Um americano em Gulu ou reflexões sobre refugiados em volta de uma chávena de café


Quando o dia começa a dar sinais de cansaço caminho pelas ruas de Gulu misturando-me com os locais. Já conheço os atalhos que me levam ao centro da cidade. 
Tattatatatatum. Um jovem homem em tronco nu, músculos tensos como a corda de arco, sentado na terra batida martela uma chapa zincada. Os últimos raios do sol derramam-se as panelas e os fogões de carvão transformando-as em prata pura, simulacro de um tesouro.

As boda-boda fazem malabarismos, passam à queima-roupa. Aprendi a olhar os condutores nos olhos, com firmeza mas sorrindo, para garantir o direito de cruzar a estrada.
Passo o mercado de Gulu. Esplêndido, caprichoso como todos os mercados, ilustrando a precariedade dos negócios, a transitoriedade das circunstâncias, a fragilidade das pessoas. Comprei abacate para o jantar. 
Em Gulu as mulheres são responsáveis pôr o pão em casa. “E os homens? “. “Ah os homens”, sorri a mulher que estende o saco. Que um simples abacate me leve por caminhos para lá da simples compra e venda não me devia surpreender. Há no mercado um exército de ausentes, os homens. Apetecia-me ter ficado à conversa com ela.
Entro no local mais improvável de Gulu, o Iron Donkey, e de repente estou num cenário doméstico. Há dois anos, pela melhor razão de todas, um amor louco que lhe abrasou o peito, um americano decidiu abrir um café. O único na cidade que serve café de máquina, cupcakes e bolo de canela. 
Marquei um encontro comigo mesma em frente a uma chávena de Cappuccino. 
Passei o dia a enterrar mortos, os deles, dos meus alunos-refugiados, mortos e perdas reais, que se tornaram meus. Escutei-lhes as histórias. Cadáveres. Caminhadas a pé, atravessando rios, o medo como sombra durante a fuga. 
O apego instintivo à existência faz com que acreditem e acalentem o sonho de voltar ao seu país. 

Não se inquietem os europeus , não temam, mesmo tendo conhecido o inferno eles não põem os olhos na Europa, põem-nos no seu chão. Agradecem ao Uganda que os recebeu talvez com a bondade de uma mãe (ou de um país que sabe o que a guerra significa) e sem serem mal agradecidos rezam para que o pano da guerra desça a menos de cem quilómetros do local onde estou. 
Há momentos em que me sinto muito só, as metáforas de que disponho para contar o horror são limitadas e não quero, não posso de tão insuportáveis que são as biografias tocadas pelas flores malignas da guerra, descreve-las com precisão cirúrgica. Contei aqui que há um jovem sudanês que na língua lição de chama “nascido para matar e ser enterrado vivo”. Preciso de metáforas? 
Também não as posso, não as quero calar. São verídicas, têm rosto, nome e foram elas que me ensinaram que a resignação não é uma opção. A pena ou a compaixão não bastam. 
Caminhar tranquiliza-me. A confusão das ruas amainou, como uma tempestade tropical que se dissipa. 
Amanhã vou escutar mais histórias e demorar-me em cada fotograma delas. Enterrei mortos nesta terra, tornou-se minha.
( as fotografias são todas minhas) 

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