As sobreviventes do IS 


Quase todos nos lembramos da menina austríaca raptada nos arredores de Viena aos dez anos. 

O que poucos sabem é que após 3096 dias de cativeiro e no dia em que reuniu coragem para fugir e venceu a prisão psicológica que a paralisava muitos lhe recusaram auxílio. Dois homens que não telefonaram para a polícia apesar de ela ter dito que era Natascha Kampbusch e que fugia do seu carrasco, uma mulher a quem bateu na janela , “porque é que com tantas casas veio bater na minha? Espere junto à sebe e não pise o relvado”. 

Deixemos a Áustria rumo ao Iraque. Não há hipérboles  na gramática para contar a dor das mulheres da minoria yazidi. Violadas, torturadas, escravizadas, vendidas. Meninas e mulheres onde o corpo e alma mostram a dolorosa geografia da vida, com olhares que são pedidos de socorro. Precocemente derrotados? Não.

Numa aldeia adormecida a centenas de quilómetros de Estugarda fica a casa abrigo. A segurança é apertada e a localização secreta. “Esta mulheres e crianças foram escravizadas pelo IS. São vítimas e testemunhas de crimes de guerra. A nossa missão é protegê-las e mantê-las em segredo e a salvo”, diz Michael Blume, um dos responsáveis por um extraordinário projecto de apoio a mulhetes yazidis. 

Em Março de 2016 começaram a chegar a Baden-Württemberg as primeiras mulheres  e crianças vindas de campos de deslocados internos no Iraque.  O parlamento regional deste estado federado alemão aprovou 1100 vistos de residência e um orçamento de 95 milhões de euros, não apenas para acolher estes refugiados, mas para lhes proporcionar tratamento adequado para o trauma.No início houve alguma resistência porque as pessoas não sabiam o que esperar. Agora os vizinhos das 21 casas abrigo oferecem chocolates, empregos, pequenas gentilezas e sentem-se orgulhosos. 
O psiquiatra curdo-alemão Jan Kizilhan entrevistou mais de 1400 escravas sexuais do IS e coube-lhe a tarefa quase impossível de seleccionar as mulheres que iriam para a Alemanha. Definiu dois critérios a gravidade do trauma físico e psicológico e quanto iriam beneficiar do tratamento oferecido. Em média as mulheres escolhidas tem menos de 20 anos. 
“De cada vez que uma mulher me contou a sua história, eu pensei,“não pode piorar“. Mas então outra mulher contava-me a sua história e era ainda pior. A rapariga mais nova com quem falei tinha 8 anos. Depois de ver o avó e o pai executados foi violada centenas de vezes, cinco ou seis vezes por dia, ao longo de 14 meses. Foi vendida muitas vezes”, diz o terapeuta especializado em trauma. 

Uma vez na Alemanha as mulheres e crianças têm aulas de alemão e aprendes actividades simples como  andar de bicicleta. Antes de começar o tratamento é preciso estabilizar as mulheres e transmitir-lhes um sentimento de segurança. ” Estas mulheres sofrem de pesadelos, flashbacks e ataques de pânico. Têm dificuldades em confiar em alguém. Algumas têm medo de andar na rua e sofrem de dores psicossomáticas”.

Salma de 17 anos viajou para a Alemanha com a irmã de 15 anos.”Não sentia nada quando aqui cheguei. Nem conseguia chorar. Os homens do IS prenderam-nos numa casa vazia. Éramos nove raparigas. Quando já era noite chegaram mais homens à casa. Um deles escreveu os nossos nomes em papéis e colocou-os numa taça. Cada guerrilheiro tirou um papel e tornou-se dono da rapariga cujo nome lhe calhou”. Ela olha para baixo quando fala. Rosto fechado. Olhos fixos em coisa nenhuma. Tem vestido um pullover azul com ursinhos. Retoma.

“O homem que tirou o meu nome tinha 53 anos e tinha uma barba longa, cinzenta. Levou-me para casa dele e disse-me “lava-te”. Resisti. Cortou-me a roupa com uma faca e empurrou-me para a duche. Depois levou-me para um quarto. No portátil passava um filme pornográfico. Atou-me à cama e violou-me. Ainda lhe sinto o cheiro”. A tortura  durou 9 meses e Salma foi violada por vários homens e sucessivamente vendida.

Na Alemanha é livre, mas ainda não colou os pedaços. “Sinto-me bem aqui, em segurança, mas tenho vergonha. Nunca disse à minha mãe o que se passou comigo”.

 Castidade e honra são extremamente importantes na cultura Yazidi. Segundo uma tradição quase milenar quando uma mulher yazidi tem relações sexuais com alguém de fora da comunidade é expulsa da mesma. Algumas destas mulheres depois de libertadas do IS foram rejeitadas pelas famílias. Antes de virem para a Alemanha as mulheres foram levadas a Lalish, a Fátima dos Yazidis, e o líder religioso Baba Sheik abencoou-as e disse estar orgulhoso delas por terem sobrevivido ao cativeiro.

“Isto foi muito importante para elas porque lhes devolveu a identidade e a auto-estima”, frisa Jan Kizilhan, “trabalhar a auto-estima destas mulheres é crucial na sua terapia”.

Quase um ano decorrido sobre o início deste programa há muitos progressos visíveis.

” O que mais me impressiona é a sua resiliência. É espantoso como estas mulheres são fortes. Eles querem mesmo sobreviver”. 

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2 thoughts on “As sobreviventes do IS 

  1. Impressionante o que contas. Obrigada por o contares, e pelo modo como o contas.
    Percebi agora que estiveste doente. Espero que já estejas bem,
    Beijos
    Inês

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