Crónica do meu internamento (take 2)

Doravante estou isolada no quarto número 11. Tenho uma janela enorme pela qual observo a dança das partículas de poeira entrelaçadas pelos raios de sol e as folhas alaranjadas transportadas pelo vento. 

Rapidamente me dei conta como é bom poder olhar para a rua para manter sob controlo a angústia que me assusta. Colo a cabeça ao frio do vidro. Sinto-me como Alice do outro lado do espelho. É só uma questão de dias depois tudo volta ao seu lugar. 

O quarto fica no extremo de um grande corredor. A porta está sempre fechada e quando entra o pessoal médico usa bata descartável, luvas, máscara.

Os médicos alemães desconhecem a causa da miopericardite e querem descobri-la. Até lá é como se transportasse um alien dentro do peito e não um músculo. O facto de ter passado largas temporadas em África inquieta-os. Falam-me em tom didáctico de uma punção para recolher líquido do pericardio. A ideia de uma agulha a perfurar a pele até ao coração perturba-me. 

Assim que fecham a porta atrás de si fez-se um silêncio pesado. O estado de alarme anestesia-me os nervos, pago o tributo de sentir uma espécie de vazio infinito. 

Tentei ler, sem conseguir. Declamo o Vinicius em voz alta, estou sozinha posso fazê-lo, os sons apagam-se depressa. Crispo as mãos no colchão. Os amigos consolam-me. 

Aqui neste hospital alemão – deixei Vila Real e regressei a Bona – não há a possibilidade de pequenas transgressões, sejam fugas ou pecadilhos de gula. A única cedência é o iPhone. 
Um amigo escreve-me “estás a ter o chamado «aborrecimento de atleta». Eles são hiper-fortes. Mas de vez em quando têm uma lesão grave”. Não tenho palavras para enfeitar os factos: detesto estar presa e estou a atravessar um daqueles momentos que os livros descrevem como solidão. Sou a única fonte possível da história e não posso nem quero procurá-la fora de mim. 
Passo os meus dias a confrontar-me com solitários e escutar-lhe a soma dos dias. É incrível a quantidade de pessoas sós, que o mascaram sem um aparente sobressalto. Agora confronto-me comigo. Tempo não me falta. 

Quando me sinto só ou assustada (faço-o quando ouço bombardeamentos) evoco uma imagem. Fecho os olhos imagino a escuridão impenetrável sobre o mar, uma borrasca, chuva densa em cordões grossos e um navio fustigado pelas ondas. Ao longe um farol cuja luz vem e desaparece. Terra. Só é preciso vencer a tempestade.

( quando sair daqui vou treinar para a maratona é uma promessa a mim própria) 


12 thoughts on “Crónica do meu internamento (take 2)

  1. É pena que uma publicação de coração tão aberto – que serve como desabafo mas, quem sabe, também como forma de criar empatia, de alguém se rever aqui e sentir que não está tão só – possa ter levado alguém a fazer acusações de imaturidade. A publicação não pede pena, sequer; é uma partilha. Felizmente, para o bem de todos, tenho a certeza que vai continuar a escrever e a partilhar o que lhe parecer que vale a pena. Nós estaremos aqui para ler.
    As melhoras! Beijinhos!

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  2. Helena, Sinto-me sempre tão perto de ti. Penso em ligar-te tantas vezes, outras tantas, naquilo que me dirias em face das muitas coisas que teria para te contar. Normalmente, mesmo sem nunca te ligar, encontro as respostas naquilo que escreves. Um beijo, já desde uma Lisboa que também espera por ti.

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  3. Kridelena, fiquei a pensar naquilo que escrevi! É idiota, esquece aqueles conselhos parvos ! Faz tudo e só o que te apetecer enquanto é tempo. Foi o que eu não fiz.

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  4. Já telefonei várias vezes para aquele número que mandaste, mas nunca atendes. Era só para perguntar se estás melhor e para mandar bué de abraços, excessivamente apertados

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