Frágil: Manuseie com cuidado

Todos já vimos em malas de viagem ou em encomendas que nos chegam a casa um autocolante com o aviso “Frágil. Manuseie com cuidado”. 

Eu sou da opinião que devíamos olhar para o outro como se ele tivesse esse autocolante colado em local bem visível. Existe algo mais frágil que um ser humano ? 

Quase todos tratamos com ternura e gentileza as crianças e os velhos, mas e os que ficam entre essas duas pontas da corda da vida ? Já são crescidinhos e sabem defender-se ? Alguns saberão, outros nem tanto. Alguns têm a capacidade de se regenerar, viver é rearranjar os cacos e dar sentido aos pedaços. Outros quebram por dentro de forma irreversível. É preciso respeita-los porque sofrem de delicadeza.

Lembro-me de ser pequena e fazer barquinhos de papel que colocava na água, a minha armada, vista com a geografia virgem dos olhos da infância, era invencível, poderosa, de aço. Se algum navio se afundava de repente dobrava outra folha e a brincadeira continuava pela tarde dentro no lago do Jardim Botânico. Cresci e aprendi que a única coisa que a vida nos garante é fim. Pelo meio descobri que ser forte não é quebrar os outros, é cuidar dos barcos de papel, dos nossos e dos dos outros, tentando protegê-los e aceitando a sua, a nossa, abismal fragilidade. 
“Frágil: manuseie com cuidado” significa esforçar-se para vestir a pele do outro. Perceber a bagagem que o outro transporta dentro, as cicatrizes que custaram a cicatrizar, as vergonhas, os arrependimentos e os sonhos que não podem ser ridicularizados. No fundo a necessidade de ser aceite e amado, como qualquer criança. 
Manusear com cuidado significa levar em consideração as dificuldades do outro, não lhe exigindo demais. É sinónimo de perceber que a comunicação a linha que cose as pontas das relações. Saber escutar e aguentar a dor do outro, sem tentar calar. Não permitir que a vida mate a vida.

Por vezes as pessoas rosnam, gritam umas com as outras. Ou fazem pior. Ignoram os outros. Como se todos fossemos moldados em gelo, como se as nossas emoções estivessem embaladas naquele plástico com bolhas que protege, que blinda. Até pode não parecer mas todas as pessoas são de cristal. Manuseie-as com cuidado.
( Então é Natal. 

Em vez dos votos tradicionais, deixo aqui esta reflexão)

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