Quisera eu

A história não é dessas, de quotidianos desgastes, mas de improváveis e de segredos mais transparentes que a própria luz. Se toda a história se quer fingir verdade, esta verdade aspira ao encantamento da história.
Confidencio-vos.

Era uma tarde de zinco de Janeiro. O frio empurrava para dentro. Riscos molhados de tristeza descem pelos vidros. Anichada num casaco grosso a professora de Literatura atravessou o portão da Universidade Nova, na Avenida de Berna. Surpresa, como um geólogo que lê a paisagem, demorou o olhar. 
O que viu aquela mulher de coxas grossas, de pele lisa e tensa como a de um tambor, mãos ágeis de criança e olhos cansados, olhos de quem lê ? Uma mensagem que ocupa obsessivamente as paredes da Universidade. “Quisera eu ser o Pedro/ Desta Inês tão galante/ Do meu castro seres rainha/ Ser teu cavaleiro andante”. 
Os cartazes com quartos para alugar, os anúncios de conferências, as assembleias gerais, as datas das frequências, tudo 
submerso por aqueles rectângulos de papel, como um rio voraz que galgou margens. Só existe uma coisa. Alguém, que assina discretamente F., gostaria de ser o Pedro de uma Inês. 

Ao fundo, todos comentam, a delicadeza da mensagem e a contida desmesura do gesto. Só pode ser um leitor o Pedro que trocou a eternidade de um coração talhado numa casca de árvore pela efemeridade frágil daqueles rectângulos de papel sob a chuva copiosa. Frágil, mas inesquecível. 
A professora de Literatura afasta um caracol rebelde da testa, desvia o olhar dos cartazes, nos lábios um sorriso fugaz, veneziano onde cabe o mundo inteiro sem excepção. Ah, esse sorriso. Talvez também ela sonhe com um cavaleiro andante. Talvez por ter ser sido bafejada por uma lembrança boa. 
A Universidade toda ela suspira com o encantamento de uma paixão tornada pública e recoberta de anonimato. Invejada Inês terás dito que sim? 
E naqueles dias impacientes recordaste do teu nome nas paredes da Universidade num dia de Inverno? Ficaste presa ao sobressalto apaixonado daquela declaração de amor como quem tem frio se deixa prender pelos reflexos de uma fogueira?

E mesmo que Pedro e Inês se tenham perdido, o que importa não é o que perdem. São as memórias. As cicatrizes saram. O amor escrito numa parede é eterno. Nós permanecemos, Pedro e Inês. 

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