Filhos do UNHCR

 Escrevo sentada no chão. O vento fustiga a a areia em meu redor, tudo esvoaça. Presságio ténue do que podem ser as tempestades secas aqui em Kakuma.Sacos de plástico prendem-se na cerca de arame e nos espinhos dos arbustos. Estranhas flores transitórias.

É de transição, de duração, o mais efémero dos sentimentos, que quero falar. 
Diz-se que quando alguém quer provar coragem o resolve com eufemismos. Poucas vezes encontrei seres humanos tão corajosos como os que se cruzam comigo aqui. É impossível ignorar a força e a circularidade do seu desespero. Não precisam de eufemismos, nem eu os vou usar.
Tenho em sala jovens, uma geração de apátridas, que não pertencem ao Quénia – que generosamente os acolhe, tenho de repetir isto muitas vezes, muitas vezes – nem ao país que lhes empresta a nacionalidade e que muitos deles nunca viram. São, não os filhos do vento das guerras que varam este continente, mas os filhos do UNHCR. Chamam casa ao campo de refugiados em que cresceram, porém recusam-se a ser objecto de caridade toda a uma vida.

Os refugiados que vão à escola (metade deles não o pode fazer porque não tem dinheiro para pagar as propinas) são os melhores alunos das escolas quenianas. Sabem que só a educação os pode resgatar. A competição pelas poucas bolsas de estudo nacionais e internacionais é impiedosa e o estudante só pode concorrer três vezes.
Os que não a conseguem são condenados a uma prisão a céu aberto. “O que posso fazer agora?”, questiona uma jovem somali ao saber que não lhe foi atribuída uma bolsa, “se não saio do campo acabarei casada. Eu fui à escola, sei que há um mundo lá fora e quero fazer parte dele e explorá-lo. Não quero ser uma esposa amarrada a práticas culturais retrógradas. Quero casar quando puder dar aos meus filhos uma vida melhor do que a que tenho. Todas as minhas esperanças estavam nesta bolsa e na possibilidade de sair do campo”.
Impossível manter a contenção. Ensino jornalistas há muitos anos, nunca encontrei jovens tão dedicados, com tanta capacidade de trabalho e empenho como entre os refugiados. Talvez porque entendam como ninguém que a geografia se inscreve no código genético da vida.
Um campo pode ser um lugar aonde se chega, um provisório que se torna definitivo, e de onde nunca se parte.
Porra, já estou a chorar e não é da areia.


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