Homens entre os homens 

Há uma palavra que aprendi em Gulu ao jantar com uma dinamarquesa e um sudanês do sul. 

Ele contava que ainda não tinha conseguido reunir o suficiente para o dote da mulher, 150 vacas, e que poupava cada moeda ganha. Fugiram juntos, vivem separados. Quase um Romeu e Julieta em tempos de guerra, se bem que o que os separa não é a inimizade entre tribos, mas a manada incompleta. 

Ela, muzungo como eu, falava do animal diferente que é o Sudão do Sul. Talvez o mais complexo dos países africanos. 
Eles conheceram-se em Bor, a cidade do massacre onde as árvores dão um estranho e abundante fruto, os abutres. Eu conheci-os em Juba. 

Com eles passei três dias de recolher obrigatório na gaiola dourada que era o hotel. Três dias são intermináveis num país em guerra, quase tão perturbadores como aterrar em Juba e enfrentar os militares de azul sobre negro. É um pouco como uma cena de Beast of no Nation. Ray Ban negros sobre pele negra, de um negro azul como o uniforme, quase impossível de perceber onde acabava a pele e começavam os óculos.

Não sendo eu propriamente baixa, nem pequena, nem medrosa, senti-me uma criança em frente àqueles homens. Dinkas com mais de dois metros de altura e um intimidante perímetro torácico. 
“Muonyjang” disse-me ela. “Desculpa?”. “Para os Dinka há homens e há os homens entre os os homens, os Muonyjang, eles próprios”. 
( retomarei esta história, a electricidade já falhou mais de uma dúzia de vezes, está uma tempestade lá fora e eu estou a ficar sem bateria)


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