Crónica do meu internamento

1. Aconteceu como nos manuais. Uma dor cortante no peito. Penetrante. A ambulância do INEM chegou quase de imediato. Deitada ali no escuro na maca, sentia-me quase uma passageira clandestina. Passaram-me pela cabeça coisas prosaicas : “tenho fome e espero que a bateria do iPhone se aguente”.

Já nas urgências, com um comprimido amargo colocado embaixo da língua, foi como se usasse uma espécie de lupa para olhar profundamente para as coisas procurando os mais ínfimos detalhes. 

O meu pai morreu neste hospital e aqueles que amamos morrem devagar no nosso interior, parecia que a qualquer momento ia entrar por aquela porta e perguntar se queria chocolate quente. 

Na minha família o amor passou, passa pela mesa. Quando as minhas filhas eram pequenas fiz-lhe todos os bolos de aniversário: um castelo de princesa, uma pista de patinagem com bonecos de neve de massa de amêndoa a deslizar, um urso polar, um aquário. A minha dispensa é a caverna de Ali Baba das formas e utensílios de pastelaria. E recordo-me com o se fosse hoje dos olhos bem brilhantes e de orgulho mal disfarçado quando as amigas lhes elogiavam os bolos. 

Apertam-me as mãos com carinho. É a minha tia Antónia, irmã do meu pai, com o seu ar gaiato. A tia que me ensinou que o tempo é a delicadeza inegociável, que não se adia para o dia seguinte o encontro, nem o arroz doce com doce de ovos (mas estou a adiantar-me). 

Converso com ela. Preciso de costurar a dor com palavras. Há quem precise do silêncio, eu preciso das palavras pela sua aderência à realidade – estou ali numa maca, estou viva- ou pela sua poética. 

2. Fico internada. Injecções. Medicação. Electrocardiogramas. Ressonância magnética. Cataterismo. Dor física.Nascer e morrer são as duas pontas da vida. 

No quarto piso do Hospital de Vila Real situa-se a cardiologia numa ala e na outra a obstetrícia. Enquanto o meu coração me traía a minha prima celebrava a chegada do Daniel. “É a vida que segue/E não espera pela gente”. 

Tentei visitar o Daniel no dia em que nasceu, mas a minha “fuga” foi abortada. Como estava ligada a uma “pulseira electrónica” (a telemetria que monitoriza o coração ) fui barrada e enviada para o quarto como uma adolescente rebelde. 

Inconformista que sou escapuli-me por minutos da protegida redoma nos dias seguintes. Explico o modus operandi da transgressão. Todas as manhãs os pacientes são desconectados dos fios para tomarem um duche, mal me apanhei de duche tomado e enquanto as enfermeiras – extraordinárias todas elas – se ocupavam de outros pacientes materializei a “fuga”. Pé ante pé, ou melhor chinelo ante chinelo, escapuli-me pelo corredor para conhecer o mais novo membro da família.

3. Quando regressei à cama lembrei-me de Ahab e de Moby Dick. Em frente ao mar sozinho, procurando a sua obsessão, confrontado com as suas angústias e com o que ficou por cumprir. Todos temos a nossa baleia branca que de alguma forma se torna no nosso rumo de navegação. A minha baleia é a liberdade, acreditar que um mundo mais humano é possível e na subtileza do amor. Não temo a morte, temo o deixar tanto por cumprir. Vivi, vivo a vida que quero, que escolhi. “Creio que a noite/Sempre se tornará dia/E o brilho que o sol irradia/Há-de sempre nos iluminar”. A Mariza, que conheci este ano em Maputo, foi a banda sonora do meu internamento e o Cohen, a sós com o mundo.

4. Haverá poucos locais mais solitários que uma cama de hospital. Ali despojados, amarrados a fios, a oxigénio, somos uma espécie de frágil Dhow à mercê dos ventos. Montesquieu terá dito com algum exagero: “não há nenhum desgosto que uma hora de leitura me não console.” Mãos amigas fizeram-me chegar livros. Reli o Borges Coelho e o seu magnífico conto sobre a Ilha de Moçambique de que retive uma frase: 

“Como em todas as ilhas, também aqui os habitantes são inquietos, olhando o continente com desdém, outras vezes como se o desejassem. Nunca se decidindo, todavia, a alcançá-lo.” Não sou ilhéu, preciso de pontes. 

Por falar em pontes. Faço um parêntesis aqui nesta crónica para falar das visitas. A São que eu apenas conhecia do Facebook, assim como a Isabel, a Ana e o Nuno (um anjo da guarda que me foi enviado por outro anjo, maroto, mas anjo lá longe no calor de Luanda) comoveram-me, as centenas de mensagens de amigos, conhecidos e desconhecidos iluminaram-me as horas. 

O amor incondicional, preocupado, da minha família, os conselhos a 3 mil quilómetros de distância encurtaram a solidão. 
5. Confesso-vos uma última transgressão. As minhas tristes refeições de hospital foram adoçadas pelo arroz doce traficado pela minha tia Antónia. Saboreado em doses medicinais que foram uma ode ao palato.
( agora é tempo de entrar em slow motion por uns tempos)
Obrigada.

 


13 thoughts on “Crónica do meu internamento

  1. Rápida e completa recuperação! Aprendi há muito que o coração,bem tratado, resiste a tudo! Ainda bem que foi logo tratada no hospital,estou certo que bem! Apenas amigo do fb,creia que lamento o sucedido.

    Liked by 1 person

  2. Gute Erholung liebe Lena! Der nächste Fallschirmsprung muss nun noch etwas warten…. vielleicht komme ich mit! Alles Liebe und fühle dich fest gedrückt! Deine Dani

    Liked by 1 person

  3. Ó pá, deixa-te de merdas e põe-te boa depressa porque as tuas filhas precisam de ti ! Acaba lá com as viagens constantes à volta do mundo, à procura de algo que não existe; e começa a fazer viagens à volta do teu quarto. Abraço-te até doer!

    Liked by 1 person

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s