As horas comuns

Num dia comum em Ajdabya, nordeste da Líbia, os homens que guardam o campo bebem e fumam cannabis. Depois entram no campo e escolhem o troféu que querem. 
Ramya, uma belíssima eritreia de 22 anos conta “com uma arma apontada à cabeca não tens grande hipótese de resistir se queres sobreviver. Fui violada duas vezes por três homens… não queria morrer”.

Numa tarde comum, no campo de refugiados turco de Nizip, na zona de Gaziantep, perto da fronteira com a Síria, a insanidade. Crianças que estiveram a um quase da morte são abusadas. Mais de trinta, em 2016, com idades entre os oito e os 12 anos.
Numa noite comum em Dunkirk, no norte da Franca, mulheres e meninas usam fralda durante a noite para não terem de ir à casa de banho do campo. Adivinham vultos na escuridão.
Os Gynaecology sans Frontières falam de criancas de sete e oito anos vítimas de violência sexual. No campo há mais de uma centena de menores não acompanhados.

Num dia comum na rota das migrações norte de Àfrica há mulheres e meninas a serem forçadas a tomar contraceptivos para evitar as consequências da violação de que serão provavelmente alvo antes de chegar à Europa.
As mulheres, as meninas e meninos estão a ser violadas pelas figuras da autoridade, pelos contrabandistas, por outros refugiados e por traficantes. A coordenação húngara do Lobby Europeu das Mulheres está ciente de casos de violação perpetrados pela polícia dos Balcãs. 
A Diretora da Women Under Siege Lauren Wolfe relata: “Todas as mulheres com quem me deparei referiram a violação – de si próprias ou de outras mulheres -, enquanto atravessavam o continente Africano através da Líbia para atravessar o mar em direção a Itália.” Devido às estruturas patriarcais predominantes, as mulheres raramente relatam os casos de violência às autoridades. Elas não têm, portanto, acesso a qualquer apoio e justiça.

São estas as horas comuns dos que nasceram em países desgarrados das notícias da noite.

Parte da minha profissão é encontrar o que torna a vida possivel apesar de tudo. É-me fácil lidar com as balas e os seus buracos, fronteiras visíveis da violência. O mais duro são os muros invisíveis, as cicatrizes por dentro.
Nesta matemática de perdas – documentada em relatórios, reportagens – não há hipérbole que seja justa com esta dor.
PS-É também sobre isto que dou aulas

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