Crónica do meu internamento (take 3) 

Começa a ser dia. Dormi pouco. O céu estende-se num mar cinza. A app do telemóvel marca quatro graus negativos. O Inverno grave chegou no seu esplendor e instalou-se na sala de visitas.

Vai nos seus primeiros dias o ano e o regresso ao hospital convida-me a uma pausa íntima. Mais uma. Parece que a vida me faz uma advertência. 

Desta vez não visto a bata ridícula dos hospitais, prática eu sei, mas que nos despoja de qualquer individualidade, e posso receber visitas. 

A Matilde esteve deitada ao meu lado a ver  televisão. De mãos dadas. Ela com um auricular no ouvido direito, eu no esquerdo, como um cordão umbilical. “Fizeste-me ver a claridade do mundo e a possibilidade da alegria./Tornaste-me indestrutível, porque, graças a ti, não termino em mim mesmo”.

Tenho um coração doente. O que o provocou continua a ser um mistério,  mesmo para a medicina altamente tecnologizada alemã. A medicação terá que ser alterada porque as dores não abrandam. 

Prescrevo-me um multiplicador de beleza, a poesia e detenho-me num poema em que reincido sempre. “Caminho por uma rua/ que passa em muitos países/ se não me vêem, eu vejo/ e saúdo velhos amigos”. 

Amigos bem intencionados dizem-me “tens que parar, abrandar”. Sei que muitos rezam por mim. Agradeço-lhes tanto a todos. 

Olho pela janela  e recordo-me com nitidez de uma sexta-feira em Agosto de 2008. Dia em que aterrei de madrugada em Frankfurt, vinda de um Festival de Música na selva do Bornéu, e ainda antes do dia terminar embarcava para a mágica e cruel cidade do Cairo onde conheci o Cairo dos egípcios, o avesso do postal turístico. Esse dia, houve tantos outros semelhantes, resume a vida que escolhi. Nómada e com causas dentro. Com pessoas, a resgatar da invisibilidade, dentro. 

Na minha vida cruzei-me tantas vezes com a morte, a minha esteve por um fio de seda algumas vezes, mas nunca senti medo. Não receio essa desconhecida. Vejo-a como saltar de pára-quedas, liberdade e um aterrar mais ou menos suave. 

A cada assomo de tristeza a cada lágrima que me escorre pela cara faço o exercício de olhar para trás e de poder dizer vivi por extenso. E é isso que quero para mim. O coração é o nosso músculo mais forte, não vou permitir que me traia. 

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