sanguessugas do corpo, comeu as mesmas raízes e folhas.

Abriu-me o seu mundo com cuidado. Poupando-me. Escuto atentamente a dor, que tem tantos anos como eu. Nasci no ano da independência deste país. 
“Às vezes ainda acordo de noite. Nunca tinha sido beijada antes daquilo ter acontecido. Depois do quarto homem desmaiei. Quando acordei queria ter morrido. Pedi matem-me. Supliquei não quero viver assim”. 
As memórias não são literatura, são simplesmente vida. Vida que não se condoeu dela.
Parveen vive num slum de Chittagong. Foi criada de servir toda a vida. Seis dias por semana de sol a sol. Acabaria por casar com um veterano como ela, que a abandonou e aos 3 filhos. Os filhos homens emigraram, Halima, a filha mulher ficou e fez de Parveen avó de quatro netos e uma neta, a única que estuda na Universidade e a primeira a fazê-lo (é a minha jovem tradutora).
Só em 2014 a primeira-ministra do Bangladesh, Sheikh Hasina, reconheceu o papel destas mulheres como combatentes da liberdade e chefe das Forças Armadas lhes pediu perdão em nome do povo do Bangladesh ” por não termos sido capazes de cuidar de vocês quando a guerra acabou”. 

” Se não fossem mulheres como a minha avó, não se hoje não continuaríamos a ser torturados ou se seríamos livres. Tenho tanto orgulho nela”. 
Parveen despede-se de mim abraçando-me desajeitamente. “Desculpe-me”. 
( peço perdão às almas mais sensíveis, mas o meu dia hoje foi muito duro, não consigo pensar nas coisas triviais da vida)

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2 thoughts on “A avó – histórias do Bangladesh 

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