24 horas, 3 países e a teoria dos seis graus de separação. 

Coloquei na mala no último instante um romance comprado há muito e que quedava por abrir. O parágrafo inicial contém a frase maravilhosa de Elias Canetti, “as interruptas idas e vindas do tigre diante dos barrotes da jaula para não que se lhe escape o único e brevíssimo instante da salvação”. De alguma maneira todos somos esse tigre, procurando instantes breves.
Quando a luz do avião da Ethiopian Airlines foi desligada fechei as páginas e procurei um filme. Sem paciência para Blockbusters percorri a lista dos “clássicos” e encontrei-o. Um dos meus filmes de sempre “As Pontes de Madison County”. O argumento é simples, como o são os grandes sentimentos. Francesca, interpretada por uma extraordinária Meryl Streep, vive numa quinta perdida no meio do nada, tem uma existência decente e morna até conhecer Robert (Clint Eastwood) um fotógrafo de passagem. Em apenas quatro dias, em que cederam à divina inconsciência do prazer, em que foram piano e partitura, nasceu o amor pelo qual esperaram toda a vida. “Só tenho uma coisa a dizer, apenas uma; nunca voltarei a dizê-la a ninguém, e peço-te que lembres dela: num universo de ambiguidades, este tipo de certezas só existe uma vez e nunca mais, não importa quantas vidas se vivam”. Nem todo o sentimento contido nestas palavras foi suficiente para que Francesca quebrasse as convenções – se divorciasse – e tivesse a coragem viver plenamente. Como um sol privativo o vazio no peito acompanhou-a até à morte. O tigre não aproveitou o instante de salvação. 
Durante as muitas horas que passei em Adis cumpri o ritual do café etíope. À minha frente duas jovens mulheres, uma negra e uma de traços indianos, ambas viajantes sozinhas como eu, falavam de pontes e estruturas. À despedida trocaram cartões de visita. “O seu apelido é?”. “Português”. A “Silvahh” de Cape Town, negra descendente de madeirenses, e a “Gusmau” de Pretória, descendente de goeses. A portuguesa de Bissau foi assaltada por uma inesperada e doce nostalgia e mergulhou o olhar nas páginas do livro. 
Em Entebbe, nas margens do lago Vitória, o maior lago africano, fiquei instalada na Berkeley Road,uma das cidades onde fui muito feliz. 

Passei a tarde a estudar no centro de conservação da vida selvagem. Nas minhas costas a Praia ao entardecer, com a sedutora eloquência que a luz alaranjada tem ao cair sobre a água, à minha frente as girafas. Num estranho momento de magia quando virei a cadeira para a Praia e dei as costas às girafas, uma delas aproximou-se, esticou o pescoço atravessando a minha varanda e parecia querer ler comigo os apontamentos que preparei para os meus alunos. 

Vida como és bela. Mesmo que os instantes de salvação sejam fugazes.


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