Postais de Kibera 

O James é um homem humilde com a grandeza de uma alma recta. Nasceu numa boma no Rift Valley, aprendeu a juntar algumas letras e muito cedo tornou-se pastor. De pé descalço, lança e pernas a sofrerem o cansaço do caminho. Maus tratos, atrás do gado. 
Nunca se desarmou do sonho. Se ele não pode estudar os filhos o fariam. Deixou a aldeia, perto de Nakuru, e veio para Nairobi. Passou os primeiros cinco anos numa barraca de madeira e zinco em Kibera, o trabalho que ia havendo arrancava-o cedo da cama e devolvia-o ao repouso quando o sol há muito já vazara. 

Tornou-se motorista, saiu de Kibera e disse-me com orgulho: “os meus três filhos estão todos na escola, gostam de ler, cuidam dos uniformes. Por vezes uma garrafa de água chega-me para três dias, vou bebendo aos poucos, há dias que faço só uma refeição de ugali, mas eles estudam”. 

O James vê a família que ficou em Nakuru de duas em duas semanas, “quando o dinheiro chega”, porém na sombra da tarde enche-se de satisfação, rasga um sorriso de dentes muito alvos, “os meus  filhos estão todos na escola”.

(Eu nunca sei se sou eu que encontro os meus motoristas ou eles me encontram a mim)

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2 thoughts on “Postais de Kibera 

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