Da Síria


” A cidade é tão antiga como a eternidade e mesmo assim nova, nunca para de renascer”. As palavras são do viajante Ibn Djubair, foram escritas no século XII e a cidade eterna é Allepo, nas margens do Kuwaik. 

Uma das primeiras referências a Damasco, a cidade onde terá nascido Abrãao, é feita no livro do Génesis. 

Nem que eu quisesse ou fizesse ficção poderia ficar perto da beleza com que os sírios que se sentaram hoje à minha mesa falaram do seu país.
Não me vou vou estender aqui em terreno tão minado como a análise da guerra na Síria, mas quero falar de pessoas.
As crianças brincam em redor da árvore de Natal. Mamoud, Ahamad, Zenaidah, Mafalda. 
As adolescentes, a minha filha Matilde e a melhor amiga Hannah, escutam a vida perpetuada através da memória, e seguem as palavras com os olhos no mapa projectado na televisão.

“Esta é a minha casa, a casa do meu avó”. No écran do telemóvel vejo um pátio interior com recantos cuidados, plantas e almofadas que convidam a fazer delas um lugar cativo. Desliza o dedo pelo écran, ” a minha casa agora”. A fotografia não finge, corta como uma lâmina. “Tive um cão e 17 gatos. Todos tinham nome”. 
Como escrever em poucas palavras a vida que se condensa agora em fotografias guardadas num telemóvel ? “Pedi para perder a memória, lembro-me de cada detalhe”.
Ali à volta da mesa há pessoas que se lembram como as balas abriram buracos nas paredes, do sabor salgado do medo quando partiram de uma praia da Líbia. Do alívio quando chegaram à Alemanha. 
Ali à volta da mesa não há amargura, há a tessitura da vida e o apaziguar-se com as costuras tortas. Rimos muito juntos, falámos do Natal cristão e das festas muçulmanas, das guloseimas ou não fosse o açúcar e o afecto o cimento do mundo. 

Ali em torno da mesa aprendi a dizer Shahiyan tayyihan, Bom Apetite.

As minhas incursões em países em guerra deram-me uma maior clareza sobre a natureza da vida e a dar sentido à matéria fugaz dos nossos dias. E eles só fazem sentido com pessoas lá dentro.

No início da crise dos refugiados muitos, sobretudo portugueses, me disseram com cinismo : ” porque não os levas para tua casa ?”. Levo e levarei sempre porque me comprometi a ouvir narrativas de vida, sem preconceito. Um dos únicos milagres em que acredito ? Os das pessoas.

Em jeito de epílogo. A Hannah e a Matilde, as adolescentes da geografia confortável, nunca se mostraram tão profícuas em ajudar. Puseram a mesa, trouxeram as iguarias, levantaram a mesa. No final do jantar disseram-me: “obrigada por podermos estar presentes”. Descobriram a delicadeza na brutalidade e esse extraordinário farol que é a compaixão.


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